Por Camilo Castelo Branco (1862)
O criado que levou o jantar à cadeia voltou com ele, e contou-nos que Simão já tinha alguns móveis no seu quarto, e estava jantando com exterior sossegado. Aquela hora todos os sinos de Viseu estavam dobrando a finados por alma de Baltasar.
Ao pé dele disse o criado que estava uma formosa rapariga de aldeia e coberta de lágrimas. Apontando-a ao criado que a observava, disse Simão: — A minha família é esta.
No dia seguinte, ao romper da manhã, partimos para Vila-Real. A mãe chorava sempre; o pai, encolerizado por isso, saiu da liteira em que vinha com ela, fez que eu passasse para o seu lugar, e fez toda a jornada na minha cavalgadura.
Logo que chegamos a Vila-Real, eram tão freqüentes as desordens em casa, à conta do Simão, que meu pai abandonou a família, e foi sozinho para a quinta de Montezelos. A mãe quis também abandonar-nos e ir para os primos de Lisboa, a fim de solicitar o livramento do mano. Mas o pai. que fizera uma espantosa mudança de gênio, quando tal soube, ameaçou minha mãe de a obrigar judicialmente a não sair da casa de seu marido e filhas.
Escrevia a mãe a Simão, e não recebia resposta. Pensava ela que o filho não respondia: anos depois, vimos entre os papéis de meu pai todas as cartas que ela escrevera. Já se vê que o pai as fazia tirar no correio.
Uma senhora de Viseu escreveu à mãe, louvando-a pelo muito amor e caridade com que ela acudia às necessidades de seu infeliz filho. Esta carta foi-lhe entregue por um almocreve; quando não, teria o destino das outras. Espantou-se minha mãe do conceito em que a tinha a sua amiga, e confessou-lhe que não o tinha socorrido, porque o filho rejeitara o pouco que ela quisera fazer em seu bem. A isto respondeu a senhora de Viseu que uma rapariga, filha dum ferrador, estava vivendo nas vizinhanças da cadeia, e cuidava do preso com abundância e limpeza, e a todos dizia que ali estava por ordem e à custa da senhora D. Rita Preciosa. Acrescentava a amiga de minha mãe que algumas vezes mandara chamar a bela moça, e lhe quisera dar alguns cozinhados mais esquisitos para Simão, os quais ela rejeitava, dizendo que o senhor Simão não aceitava nada.
De tempos a tempos recebíamos estas novas, sempre triste, porque, na ausência de meu pai, conspiraram, como era de esperar, quase todas as pessoas distintas de Viseu contra o meu desgraçado irmão.
A mãe escrevia aos seus parentes da capital implorando a graça régia para o filho; mas aquelas cartas não saiam do correio, e iam dar todas à mão de meu pai.
E que fazia este, entretanto, na quinta, sem família, sem glória, nem recompensa alguma a tantas faltas? Rodeado de jornaleiros, cultivava aquele grande montado onde ainda hoje, por entre os tojos e urzes, que voltaram com o abandono, se podem ver relíquias de cepas plantadas por ele. A mãe escrevia-lhe lastimando o filho; meu pai apenas respondia que a justiça não era uma brincadeira, e que na antigüidade os próprios pais condenavam os filhos criminosos.
Teve minha mãe a afoiteza de se lhe apresentar um dia, pedindo licença para ir a Viseu. Meu inexorável pai negou-lha, e invectivou-a furiosamente.
Passados sete meses, soubemos que Simão tinha sido condenado a morrer na forca, levantada no local onde fizera a morte. Fecharam-se as janelas por oito dias; vestimos de luto, e minha mãe caiu doente.
Quando isto se soube em Vila-Real, todas as pessoas ilustres da terra foram a Montezelos, a fim de obrigarem brandamente o pai a empregar o seu valimento na salvação do filho condenado. De Lisboa vieram alguns parentes protestar contra a infâmia, que tamanha ignomínia faria recair sobre a família, Meu pai a todos respondia com estas palavras: — A forca não foi inventada somente para os que não sabem o nome do seu avô. A ignominia das famílias são as más ações. A justiça não infama senão aquele que castiga.
Tínhamos nós um tio-avô, muito velho e venerando, chamado Antônio da Veiga. Foi este quem fez o milagre, e foi assim: Apresentou-se a meu pai, e disselhe: — Guardou-me Deus a vida até aos oitenta e três anos. Poderei viver mais dois ou três? Isto nem já é vida; mas foi-o, e honrada, e sem mancha até agora, e já agora há de assim acabar; meus olhos não hão de ver a desonra de sua família. Domingos Botelho, ou tu me prometes aqui de salvar teu filho da forca, ou eu na tua presença me mato. — E, dizendo isto, apontava ao pescoço uma navalha de barba. Meu pai teve-lhe mão do braço, e disse que Simão não seria enforcado.
No dia seguinte, foi meu pai para o Porto, onde tinha muitos amigos na Relação, e de lá para Lisboa.
Em principio de março de 1805, soube minha mãe, com grande prazer, que Simão fora removido para as cadeias da Relação do Porto, vencendo os grandes obstáculos que opuseram a essa mudança os queixosos, que eram Tadeu de Albuquerque e as irmãs do morto.
Depois..."
Suspendemos aqui o extrato da carta para não anteciparmos a narrativa de sucessos, que importa, em respeito à arte, atar no fio cortado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.