Por Eça de Queirós (1940)
Os motivos do meu recolhimento são todos particulares. Assim, por exemplo, só a França que matéria não tem dado, nestas últimas semanas, a uma pena de boa vontade! Manifestos de sensação, tiranias de Governo, eleições impressionadoras, ameaças de golpe de estado – tudo essa boa França, que não gosta de deixar o mundo sem objecto de conversação, tem prodigalizado com a sua fecundidade de país de génio.
Aqui, em Londres, quem abrir um jornal inglês há-de pensar que no universo só existe a França: é dela que se fala, é sobre ela que se escreve; tudo o mais fica numa penumbra subalterna. As eleições de 14 de Outubro não foram para ninguém uma surpresa. A maioria republicana era certa. Podia-se supor, como sucedeu, que a pressão ministerial, tão miúda e tão pesada, tão vexatória e tão arbitrária, roubaria alguns votos aos republica-nos; mas em definitivo, a França, que é centro-esquerda, daria uma maioria mais ou menos numerosa à república. Alguns jornais dizem que a esquerda, pelo facto de não trazer à câmara os históricos e famosos trezentos e sessenta e três, sofreu uma derrota moral: eu penso que a circunstância de conseguir trazer trezentos e vinte, pouco mais ou menos, dada uma tal tirania governamental, é uma vitória eloquente.
A administração em França exerce, além da força que lhe dá a sua organização poderosa e sagaz, uma irresistível atracção sobre um povo educado na centralização. Tudo treme quando ela franze o sobrolho, e ninguém deixa de ficar enlevado quando ela sorri; em tais circunstâncias, ter-lhe resistido, como lhe resistiu, mostra na França convicções bem serias e uma vontade bem definida.
Que resta ao marechal agora? Num país sensato, como a Inglaterra, a coisa seria simples: o ministério batido seria demitido e o partido triunfante chamado ao poder, ninguém se agitaria, e a complicada máquina do Estado continuaria a rolar docemente nos seus carris. Em França, não. O ministério vencido teima, pela voz dos seus jornais, em se considerar vencedor e ameaça com baionetadas todos os que não forem dessa opinião extravagante. Consultou-se a vontade do país, e quando ele respondeu por milhões de vozes anão! o ministério diz, com um sorriso: «Bem; como o país respondeu «sim!» nós cá ficamos, para obedecer ao país.» E se o país amanhã, vendo que o «não!» que ele dissera pela boca das suas pessoas não era escutado, se resolvesse repetir o «não» pela boca das suas espingardas, o ministério traria para a rua a artilharia, conti-nuando a afirmar com tranquilidade: «Como o país insiste em dizer que «sim», nós não podemos ceder! Nós não podemos!...»
A indignação contra o marechal, aqui, continua a exprimir-se violentamente. Uma pergunta às vezes faço eu a mim mesmo, pasmado: «Será possível que o Governo francês não leia os jornais ingleses? E, se os lê, não lhe faz impressão nenhuma ver a imprensa unânime de um grande país, da Inglaterra, condenando ao longo das suas primeiras páginas a ilegalidade da sua existência? Pode-se desprezar assim a opinião de uma nação tão inteligente, tão sensata, tão positiva, tão imparcial?»
O ministério, é verdade, embirra profundamente com os jornais ingleses, a ponto de lhes proibir a venda como peçonhenta, mas o facto de lhes proibir a propaganda não obsta a que lhe deva reconhecer a sensatez: e todos os dias os jornais mostram claramente aos Srs. de Broglie e de Fourton que eles estão simplesmente levando o seu país à guerra civil e à guerra estrangeira. Que eles não o acreditem quando o lêem nos jornais radicais de Paris, compreende-se, mas que o não escutem quando são os jornais estrangeiros conservadores que o gritam por todas as linhas, é de espantar! A não ser que, ciente e conscientemente, eles queiram a guerra estrangeira e a guerra civil; nesse caso, espera-os, é de recear, uma grilheta nova e de bom ferro nas galés amáveis de Toulon.
As novidades daqui são escassas. Chove. O Inverno instalou-se, e vem este ano de um humor terrível: os duches que nos atira para cima, as lançadas de nordeste agudo com que nos trespassa, as rajadas com que nos sacode, não têm conta. Ouço-o todas as noites rugir e chorar, e não compreendo o que fizeram a este rabugento velho. Por ora ainda não nos cobriu de neve: é uma galanteria que guarda provavelmente para o Natal; os meteorologistas seus amigos, a quem ele faz confidências, dizem-nos que não há a esperar dele, este ano, nem demência, nem desleixo. Vem activo e mau. O que nos espera!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.