Por Eça de Queirós (1870)
Às 11 horas do dia penetrávamos em plena floresta. O tigre devia ser encontrado numaclareira conhecida. Íamos calados, vergando ao peso implacável do sol, entre palmeiras, tamarindos, espessuras profundas, num ar sufocado, cheio de aromas acres. Toda aquela natureza estava entorpecida pela calma: os pássaros, silenciosos, tinham um voo pesado; assuas penas coloridas, vermelhas, negras, roxas, douradas, resplandeciam sobre o verde-negro da folhagem. O céu mostrava uma cor de cobre ardente; os cavalos marchavam com o pescoço pendente; os cães arquejavam; o boi que levava a água mugia lamentavelmente; sóo elefante caminhava na sua pompa impassível, enquanto os malaios, para esquecer a fadiga, diziam, com a voz monótona e lenta, cantigas de Bombaim.Estávamos ainda distantes do tigre: nem os cavalos tinham rinchado, nem o elefante soltara o seu grito melancólico e doce. To davia, achávamo-nos próximo da clareira.
Eu cheguei-me ao palanquim de Cármen e bati nas cortinas. Cármen entreabriu-as:estava pálida da fadiga do sol e do prazer do perigo; os olhos reluziam-lhe extraordinariamente. Ansiava pela luta, pelos tiros, pelo encontro da fera. Pediu-me uma cigarrette e um pouco de conhaque e água...Eu, desde que a conhecia, tinha muitas vezes olhado Cármen com insistência, e tinha visto sempre o seu olhar negro e acaricia dor envolver-me respondendo ao meu.Tinha-lhe algumas vezes dado flores, e uma noite que, num terraço em Calcutá, olhávamos as poderosas constelações da Índia, o céu pulverizado de luz, ela tinha ummomento esquecido as suas mãos entre as minhas. A sua beleza perturbava-me como um vinho muito forte. E ali, naquela floresta, sob um céu afogueado, entre os aromas de magnólias, Cármen aparecia-me com uma be leza prestigiosa, cheia de tentações a que se nãofoge.
— Ah, Cármen! — disse eu. — Quem sabe os que voltarão a Calcutá!- Está rindo, capitão... — Na caçada do tigre pode-se pensar nisto: o tigre é astuto; tem o instinto do inimigo mais bravo e do que mais lamentado.- Ninguém hoje seria mais lamentado que o capitão.
— Só hoje.- Sempre, e bem sabe porquê. De repente o meu cavalo estacou. — O tigre! O tigre! — gritaram os malaios.
Os cavalos da frente recuaram; os sipaios entraram nas fi leiras da caravana. Os cães latiam, os malaios soltavam gritos guturais, e o elefante estendia a tromba, silencioso. De repente, houve como uma pausa solene e triste, e um vento muito quente passou nasfolhagens.
Estávamos defronte de uma clareira coberta de um sol faiscan te. Do outro lado havia um bosque de tamarindos: era ali decerto que a fera dormia. Voltei-me para D. Nicazio: vi-opálido e inquieto
— D. Nicazio! Dê o primeiro tiro, o sinal de alarme!D. Nicazio picou rapidamente o cavalo para mim, murmurou com uma voz sufocada: — Quero subir para o elefante. Cármen não deve estar só, po de haver perigo... Falei aos malaios, que desdobraram a estreita escada de bambu, por onde se sobe aodorso dos elefantes. O cornaca dormia encruzado no vasto pescoço do animal. D. Nicazio subiu com avidez, arremessou-se para dentro do palanquim, e de lá, pela fenda das cortinas,espreitava com o olho faiscante e medroso.
Mas então foi Cármen que não quis ficar dentro do palanquim, pediu, gritou, queria montar a cavalo, sentir o cheiro à fera.- Tirem-me daqui, tirem-me daqui! Não fiz esta jornada toda para ficar dentro de uma gaiola...Não havia sela em que mulher montasse, nem cavalo bastante fiel; não se podia consentir que Cármen descesse. Mas eu tive uma ideia estranha, perigosa, tentadora, imprevista: era pô-la à garupa do meu cavalo. Disse-lho.Ela teve um gesto de alegria, quase se deixou escorregar, agarrando-se às cordas do palanquim, pelo ventre do elefante; correu, pôs o pé no meu estribo, enlaçou-me a cintura, e com um lindo pulo, sentouse à garupa. Os oficiais exclamavam que era uma imprudência.Ela queria, instava, e apertavame contra a curva do seu peito, rindo, jurando que nem as garras do tigre a arrancariam dali...Os malaios preparavam os tridentes, dispunham a matilha. Eu, como levava Cármen à garupa, tinha-me colocado atrás do grupo, cerrado, com os pés firmes no estribo, atento, os olhos fitos na espessura dos tamarindos.Mas nem se ouviam rugidos, nem um estremecimento de folha gem.
Cármen apertava-me exaltada.- Vá! Vá! — pediu-me ela baixo. — O tigre, o tigre! Dê o sinal! Ergui um revólver, e disparei. O eco foi cheio e poderoso. E logo ouviu-se um rugido surdo, lúgubre, rouco, que era a resposta do tigre. Estava perto, entre os primeirostamarindos. A matilha rompeu a ladrar...
— Que ninguém se alargue! — disse o velho brâmane, que tinha trepado a uma palmeira,e de lá olhava, farejava, ordenava. Todos conservaram a espada ou tridente inclinado em riste, es perando o salto do tigre. Eu dera uma cuchilla a Cármen, tinha na mão da rédea um forte revólver e na outra umpunhal curvo...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.