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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

No mesmo dia, um deputado chegado do Minho entregou a Afonso uma carta de sua mãe, incluindo outra de Mafalda. A senhora de Ruivães felicitava o filho por saber que ele procurava os passatempos da capital, admoestando-o a que procedesse honradamente no gozo dos prazeres, para que eles se não derrancassem em flagelos da consciência e infâmia. Mafalda, em poucas linhas, pedia-lhe que se não esquecesse dela e fosse fiel à promessa de estimá-la como irmã.

O deputado bracarense era sujeito que sabia as coisas para as dizer e saltava a quatro pés por cima disto que chamam delicadeza em assuntos de coração. Pelo que o expansivo deputado falou assim a Afonso:

- Ainda me lembro de V. Exª, quando rapazola estudava Retórica em Braga. Está certo de ser agarrado pelo regedor quando foi às Ursulinas atacar as freiras? Pois fui eu quem, a pedido de sua mãe, lhe vali no processo instaurado.

- Não sabia - atalhou Afonso. - Aproveito a oportunidade para agradecer a V. Exª...

- Não tem de quê. Mas com efeito -volveu o deputado, a rir de esperto - olhe V.

Exª o que fazem mulheres... ou mulherinhas... porque afinal a morgadinha da Fervença acanalhou-se até ir casar com um bruto de Tibães... Soube isto V. Exª?

- Perfeitamente. Era impossível que eu o não soubesse... - respondeu atentamente Afonso.

- Eu conheço Eleutério Romão dos Santos - continuou o informador. -O homem torce as grandes orelhas que tem, porque ela tem-lhe feito dar a água pela barbela. V. Ex.

há-de saber isto...

- Não sei senão que Teodora é mulher de Eleutério.

- Então eu Lhe conto. A rapariga tem fígados e ninguém o dirá vendo aquela lesma, que parece feita de manjar branco. Assim que entrou em casa, e se viu com o sogro Romão e com a sogra Eleutéria, deu ao diabo a cardada, pôs-se nas suas tamancas, e mobilou as suas salas e os seus quartos à moderna. O Eleutério quis reguingar-lhe; mas ela, às primeiras testilhas, falou em divórcio, ou coisa pior ainda, que era, pelos modos, fugir de casa, e procurar V. Exª. O marido pôs as mãos na cabeça quando ouviu falar em divórcio. A fortuna ali é quase toda de Teodora. Se ela se levantasse com o seu casal, o velhaco do tio, que preparou semelhante desgraça de casamento, dava um estouro. Começaram a fazer-lhe todas as vontades à moça. Para que lhe há-de ela dar? Imagine V. Exª para que lhe deu na veneta?

- Eu sei cá... - disse anelante de curiosidade Afonso.

- Fez-se doutora!... Mandou comprar dois carros de livros ao Porto; fechou-se no seu escritório, que parecia uma livraria de convento, e começou a ler de noite e de dia. Lá de dia passe; mas de noite, dava isso que pensar a Eleutério, casado à face da Igreja e dono da mulher pelos seus justos cabais. Passado tempo, deu-lhe outra mania; fez-se cavaleira, e rompia a galope pelo campo de Sant'Ana em Braga, a levantar poeira que parecia um esquadrão de cavalaria! Não parou ainda aqui o desarranjo daquela cabeça!

Tomou lacaio, deu-lhe libré avivada de vermelho, e andava por essas estradas do Minho com o lacaio em correrias de doida. Uma hora viram-na em Landim, outra em Santo Tirso, depois em Leça da Palmeira... Que novidades lhe estou contando!... – concluiu sorrindo o narrador.

- E do procedimento dela que se dizia? - atalhou Afonso, vivamente empenhado nas revelações do chaníssimo legislador.

- Do procedimento dela a que respeito? -perguntou o deputado, com suspeitoso sorriso.

- Amantes, quero dizer se a opinião pública lhe dava amantes.

- Eu lhe digo: quando V. Exª estava em Leça com sua mãe, e a morgada lá foi com o marido, alguém disse que o marido era um simplório. Ora isto parece-me que alguma coisa queria dizer...

O deputado espirrou uma risada de finura velhaca e ajuntou:

- Depois, quando V. Exª esteve em Ruivães uma temporada, e Teodora saia para aqueles lados, já todo o bicho-careta dizia que o adultério estava provado por todos os artigos do código e por mais alguns que esqueceram aos corpos legisladores-Aqui deu o representante de Braga uma segunda risada, expressiva de agudeza muito mais faceta.

Afonso sorriu-se e deixou-o esvaziar a pojadura da verbosidade chula.

- Não se fala por lá demais ninguém que eu saiba-tornou o deputado. -Mas o marido!, aquele palerma, que não lhe vai à mão, e a deixa andar em filistrias de cavalo e lacaio, faz-me pena, sinceramente lho digo, porque houve alguém que me afirmou que a mulher, quando está fechada na livraria, não o admite à sua presença, e até me disseram que ela passa toda a noite a consultar os seus livros! Logo: aquele marido está numa posição critica, matrimonialmente falando. Parece-lhe isso, Sr. Afonso? Aqui expediu o sujeito terceira risada, que tinha ideia oculta a meu ver, inconciliável com o comedimento desejável numa pessoa grave... de mais a mais deputado a cortes!

- Como está ela? - perguntou Afonso. - Ainda é bonita?

- Agora é que ela está completa. Encheu muito de ombros, e tudo à proporção.

(continua...)

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