Por Eça de Queirós (1878)
Ele então tranqüilizou-a com a voz subitamente serena e humilde. Não percebia. Por que se zangava? Que tinha um beijo? Ele não pedia mais. Que tinha ela imaginado, então? Adorava-a, decerto, mas puramente.
- Juro-to! - disse com força, batendo no peito.
Fê-la sentar no sofá, sentou-se ao pé dela. Falou-lhe muito sensatamente: - Via as circunstâncias, e resignar-se-ia. Seria como uma amizade de irmãos, nada mais.
Ela escutava-o, esquecida.
Decerto, dizia ele, aquela paixão era uma tortura imensa. Mas era forte, a Só queria vir vê-la, falar-lhe. Seria um sentimento ideal. - E os seus devoraram-na.
Voltou-lhe a mão, curvou-se, pôs-lhe um beijo cheio na palma. Ela estremeceu-se logo:
- Não! Vai-te!
- Bem, adeus.
Levantou-se com um movimento resignado e infeliz. E limpando devagar a seda do chapéu.
- Bem, adeus - repetiu melancolicamente.
- Adeus
Basílio disse então com muita ternura:
- Estás zangada?
- Não!
- Escuta - murmurou, adiantando-se.
Luísa bateu com o pé.
- Oh, que homem! Deixa-me! Amanhã. Adeus. Vai-te! Amanhã!
- Amanhã! - disse ele, baixinho.
E saiu rapidamente.
Luísa entrou no quarto toda nervosa. E ao passar diante do espelho ficou surpreendida: nunca se vira tão linda! Deu alguns passos calada.
Juliana arrumava roupa branca num gavetão do guarda-vestidos. Quem tocou há bocado? perguntou Luísa.
- Foi o Sr. Sebastião. Não quis entrar; disse que voltava.
Tinha dito, com efeito, que voltava. Mas começava quase a envergonhar-se de vir assim todos os dias, e encontrá-la sempre "com uma visita!"
Logo no primeiro dia ficara muito surpreendido quando Juliana lhe disse:
- Um sujeito! Um rapaz novo que já cá esteve ontem!" Quem seria? todos os amigos da casa...Seria algum empregado da secretaria ou algum proprietário de minas, o filho do Alonso, talvez; um negócio de Jorge decerto...
Depois no domingo, à noite, trazia-lhe a partitura de Romeu e Julieta, de Gounod, que ela desejava tanto ouvir, e quando Juliana lhe disse da varanda que tinha saído com D. Felicidade de carruagem, ficou muito embaraçado com o grosso volume debaixo do braço, coçando devagar a barba. Onde teriam ido? Lembrou-se do entusiasmo de D. Felicidade pelo Teatro de D. Maria. Mas irem sós, naquele calor de julho, ao teatro! Enfim, era possível. Foi a D. Maria.
O teatro, quase vazio, estava lúgubre; aqui e além, nalgum camarote, uma família feia perfilavase, com cabelos negríssimos carregados de postiços, gozando soturnamente a sua noite de domingo; na platéia, à larga nas bancadas vazias, pessoas avelhadas e inexpressivas escutavam com um ar encalmado e farto, limpando a espaços, com lenços de seda, o suor dos pescoços; na geral, gente de trabalho arregalava olhos negros em faces trigueiras e oleosas; a luz tinha um tom dormente; bocejava-se. E no palco, que representava uma sala de baile amarela, um velhote condecorado falava a uma magrita de cabelos riçados, sem cessar, com o tom diluído de uma água gordurosa e morna que escorre.
Sebastião saiu. Onde estariam? Soube-se na manhã seguinte.- Descia o Moinho de Vento, e um vizinho, o Neto, que subia curvado sob o seu guarda-sol, com o cigarro ao canto do bigode grisalho, deteve-o bruscamente, para lhe dizer:
- Ó amigo Sebastião, ouça cá. Vi ontem à noite no Passeio a D. Luísa com um rapaz que euconheço. Mas de onde conheço eu aquela cara? Quem diabo é?
Sebastião encolheu os ombros.
- Um rapaz alto, bonito, com um ar estrangeirado. Eu conheço-o. Noutro dia vi-o entrar para lá.
Você não sabe?
Não sabia.
- Eu conheço aquela cara. Tenho estado a ver se me recordo... Passava a mão pela testa. - Euconheço aquela cara! Ele é de Lisboa. De Lisboa é ele!
E depois de um silêncio, fazendo girar o guarda-sol:
- E que há de novo, Sebastião?
Também não sabia. Nem eu!
E bocejando muito:
- Isto está uma pasmaceira, homem!
Nessa tarde, às quatro horas, Sebastião voltou à casa de Luísa. Estava com "o sujeito!" Ficou então preocupado. Decerto era algum negócio de Jorge; porque não compreendia que ela falasse, sentisse, vivesse, que não fosse no interesse da casa e para maior felicidade de Jorge. Mas devia ser grave então - para reclamar visitas, encontros, tantas relações. Tinham pois interesses importantes que ele não conhecia! E aquilo parecia-lhe uma ingratidão, e como uma diminuição de amizade.
A tia Joana tinha-o achado "macambúzio".
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.