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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Ela colocara junto ao prato um livro aberto que me pareceu ser de versos; o barbaças, mastigando com o vagar majestoso de um leão, folheava também em silêncio o seu Guia do Oriente. E eu esquecia o meu carneiro guisado, para contemplar devoradamente cada uma das suas perfeições. De vez em quando ela erguia a franja cerrada das suas pestanas; eu esperava com ânsia o dom desse claro e suave olhar; mas ela derramava-o pelos muros caiados, pelas flores de papel, e deixava-o recair, desinteressado e frio, sobre as páginas do seu poema.

Depois do café beijou a mão cabeluda do barbaças; e desapareceu pela porta envidraçada, levando consigo o aroma, a luz, e a alegria de Jerusalém. O Hércules acendeu morosamente o cachimbo; disse ao moço "que lhe mandasse o Ibraim, o guia"; levantou-se, pesado e membrudo. Junto à porta derrubou o guarda-chuva de Topsius, do venerabilíssimo Topsius, glória da Alemanha, membro do Instituto Imperial de Escavações Históricas; e passou, sem o erguer, nem sequer baixar o olho altivo.

- Irra, bruto! - rosnei, a borbulhar de furor.

O meu douto amigo, com a sua cobardia social de alemão disciplinado, apanhou o seu guardachuva e escovou-lhe o paninho, murmurando, já trêmulo, que talvez "o barbaças fosse um duque..."

- Qual duque! Para mim não há duques! Eu sou Raposo, dos Raposos do Alentejo... Rachava-o!

Mas a tarde descia - e devíamos fazer a nossa visita reverente ao sepulcro do nosso Deus. Corri ao quarto, a ornar-me com o meu chapéu alto, como prometera à Titi; e penetrava no corredor quando vi Cibele abrir a porta, junto da nossa porta, e sair envolta numa capa cinzenta, com uma gorra onde alvejavam duas penas de gaivota. O coração bateu-me no delírio de uma grande esperança. Assim, era ela que cantarolava a Balada do rei de Tule! Assim, os nossos leitos estavam apenas separados pelo fino, frágil tabique coberto de ramarias azuis! Nem procurei as luvas pretas; desci num alvoroço, certo de que a ia encontrar no sepulcro de Jesus; e planeava já verrumar no tabique um buraco, por onde o meu olho namorado pudesse ir saciar-se nas belezas do seu desalinho.

Ainda chovia, lugubremente. Apenas começamos a atolar-nos no enxurro da Via-Dolorosa, entalada entre muros cor de lodo - chamei Pote para debaixo do meu guarda-chuva, perguntei-lhe se vira no hotel a minha forte e sardenta Cibele. O jucundo Pote já a admirara. E pelo Ibraim, seu compadre dileto, sabia que o barbaças era um escocês, negociante de curtumes...

- Aí está, Topsius! - gritei eu. - Negociante de curtumes... Qual duque! E uma besta! Eu rachava-o! Em cousas de dignidade sou uma fera. Rachava-o!

A filha, a das bastas tranças, dizia Pote, tinha um nome radiante de pedra preciosa: chamava-se Ruby, rubim. Amava os cavalos, era arrojada; na alta Galiléia, de onde vinham, matara uma águia negra...

- Ora aqui têm os cavalheiros a casa de Pilatos...

- Deixa lá a casa de Pilatos, homem! Importa-me bem com Pilatos! E então que diz mais o Ibraim? Desembucha, Pote!

Ali a Via-Dolorosa estreitava-se, abobadada, como um corredor de catacumba. Dous mendigos chaguentos roíam cascas de melões, assapados na lama e grunhindo. Um cão uivava. E o risonho Pote contava-me que o Ibraim vira muitas vezes Miss Ruby enlevada na beleza dos homens da Síria: de noite, à porta da tenda, em quanto o papá cervejava, ela dizia versos baixinho, olhando para a palpitação das estrelas. Eu pensava: "Caramba! Tenho mulher!"

- Ora aqui estão os cavalheiros diante do Santo Sepulcro...

Fechei o meu guarda-chuva. Ao fundo de um adro, de lajes descoladas, erguia-se a fachada de uma igreja, caduca, triste, abatida, com duas portas em arco; uma tapada já a pedregulho e cal, como supérflua; a outra timidamente, medrosamente entreaberta. E aos flancos débeis deste templo soturno, manchado de tons de ruína, colavam-se duas construções desmanteladas, do rito latino e do rito grego - como filhas apavoradas que a morte alcançou, e que se refugiam ao seio da mãe, meio morta também e já fria.

Calcei então as minhas luvas pretas. E imediatamente, um bando voraz de homens sórdidos envolveu-nos com alarido, oferecendo relíquias, rosários, cruzes, escapulários, bocadinhos de tábuas aplainadas por São José, medalhas, bentinhos, frasquinhos de água do Jordão, círios, agnus-dei, litografias da Paixão, flores de papel feitas em Nazaré, pedras benzidas, caroços de azeitona do Monte Olivete, e túnicas "como usava a Virgem Maria!" E à porta do sepulcro de Cristo, onde a Titi me recomendara que entrasse de rastos, gemendo e rezando a coroa - tive de esmurrar um malandrão de barbas de eremita, que se dependurara da minha rabona, faminto, rábido, ganindo que lhe comprássemos boquilhas feitas de um pedaço da arca de Noé!

- Irra, caramba, larga-me, animal!

(continua...)

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