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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Cármen passeava rapidamente ao comprido da tolda; às vezes, firmando-se nascordagens, subia o degrau que contorna interiormente a amurada, e ficava olhando para o mar, enquanto a sua mantilha e a sua capa se enchiam de vento, e lhe davam uma apa rênciaondeada e balançada, que a assemelhavam Aquelas divin dades que os escultores antigos enroscavam no flanco dos galeões!

IV

D. Nicazio Puebla, que o Purser me apresentara já, viera fumar para o pé de mim.- Esteve na Índia, Cabellero? — perguntei-lhe eu.- Dois anos, em Calcutá. Foi lá que conheci o capitão Rytmel. Convivíamos muito.

Jantávamos sempre juntos. Fui à caça do tigre com ele. Cacei o tigre. Deve ir a Calcutá! Quepalácios! Que fábricas!

— O capitão é um valente oficial.- É alegre. O que nós riamos! E bravo, então! Se lhe parece! Salvou-me a vida. — Nalguma caçada? — Eu lhe conto.Tínhamo-nos aproximado da popa, falando. Neste momento vi eu a espanhola encaminhar-se para o lugar em que a condessa falava com Rytmel, e com uma resoluçãoatrevida, a voz altiva, dizer-lhe:

— Capitão, tem a bondade, dá-me uma palavra? A condessa fez-se muito pálida. O capitão teve um movimen to colérico, mas ergueu-see seguiu a espanhola.

Eu aproximei-me da condessa.- Quem é esta mulher? Que quer?... — disse-me ela toda tré mula. Eu sosseguei-a e dirigi-me a D. Nicazio. — Viu aquele movimento de sua mulher?- Vi.

— É inconveniente: o cavalheiro responde decerto pelas fanta sias ou pelos hábitos daquela senhora...- Eu! — gritou o espanhol. — Eu não respondo por coisa al guma. O senhor que quer? É um monstro essa mulher! Livre-me dela, se pode! Olhe: quere-a o senhor? Guarde-a. Estásempre a fazer destas cenas! E não lhe posso fazer uma observação! É uma fúria, usa punhal!

— Esta mulher — fui eu dizer à condessa — é uma criatura sem consideração e pareceque sem dignidade. Não a olhe, não a escute, não a perceba, não a pressinta. Se houver outra inconveniência eu dirige-me ao comandante, como se ela fosse um grumete inso lente. Épena... é terrivelmente linda!

A espanhola, no entanto, junto da amurada, falava violentamente ao capitão Rytmel, que a escutava frio, impassível, com os olhos no chão.O conde subiu neste momento. Outras senhoras vieram, os grupos formavam-se, começavam as leituras, as obras de costura, o jogo do boi...Eu aproximei-me de D. Nicazio e disse-lhe sem lhe dar mais importância:

— Então esta sua senhora dá-lhe desgostos? — É sempre aquilo como capitão. Foi desde a tal caçada ao ti gre... Quer que lheconte?...

— Diga lá.Sentei-me na tenda onde se fuma, acendi um charuto, cruzei as pernas, recostei a cabeça e, embalado pelo lento mover do navio, cerrei os olhos.

— Um dia em Calcutá — começou o espanhol -, dia de grande calor...Mas não, senhor redactor. Eu quero que esta história a saiba do próprio capitão. Aí tem a tradução fiel de uma das mais vivas páginas de um dos seus álbuns de impressões deviagem.

«...Sabes — escrevia ele a um amigo — que o sonho de todo o negociante que chega à Índia é caçar um tigre. D. Nicazio Puebla quis caçar o tigre. Sua mulher Cármen de cidiu acompanhá-lo. Essa, sim; que tinha a coragem, a violência, a necessidade de perigos de um velho exploradorHundodo! Eu estimava aquela família. Combinámos uma caçada com alguns oficiais meus amigos, então em Calcutá. A duas léguas da cidade sabiam os exploradores que fora visto um tigre. Tinha mesmo sal tado, havia duas noite, uma paliçada de bambus, na propriedadede um doutor inglês, antigo colono, e tinha devorado a filha de um malaio. Dizia-se que era um tigre enorme, e formosamente lis trado.Partimos de madrugada, a cavalo. Um elefante, com um pa lanquim, levava Cármen. Um boi conduzia água em bilhas encanastradas de vime. Iam alguns oficiais de artilharia, sipaios, três malaios e um velho caçador experimentado, antigo brâmane, degenerado edevasso, que vivia em Calcutá das esmolas dos nababos e dos oficiais ingleses. Era destemido, meio louco, cantava estranhas melodias do Indostão, adorava o Ganges, e dormiasempre em cima de uma palmeira.

Nós levávamos espingardas excelentes, punhais recurvados, espadas de dois gumes, curtas, à maneira dos gládios romanos, e o terrível tridente de ferro que é a melhor arma paraa luta com o tigre. Ia uma matilha de cães, forte e destra, da confiança dos malaios.

(continua...)

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