Por Eça de Queirós (1878)
O Conselheiro achou "delicioso"; e, de pé na sala, lamentou a propósito da cantiga a condição dos escravos. Que lhe afirmavam amigos do Brasil que os negros eram muito bem tratados. Mas enfim a civilização era a civilização! E a escravatura era um estigma! Tinha todavia muita confiança no imperador...
- Monarca de rara ilustração... - acrescentou respeitosamente.
Foi buscar o seu chapéu, e colando-lhe as abas ao peito, curvando-se, jurou que - havia muito tempo não tinha passado uma manhã tão completa. De resto nada havia como a boa conversação e a boa música...
- Onde está Vossa Excelência alojado, Sr. Brito?
Pelo amor de Deus! Que não se incomodasse! Estava no Hotel Central.
Não havia considerações que o impedissem de cumprir o seu dever - Cumpri-lo-ia! Ele era uma pessoa inútil, a senhora D. Luísa bem o sabia - Mas se necessitar alguma coisa, uma informação, uma apresentação nas regiões oficiais, licenças para visitar algum estabelecimento público, creia que me tem às suas ordens!
E conservando na sua mão a mão de Basílio:
- Rua do Ferregial de Cima, número três, terceiro. O modesto tugúrio de um eremita.
Tomou a curvar-se diante de Luísa:
- E quando escrever ao nosso viajante, que faço sinceros votos pela prosperidade dos seusempreendimentos. Por quem é! Criado de Vossa Excelência. E direito, grave, saiu.
- Este ao menos é limpo - resmungou Basílio, com o charuto ao canto da boca.
Sentara-se outra vez ao piano, corria os dedos pelo teclado. Luísa aproximou-se:
- Canta alguma coisa, Basílio!
Basílio pôs-se então a olhar muito para ela.
Luísa corou, sorriu; através da fazenda clara e transparente do vestido, entrevia-se a brancura macia e láctea do colo e dos braços; e nos seus olhos, na cor quente do rosto havia uma animação e como uma vitalidade amorosa.
Basílio disse-lhe, baixo:
- Estás hoje nos teus dias felizes, Luísa.
O olhar dele, tão ávido, perturbava-a; insistiu:
- Canta alguma coisa.
O seu seio arfava.
- Canta tu - murmurou Basílio.
E devagarinho, tomou-lhe a mão. As duas palmas um pouco úmidas, um pouco trêmulas, uniram-se.
A campainha, fora, tocou. Luísa desprendeu a mão, bruscamente.
- É alguém - disse agitada.
Vozes baixas falavam à cancela.
Basílio teve um movimento de ombros contrariado; foi buscar o chapéu.
- Vais-te? - exclamou ela toda desconsolada.
- Pudera! Não posso estar só contigo um momento!
A cancela fechou-se com ruído. Não é ninguém, foi-se - disse Luísa.
Estavam de pé, no meio da sala.
- Não te vás! Basílio!
Os seus olhos profundos tinham uma suplicação doce. Basílio pousou o chapéu sobre o piano; mordia o bigode um pouco nervoso.
- E para que queres tu estar só comigo? - disse ela. - Que tem que venha gente? - Earrependeu-se logo daquelas palavras.
Mas Basílio, com um movimento brusco, passou-lhe o braço sobre os ombros, prendeu-lhe a cabeça, e beijou-a na testa, nos olhos, nos cabelos, vorazmente.
Ela soltou-se a tremer, escarlate.
- Perdoa-me - exclamou ele logo, com um ímpeto apaixonado. - Perdoa-me. Foi sem pensar.Mas é porque te adoro, Luísa!
Tomou-lhe as mãos com domínio, quase com direito.
- Não. Hás de ouvir. Desde o primeiro dia que te tornei a ver estou doido por ti, como dantes, amesma coisa. Nunca deixei de me morrer por ti. Mas não tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te ver rica, feliz. Não te podia levar para o Brasil. Era matar-te, meu amor! Tu imaginas lá o que aquilo é! Foi por isso que te escrevi aquela carta, mas o que eu sofri, as lágrimas que chorei!
Luísa escutava-o imóvel, a cabeça baixa, o olhar esquecido; aquela voz quente e forte, de que recebia o bafo amoroso, dominava-a, vencia-a; as mãos de Basílio penetravam com o seu calor febril a substância das suas; e, tomada de uma lassidão, sentia-se como adormecer.
- Fala, responde! - disse ele ansiosamente, sacudindo-lhe as mãos, procurando o seu olharavidamente.
- Que queres que te diga? - murmurou ela.
A sua voz tinha um tom abstrato, mal-acordado.
E desprendendo-se devagar, voltando o rosto:
- Falemos noutras coisas!
Ele balbuciava com os braços estendidos:
- Luísa! Luísa!
- Não, Basílio, não!
E na sua voz havia o arrastado de uma lamentação, com a moleza de uma carícia.
Ele então não hesitou, prendeu-a nos braços.
Luísa ficou inerte, os beiços brancos, os olhos cerrados - e Basílio, pousando-lhe a mão sobre a testa, inclinou-lhe a cabeça para trás, beijou-lhe as pálpebras devagar, a face, os lábios depois muito profundamente; os beiços dela entreabriram-se; os seus joelhos dobraram-se.
Mas de repente todo o seu corpo se endireitou, com um pudor indignado, afastou o rosto, exclamou aflita:
- Deixa-me, deixa-me!
Viera-lhe uma força nervosa; desprendeu-se, empurrou-o; e passando as mãos abertas pela testa, pelos cabelos:
- Oh meu Deus! É horrível! - murmurou. - Deixa-me! É horrível!
Ele adiantava-se com os dentes cerrados; mas Luísa recuava, dizia:
Vai-te. Que queres tu? Vai-te! Que fazes tu aqui? Deixa-me!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.