Por Eça de Queirós (1912)
Como os bandos cada dia recrutavam novos tunos, ou aprisionavam servos, ninguém estranhava a sua presença. “A quem pertences?” perguntavam-lhe. Ele atirava um gesto vago para as tendas. E julgando-o idiota, como todos os gigantes, deixavam-no ir, ou aproveitavam a sua força para mover os pipos, rachar lenhas, descarregar dos machos os grandes fardos amarrados com cordas. Tendo trabalhado, Cristóvão comeu e bebeu. A noite caiu: as estrelas luziram. Por toda a parte se acenderam fogos. Em torno deles os homens bebiam, jogavam os dados, ou escutavam um monge contando histórias do Diabo. Por vezes um grito de mulher espancada cortava o ar. As canções imundas abafavam o grito das sentinelas. E da colina, onde acampavam os chefes, vinha uma música doce de pífanos e atabales.
Cristóvão, no entanto, ia através das tendas. Se via um tuno ferido que punha pano nas chagas agachava-se para ajudar. Aos cavalos presos,que relinchavam voltando o focinho para água, ia buscar uma dorna cheia. E aliviava as mulheres dos fardos de lenha que os homens as obrigavam a acarretar. Ms aquela gente era má, queimava as aldeias, arrombava os sacrários, espancava duramente os animais, deixava as crianças morrendo à mingua nos silvados do caminho - e Cristóvão, alta noite, saiu do acampamento, pensando na sua simplicidade, que Jesus, seu amor, não o quereria entre aqueles corações duros.
Três dias e três noites caminhou, e penetrou por fim numa região de grande penúria. A terra seca, gretada, abandonada, nem produzia cardos. Toda a flor secara nas árvores. A cada instante, ossos de animais branquejavam nos caminhos. As gentes dos campos, que ele encontrava, não tinham mais que ossos sob os trapos que os cobriam, e os seus olhos brilhavam como os das feras. Por vezes, à beira de um riacho, viam-se mulheres, crianças maceradas, arrastando-se, devorando as raízes das árvores. Nas terras mais nuas, era a terra mesma que eles comiam às mãos cheias, entre lágrimas que lhes caíam nos dedos. Uma noite, passando junto de um cemitério, viu figuras sombrias, que, tendo desenterrado um morto, o talhavam em postas junto de uma fogueira. Depois foi um mendigo que lhe pediu para o proteger, porque a gente daqueles sítios atacavam os pobres mais fracos, para ter carne humana. Todo um dia Cristóvão caminhou com o mendigo às costas. E, batendo os dentes de horror, o mendigo contava de pais que comiam os filhos pequenos, de outros que atraíam os viajantes para os matar. Ao fim do dia, tendo posto o pobre coxo no chão para descansar, viu-o suspirar e morrer. De noite, por toda a parte luziam os olhos dos lobos, esfaimados também, correndo a roer os cadáveres. Negros bandos de abutres torneavam o ar.
E a dor de Cristóvão era tão grande que erguia os braços ao Céu, e gritava pelo Senhor. Ele decerto não escutava; À porta das ermidas, debalde o povo se apinhava, implorando misericórdia: os santos não desciam dos seus altares; as relíquias dos mártires pareciam ter perdido a força; e, desiludida do Céu, essa gente apedrejava os sacrários.
Quem salvaria os homens? E Cristóvão caminhava cheio de dor, por não os poder salvar. De que lhe servia a força dos seus grande braços, toda a vontade do seu coração!? Alargando os passo, atirando os olhos ao longe, ele só procurava um meio de servir aos homens – e mesmo por vezes lhe vinha a idéia de reunir alguns miseráveis, e dar-lhes a sua própria carne a comer.
Um dia que assim pensava, chegou a uma terra onde viu homens cavando o torrão, outros arando, outros semeando. Um troço de besteiros vigiava aqueles homens, que a fome emagrecera: - e um, monge, com um tinteiro metido no cinto de corda, lia um rol de nomes. Eram os abades dos mosteiros, os bispos em concílio, que assim arregimentavam os mais fortes das aldeias, e por uma ração de pão os obrigavam a trabalhar, para que as terras não ficassem incultas e não fosse maior o tormento da fome. As mulheres, os filhos, vinham com eles para partilhar da magra ração de pão. Cristóvão pediu uma enxada; e tendo admirado a força dos seus braços, o monge indicou-lhe um campo a limpar do pedregulho e do tojo. Com que paixão ele se lançou ao trabalho! Era como se já estivesse saciando todas as fomes futuras. O tojo arrancado fazia montes junto aos seus grossos pés nus: - e ainda por vezes acudia a ajudar os mais fracos, que tropeçavam sob um carreto de pedras, ou, exaustos, deixavam fugir a enxada das mãos. Em torno as mulheres, sentadas, imóveis, com os filhos em redor, esperavam que os homens trouxessem ao fim da tarde a ração de pão, junta num cesto que os besteiros guardavam: mas a sua fome era tanta, que se precipitavam sobre os semeadores, quando, mergulhando a mão na sacola, atiravam, com um gesto lento, um punhado de grãos. Os besteiros tinham de correr, repelir as crianças que gritavam.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.