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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Ao fim do caminho era a aldeia. As primeiras casas, junto de uma paliçada de estaca, estavam desertas, nuas por dentro, como saqueadas. Num uma rês de gado se via nos aidos. Nem uma foice pendia sobre a lareira. A uma porta, uma velha, mais magra que um esqueleto, olhava com os olhos fixos cavados no vago, e como deslumbrados de espanto. Um cadáver abandonado, que ninguém enterrara, tinha as mãos decepadas. Por vezes uma figura passava correndo, com os cabelos ao vento. Uma figura de mulher, de bruços, com os cabelos soltos, estava agarrada a um berço vazio.

Mas ao fim da aldeia, junto de um calvário, viu correr gente em magote. Um frade meio descalço, sem capuz, de olhos ardentes, erguia uma cruz, chamava a justiça de Deus. Como podiam os homens sofrer mais sobre a terra? Os senhores andavam em guerra, e daí vinha o mal dos pobres. Os barões corriam as suas terras, e tudo saqueavam. tudo roubavam para adestrar soldados, ter hostes brilhantes. Se outros, mais fortes, os faziam prisioneiros, de novo voltavam nos seus grandes corcéis, a saquear, roubar, tirar ao pobre a última acha, a última mão-cheia de favas, para reunir o preço do resgate. Se ficavam vencedores, eis que voltavam a saquear os restos, a arrancar a seara ainda mal madura, para celebrar festas, e erguer solares ricos. Depois, atrás passavam ainda as companhias de mercenários, que. nada encontrando, queimavam os muros, destruíam os arvoredos, e matavam as crianças nos berços. Quanto tempo mais consentiria o Senhor este mal que ia na terra? Por toda a parte ele andara, só vira a fome. As mulheres comiam os cadáveres dos filhos. Os homens em breve seriam como feras. E aí dos que se encontrassem no caminhos da turba esfaimada!

A sua mão tremia no ar cheia de ameaças. E em torno dele os moços lívidos apertavam os punhos, com olhares que procuram uma arma. Mas outros baixavam a cabeça. Que podia o pobre, só, na sua terra estéril? A justiça devia vir de Deus. Uma mulher gritou: “Ou antes do Demônio!...” Um murmúrio e terror passou entre a gente.

Cristóvão saiu da aldeia com o coração esmagado. Os seus olhos erguiam-se para o Céu. Ali, por trás do azul, estava o Senhor! Decerto ele via tantos sofrimentos, as guerras, as fomes, as pestes.

Por que não descia do seu trono de ouro? Uma carícia da sua mão direita daria aos pobres a abundância, os frutos, as tulhas cheias de pão; e os bandos negros dos senhores cruéis desapareceriam como nuvens que o Sol desfaz, ao mover sua mão esquerda... Por que não vinha o Senhor?

As terras que Cristóvão atravessava estavam desoladas, até que, penetrando numa região mais amável e fértil, com pradarias, aldeias, viu ao longe longos fumos esguios que se elevavam para o céu. Um grupo de soldados derrubava árvores. E bem depressa viu as barracas de um acampamento. Era uma companhia de tunos. As tendas estavam alinhadas sem ordem, ao acaso. todos procurando a maior proximidade do rio. E como era à hora do rancho, viam-se os soldados, de bruços, mergulharem nas águas as grossas panelas de ferro. Por toda a parte, sobre as fogueiras acesas, suspensos de varas de ferro ensarilhadas, ferviam os caldeirões: - e junto aos carros, onde vinham as barricas de vinho roubadas nos casais e nos mosteiros, os homens juntavam-se com os seus pichéis na mão. Dois carniceiros esfolavam um boi estirado no chão: - e o trabalho era feito num rumor incessante de pragas e cantos.

Todos os homens, de barbas incultas, grandes cicatrizes nos rostos, imundos, tinham um curto saio de malha de ferro: e como estavam num país vencido, sem receio de surpresas, os morriões e os broquéis pendiam à entrada das tendas rotas, umas de lona, outras de peles de carneiro; sobre um cômoro era a dos chefes, com bandeiras flutuando. Por todo o acampamento circulavam mulheres, que seguiam os soldados, umas roubadas nos assaltos das aldeias, outras que acompanhavam, por deboche, o bando dos homens; todas tinham o ar cansado dos grandes furores que suportavam. Aqui e além, um monge descalço, com uma adaga na corda do hábito, o olhar ardente, ia de tenda em tenda. Alguns homens jogavam os dados. Outros limpavam as armas.

Os falcões gritavam sobre os seus poleiros, feitos de lanças.

Serenamente, na sua simplicidade, Cristóvão atravessou o acampamento.

(continua...)

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