Por Eça de Queirós (1940)
De resto o grande acontecimento é o Caso Ponge. Não sei se sabem aí deste episódio judicial. A história é simples. Um sujeito, Louis Stanton, casou por dinheiro com uma mulher e vivia por amor com outra. Para não se ver embaraçado nos seus sentimentos colocou a esposa em casa do seu irmão e foi habitar com a amante para o campo. Passado tempo, a esposa começou a definhar, a adoecer – e quando ela morreu num estado de anemia e de magreza medonhas, os médicos chamados a examinar (em vista das suspeitas nascentes) declararam que a pobre senhora fora sistematicamente morta à fome! Ergueu-se um grito de horror em toda a Inglaterra. Louis Stanton, a sua amante (uma rapariga de dezanove anos), o irmão de Louis e a cunhada foram presos, julgados e condenados à morte.
Aqui está, em resumo, o prólogo.
As audiências causaram a excitação de um drama, comovente: os depoimentos das testemunhas, as respostas dos réus, os discursos e réplicas dos advogados, as frases sempre notáveis do ilustre juiz Hawkins, eram devorados por todo o país com a sofreguidão de uma novela de sensação! O tribunal estava apinhado de celebridades, mesmo de ladies famosas, cujos lacaios traziam em cestos lanche e champanhe para sustentar as forças da dama delicada, nas fadigas daquelas longas audiências.
Desenhistas hábeis, postados em todos os cantos, esboçavam a atitude dos réus, os gestos de aflição, as convulsões da pobre amante (Alice Rhodes) – e estes desenhos eram vendidos nas ruas e encaixilhados em salões. Enfim, um verdadeiro processo de prazer.
A última audiência, de que pude surpreender, através da multidão, alguns episódios, foi trágica. Nunca ouvi nada tão poderoso como o discurso do juiz aos jurados, fazendo o sumário do processo. De pé, falou durante sete horas, com uma eloquência sombria e elevada que destilava a morte. Pareceu-me ter mais a paixão de um acusador do que a veracidade de um juiz. Mas como arte, era maravilhoso.
Quando o júri voltou com o veredicto, provando o crime, houve um momento de terrível impressão. O juiz ergueu-se, colocou sobre a cabeça um gorro negro e todo o mundo se pôs de pé, num silêncio ansioso.
Então leu, com voz lenta, a sentença de morte.
Os dois réus estavam como hirtos; mas as duas senhoras estavam sustentadas nos braços de dois comissários de polícia.
Quando o juiz Hawkins findou a leitura, ergueu o braço e disse:
– Que Deus tenha misericórdia das vossas almas.
Toda a audiência respondeu com a mesma voz lamentosa:
– Amen!
No dia seguinte um jornal, o Daily Telegraph creio eu, insinuou que lhe parecia bem pouco comprovado o crime, e bem severa a sentença. Outro jornal retomou o assunto, repetindo a mesma opinião; e depois outro, outro e outro. Imediatamente a opinião agita-se: os jornais começam a publicar cartas, que, numa argumentação cerrada e sagaz, provavam a falta de provas do homicídio; depois advogados escreveram, censurando a marcha do processo, cheio de nulidades; logo sacerdotes, membros do parlamento, mulheres, mães de família, de todas as partes de Inglaterra, cada um do seu ponto de vista, com os seus argumentos especiais, censuraram a condenação: e enfim, coisa grave, os médicos começaram a declarar que os sintomas apresentados no exame do cadáver não eram de morte por fome, mas de tubérculos no cérebro.
Imediatamente, instala-se em Canon Street Hotel uma comissão de pessoas importantes para obter da rainha a comutação da pena: fazem-se meetings, abrem-se petições à assinatura pública, e toda a Inglaterra, profundamente revolvida por esta agitação, pede o perdão para os réus! Em vista disto, o Governo perdoa!
Ao princípio foi um clamor de triunfo. Mas depois vem a reflexão. Que tinha feito a Inglaterra? Tinha destruído a sentença de um tribunal, com uma agitação popular. Mas então a lei, os códigos, a justiça, os magistrados, as fórmulas, tudo é inútil, só quem decide em último recurso é a imprensa e o público. Todo o mundo estava um pouco embaraçado com a vitória. E então francamente cada um começou a considerar que se tinha ido longe no movimento apaixonado da sensibilidade.
A rainha tinha-se talvez apressado de mais a perdoar. A administração da justiça passara, por um golpe de estado popular, das mãos da magistratura para as mãos do público; a instituição do júri é inútil; os processos ociosos; os crimes seriam condenados ou absolvidos segundo o bom ou mau humor da opinião.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.