Por Camilo Castelo Branco (1864)
Está muito alta, e esbelta, que parece uma inglesa. E o garbo com que ela sacode um cavalo... V. Exª está a mangar comigo? -perguntou de súbito o deputado, após um instante de reflexivo silêncio.
- Se estou a mangar com V. Exª?! Que pergunta!
- Sim! pois o Sr. Afonso vem-me perguntar a mim se ela está bonita?! Quem sabe melhor que V. Exª como ela está?!... Ora, meu amigo, vá contar essas histórias aos da Lourinhã. Cá para mim vem barrado!
- Dou-lhe palavra de honra - redarguiu Afonso - que a minha pergunta foi sincera. Eu vi Teodora; mas tão de relance que não pude reparar-lhe nas feições.
- A sua palavra de honra tem para mim o peso de um Evangelho – tornou gravemente o cavalheiro de Braga. - Pois, senhor, o mundo está enganado. A voz geral dá V. Exª como amante de Teodora. Eu não me atrevia a dizer-lho tanto às escáncaras; porém, chegadas as coisas a este ponto, fique sabendo que ninguém acredita na sua inocência, excepto o Eleutério, que é muito bom homem.
E escusado dizer que o indivíduo riu de novo, esfregou as mãos e exclamou abruptamente aguilhoado pelo instinto oratório:
- Ainda há quem case! Ainda há vítimas que espontaneamente se ofereçam no altar das mulheres! Chegamos a um tempo em que ninguém pode sinceramente dizer que conhece seu pai. Os assentos dos baptismos estão todos falsificados. Os mandamentos da lei de Deus, o nono sobre todos, vai ser tirado do catecismo. Vem aí um tempo em que o artigo da lei santa há-de ser assim reformado: "Não desejarás a tua mulher para não incomodar os direitos do próximo!" Onde irá isto assim parar, Sr. Afonso de Teive?
O deputado, entre sério e risonho, prolongou por três quartos de hora, em estilo declamativo, um aranzel de lugares-comuns, entreamado de pilhérias, com referência à degeneração da sociedade, no capítulo casamento. Afonso achava picante de grosso sal a iracúndia cómica do legislador, e estimulava-lhe a veia. Afinal o deputado, contente.
de si, foi para S. Bento, mais que muito persuadido de ser ele o predestinado para
levantar voz no Parlamento decretando a moralização das famílias.
Afonso ficou pensativo. As revelações lisonjeavam-no. O odioso do carácter de Teodora desvaneceu-lhe a impressão já majestosa, já condolente, do viver da morgada.
"Uma sublime desgraçada!", dizia ele consigo. "Uma sublime desgraçada, que, ligada a mim, seria a mais sublime das criaturas!"
E trabalhado por esta ideia, que pertinazmente lhe martelou no ânimo, Afonso de Teive arrependeu-se de ter queimado a carta recebida na manhã daquele dia. Queria relê-la, metê-la a beijos na retentiva do coração!
À noite foi ao teatro, e entreteve-se largo tempo com D. José de Noronha. Versou a prática sobre o aceitar benignamente os acometimentos de Teodora. D. José mostrava-se já enfastiado da imbecilidade moral do seu amigo, e, portanto, lhe pedia que de todo em todo esquecesse a mulher, se portasse como rapaz de cena ordem; ou obedecesse ao coração, aceitando a felicidade das mãos fosse de quem fosse.
Nesta mesma noite, o moço, vencido afinal pela irresistível necessidade de ser semelhante a todos os homens, escreveu uma estirada carta. Principiava nas recordações da infância de ambos: devia de ser alta e amorável poesia, como o coração a trasborda, se de um ponto negro da vida os olhos rompem as trevas, e vão lá ao longe remergulhar-se no pélago da luz, que mais não há-de raiar em nossos dias. Tristeza mais que todas magoativa!
Depois, memorava os dias de amor, desabrochado já o seio em plena florescência, com os seus desejos balbuciados em frases todas alma e enleio, dulcíssima linguagem, que era ainda a das quimeras pueris, mal desvanecidas no trajecto da infância à adolescência. Poesia ainda, flor sempre lustrosa e verdejante, porque a sua tige está continuo a medrar em lágrimas, de onde paixão nenhuma hedionda dos vindouros tempos lhe há-de extirpar a raiz.
Seguia-se o recordar as dores atrozes do abandono dela, quando o moço, em Lisboa e Ruivães, duas vezes se atirara aos braços da morte, aceitando o Inferno, se o lembrar-se o condenado da mulher que amou na Terra não era já o máximo tormento.
Afinal, após os queixumes, subiu-lhe do coração aos olhos numa lágrima o perdão. Perdão e amor: que não há aí, em alma humana, perdoar ingratidões sem beijar a mão que nos alanceou. Esquecer, sim; mas esquecer é desprezo, não é perdão.
Escrita e fechada a carta, sobresteve Afonso no remetê-la. Acaso iria ela, sem desvio, às mãos de Teodora? As injustas suspeitas não poderiam ter Eleutério desobreaviso? E, demais, reatadas as ligações de estima, iria Afonso, contra a vontade de sua mãe, para casa, e sustentaria ali o cortejo à mulher casada?
Estes quesitos falavam à razão; porém, a pobrezinha da razão estava já escondida na consciência, e a consciência ensurdecera com a guizalhada do baile carnavalesco em que seu dono a mandara estudar os costumes do seu tempo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.