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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Nem que ela se me oferecesse, de joelhos, em camisa, com os duzentos contos do Sanchesnuma salva de ouro!

Sorrindo, vermelha como uma peônia, com um "oh" escandalizado, Gracinha bateu no ombro de Gonçalo - que puxou por ela, galhofeiramente:

- Venha lá essa bochecha, e outra beijoca, para purificar! Com efeito, só pensar na D. Anaarrasta a gente às imagens brutais... Dizias então do estômago... Sim, filha, combalido. E há dias mais pesado, desde o tal cabrito no espeto e da companhia beberrona do Manuel Duarte. Tu tens cá água de Vidago?... Então, Barrolinho, sê angélico. Manda trazer já uma garrafinha bem fresca. E olha! pergunta se subiram um açafate e uma caixa de papelão que eu deixei na caleche? Que ponham no meu quarto. E não desembrulhes, que é surpresa... Escuta! Que me levem água bem quente. Preciso mudar toda a roupa... Estava uma poeirada por esse caminho!

E quando o Barrolo abalou, a rebolar e a assobiar, Gonçalo, esfregando as mãos:

- Pois vocês ambos estão esplêndidos! E na harmonia que convém. Tu positivamente maisforte, mais cheia. Até pensei que fosse sobrinho. E o Barrolo mais delgado, mais leve...

- Oh, agora o José passeia, monta a cavalo, já não adormece tanto depois de jantar...

- E a outra família? A tia Arminda, o rancho Mendonça? Bem?... Padre Soeiro, que é feito dessesanto?

- Teve um ataquezito de reumatismo, muito ligeiro. Agora bom, sempre no Paço do Bispo, naBiblioteca... Parece que se entretém a fazer um livro sobre os Bispos.

- Bem sei, a História da Sé de Oliveira... Pois eu também tenho trabalhado muito, Gracinha! Ando a escrever um Romance.

- Ah!

- Um Romance pequeno, uma Novela, para os Anais de Literatura e de História, uma Revista que fundou um rapaz meu amigo, o Castanheiro... É sobre um fato histórico da nossa gente... Sobre um avô nosso, muito antigo, Tructesindo.

- Tem graça, que fez ele?

- Horrores. Mas é pitoresco... E depois o Paço de Santa Irenéia, no século XII, em todo o seuesplendor! Enfim uma bela reconstrução do velho Portugal e sobretudo dos velhos Ramires. Hás de gostar... Não há amores, tudo guerras. Apenas, muito remotamente, uma das nossas antepassadas, uma D. Menda, que eu nem sei se realmente existiu. Tem seu chic, bem?... E tu compreendes, como eu desejo tentar a Política, preciso primeiramente aparecer, espalhar o meu nome...

Gracinha sorria docemente para o irmão, no costumado enlevo:

- E agora tens alguma idéia? A tia Arminda lá continua sempre com a teima que devias entrar naDiplomacia. Ainda há dias... "Ai, o Gonçalinho, assim galante, e com aquele nome, só numa grande embaixada!"

Gonçalo despegara lentamente do vasto canapé, reabotoando o jaquetão claro:

- Com efeito ando com uma idéia, há dias... Talvez me viesse dum romance inglês, muitointeressante, e que te recomendo, sobre as antigas Minas de Ofir, King Solomon's Mines... Ando com idéias de ir para a África.

- Oh Gonçalo, credo! Para a África?

O escudeiro entrara com duas garrafas de água de Vidago, ambas desarrolhadas, numa salva. Precipitadamente, para aproveitar o "piquezinho", Gonçalo encheu um copo enorme de cristal lavrado. Ah! que delícia de água! - E como o Barrolo voltava, anunciando que cumprira as ordens de S. Exa.:

- Bem! então logo conversamos ao almoço, Gracinha! Agora lavar, mudar de roupa, que nãoparo com estas infames comichões...

Barrolo acompanhou o cunhado ao quarto, um dos mais espaçosos e alegres do Palacete, forrado de cretones cor de canário com uma varanda para o jardim, e duas janelas de peitoril sobre a rua das Tecedeiras e os velhos arvoredos do convento das Mônicas. Gonçalo impaciente despiu logo o casaco, sacudiu para longe o colete:

- Pois tu estás esplêndido, Barrolo! Deves ter perdido três ou quatro quilos. São naturalmente osquilos que Gracinha ganhou... Vocês, se assim se equilibram, ficam perfeitos.

Diante do espelho Barrolo acariciava a cinta, com um risinho deleado:

- Realmente, parece que adelgacei... Até sinto nas calças...

Gonçalo abrira o gavetão da rica cômoda de ferragens douradas, onde conservava sempre roupa (até duas casacas), para evitar o transporte de malas entre os Cunhais e a Torre. E ria, aconselhava o bom Barrolo a "adelgaçar" sem descanso, para beleza da futura raça Barrólica quando embaixo, na silenciosa rua das Tecedeiras, as patas de um cavalo de luxo feriram as lajes em cadência lenta.

Logo desconfiado, Gonçalo correu à janela, ainda com a camisa que desdobrava. E era ele! Era o André Cavaleiro, que descia ladeando, sopeando a rédea, para escarvar com garbo e fragor a rampa mal empedrada. Gonçalo virou para o Barrolo a face chamejante de furor:

- Isto é uma provocação! Se este descarado deste Cavaleiro passa outra vez na maldita pileca,por debaixo das janelas, apanha comum balde d'água suja!...

Barrolo, inquieto, espreitou:

- Naturalmente vai para casa das Lousadas... Anda agora muito íntimo das Lousadas... Semprepor aqui o vejo... E é para as Lousadas.

(continua...)

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