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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Que seja para o inferno! Pois, em toda a cidade, não há outro caminho para casa dasLousadas? Duas vezes em meia hora! Grande insolente! Tem uma chapada d'água de sabão, pela grenha e pela bigodeira, tão certo como eu ser Ramires, filho de meu pai Ramires!

Barrolo beliscava a pele do pescoço, constrangido ante aqueles rancores ruidosos que desmanchavam o seu sossego. Já, por imposição de Gonçalo, rompera desconsoladamente com o Cavaleiro. E agora antevia sempre uma bulha, um escândalo que o indisporia com os amigos do Cavaleiro, lhe vedaria o Club e as doçuras da Arcada, lhe tornaria Oliveira mais enfadonha que a sua quinta da Ribeirinha ou da Murtosa, solidões detestadas. Não se conteve, arriscou o costumado reparo:

- Ó Gonçalinho, olha que também todo esse espalhafato só por causa da Política...

Gonçalo quase quebrou o jarro, na fúria com que o pousou sobre o mármore do lavatório:

- Política! Aí vens tu com a Política! Por Política não se atira água suja aos Governadores Civis.Que ele não é Político, é só malandro! Além disso...

Mas terminou por encolher os ombros, emudecer, diante do pobre bacoco de bochechas pasmadas, que, naquelas rondas do Cavaleiro pelos Cunhais, só notava o "lindo cavalo" ou "o caminho mais curto para as Lousadas!..."

- Bem! - resumiu. - Agora larga, que me quero vestir... Do bigodeira me encarrego eu.

- Então, até logo... Mas se ele passar nada de asneiras, bem?

- Só justiça, aos baldes!

E bateu com a porta nas costas resignadas do bom Barrolo, que, pelo corredor, suspirando, lamentava o assomado gênio do Gonçalinho, as cóleras desproporcionadas em que o lançava

"a Política".

Enquanto se ensaboava com veemência, depois se vestia numa pressa irada, Gonçalo ruminou aquele intolerável escândalo. Fatalmente, apenas se apeava em Oliveira, encontrava o homem da grande guedelha, caracolando por sob as janelas do palacete, na pileca de grandes clinas! E o que o desolava era perceber no coração de Gracinha, pobre coração meigo e sem fortaleza, uma teimosa raiz de ternura pelo Cavaleiro, bem enterrada, ainda vivaz, fácil de reflorir... E nenhum outro sentimento forte que a defendesse, naquela ociosidade de Oliveira nem superioridade do marido, nem encanto dum filho no seu berço. Só a amparava o orgulho, certo respeito religioso pelo nome de Ramires, o medo da pequena terra espreitadeira e mexeriqueira. A sua salvação seria o abandono da cidade, o encerrado retiro numa das quintas do Barrolo, a Ribeirinha, sobretudo a Murtosa, com a linda mata, os musgosos muros de convento, a aldeia em redor para ela se ocupar como castelã benéfica. Mas quê! Nunca o Barrolo consentiria em perder o seu voltarete no Club, e a cavaqueira da tabacaria "Elegante", e as chalaças do major Ribas!

Afogueado pelo calor, pela emoção, Gonçalo abriu a varanda. Embaixo, no curto terraço ladrilhado, orlado de vasos de louça, precedendo o jardim, Gracinha, ainda soltos os cabelos por cima do penteador, conversava com outra senhora, muito alta, muito magra, de chapéu marujo enfeitado de papoulas, que segurava entre os braços um repolhudo molho de rosas.

Era a "prima" Maria Mendonça, mulher de José Mendonça, condiscípulo do Barrolo em Amarante, agora capitão do Regimento de Cavalaria estacionado em Oliveira. Filha dum certo D. Antônio, senhor (hoje Visconde) dos Paços de Severim, devorada pela preocupação de parentescos fidalgos, de origens fidalgas, ligava sempre sorrateiramente o vago solar de Severim a todas as casas nobres de Portugal - sobretudo, mais gulosamente, à grande Casa de Ramires; e, desde que o regimento se aquartelara em Oliveira, tratara logo Gracinha por "tu" e Gonçalo por "primo", com a intimidade especial, que convém a sangues superiores. Todavia mantinha amizades muito seguidas e ativas com brasileiras ricas de Oliveira - até com a viúva Pinho, dona da loja de panos, que (segundo se murmurava) lhe fornecia os dois filhos ainda pequenos de calções e de jalecas. Também convivia intimamente, já na cidade, já na Feitosa, com D. Ana Lucena. Gonçalo gostava da sua graça, da sua agudeza, da vivacidade maliciosa que a agitava numa linda crepitação de galho, ardendo com alegria. E quando, ao rumor da janela perra, ela levantou os olhos luzidios e espertos, foi em ambos uma surpresa carinhosa:

- Oh prima Maria! Que felicidade, logo que chego e que abro a janela...

- E para mim, primo Gonçalo, que o não via desde a sua volta de Lisboa!... Pois está mais lindo,assim de bigode...

- Dizem que estou lindíssimo, absolutamente irresistível! Até aconselho à prima Maria que senão aproxime muito de mim, para se não incendiar.

Ela deixou pender desoladamente nos braços o seu pesado molho de rosas:

- Ai Jesus, então estou perdida, que ainda agora prometi à prima Graça jantar cá esta tarde!... Oh Gracinha, por quem és, põe um biombo entre os dois!

Gonçalo gritou, pendurado da varanda, já deliciado com os chistes da prima Maria:

(continua...)

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