Por Camilo Castelo Branco (1869)
Finda a relação, a filha do general foi tomar posse do quarto de Francisco, quedou largo tempo a examinar as mais insignificantes coisas, buliu nos livros, nas gavetas, nos papéis escritos, sorrindo a tudo.
― O meu livrinho das Esperanças? – perguntou ela.
― Levou-o. Costuma estar neste sitio – respondeu Joana indigitando um lugar vazio entre dois livros.
― Pois irá para o lugar dele o livro dos SONHOS.
E colocou o manuscrito, examinando os dois livros laterais. Eram também manuscritos, e ambos com o mesmo título: ÂNGELA.
Joana disse, sorrindo:
― Eu nunca lhe contei que ele tinha esses livros...
― Não.
― De propósito para que vossa excelência os não quisesse ver... Escreveu-os nos primeiros quatro anos da nossa pobreza. Passava as noites nisto, depois de gastar os dias no escritório. Lia-me às vezes alguma página, e abraçava-me se eu chorava. Mas não se entristeça, minha senhora! Já mudou de semblante!
― É felicidade! Não me lamente, minha amiga!... Como eu quero a estes dois livros!... E era capaz de me deixar morrer sem que eu os visse?
― Decerto! Deus me livrasse de eu ir inquietar vossa excelência!... Já depois que meu irmão saiu, estive aqui um dia muito doente, e pensava já em os rasgar, se piorasse; que não fosse alguém ler o que ele dizia de vossa excelência...
― Pensemos noutra coisa, minha amiga – tornou Ângela com os olhos rasos de gozosas lágrimas. – Temos em que trabalhar?
― Não precisamos; que meu irmão deixou-me metade dos trezentos mil réis que foi ganhar. Apenas gastei duas moedas deste dinheiro. Abra vossa excelência essa gaveta, que lá está o resto.
― Mas é necessário trabalhar, minha irmã. A ociosidade é o tédio, é a doença, é o desespero. Olhe que eu, quando me chamavam a brasileira do meio milhão, em cada dia, costurava cinco horas. E foi bom conservar os costumes adquiridos na pobreza do convento. a pobreza voltou; mas desta vez encontra-me prevenida, e de mais a mais disposta a desafiá-la para que me incomode.
― E como o prazer lhe salta nos olhos! – dizia Joana a contemplá-la, e a saborear o seu quinhão daquela comunicável alegria.
― Não, que a minha irmã não imagina quanto me sinto bem! Parece que renasci! Ó Vitorina, vai ver como está isso lá de cozinha. Tenho vontade de jantar. Vamos jantar logo, Joanhinha?... E se seu irmão nos aparecesse agora! Se ele me encontrasse de posse do seu quarto e dos seus livros, e a escrever as minhas novas Esperanças... Esperanças! – sorriu ela, acentuando a palavra. – Agora é que as esperanças de amanhã não hão de inquietar o bem de hoje! Até agora o que eu esperava era isto... esta paz, esta doçura de viver, sem parentes, sem ninguém, senão com as pessoas que sacrifiquei, e me querem bem, apesar de tudo, não é verdade?
― Mas se seu marido a vem buscar, minha senhora!
― Buscar-me! Eu morri, ou ele morreu... não sei bem quem foi; mas o certo é que nos não veremos mais...
Àquela mesma hora, Hermenegildo jantava na cevadeira de Atanásio. Escarmentado pela ceia da véspera, não comeu empadão de ostras; mas fez-se em lagosta e salmão. Depois de jantar, reuniu os amigos, e completou as instruções a seguir sobre a segura arrecadação da sua “fortuna”, alienação fraudulenta de quintas, casas e navios, tudo incontinente para antecipar-se à tentativa de divórcio com a separação do casal, a requerimento de sua mulher. Ao anoitecer, meteu-se em carruagem, e foi para S. Roque da Lameira, ou para a Cruz da Regateira: não liquidamos com certeza em qual das paragens pernoitou. O sabido é que uma das frescassas moças de Barrosas o seguiu para o Porto, no dia seguinte por noite, e tomou as rédeas do governo da casa do brasileiro, e achou bonitas as cortinas do leito nupcial de Ângela, quando pela manhã um raio de sol, através das rendas, aureolava a cabeça de Hermenegildo, contornada no braço trigueiro dela.
E, quinze dias depois, o brasileiro, chorado e lamentado dos amigos, embarcava em um dos seus navios, aproando às praias de Santa Cruz, onde, dizia ele, ia esconder a sua vergonha, associando à sua angústia a franduna rapagoa, Rosa Catraia, que se lhe encostava ao coração, enjoada com o balanço da galera!
A colônia de brasileiros portuenses longo tempo chorou a sorte dura de Fialho. Ali, na Praça-nova e no Jardim de S. Lázaro, se apinhavam os magotes daquele gentio a escoucear na honra de Ângela. Enquanto uns diziam que ela passara a abarregar-se com o incógnito amante, outros asseveravam ter exatas informações de que a tal fidalga da Cascos-de-rôlhas cedo poria em almoeda a sua beleza. E os homens honestos do Porto jungiam-se na maledicência com a vara de javardos que retoiçavam e foçavam na infâmia uns dos outros. E sobre aquela gente chovia, e chove Deus toda casta de prosperidades! E a providência ter-lhe-á dado quanto tem e pode no dia em que enviar sobre ela uma nova chuva... de albardas.
XIX AMOR-PRÓPRIO
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.