Por Camilo Castelo Branco (1869)
Pelo que respeita ao viver íntimo do brasileiro e esposa, no correr destes cinco anos, é de notar que melhorou sobremaneira. Ângela conformara-se, ou as alegrias da beneficência vislumbravam-lhe no rosto, mais afável para o marido. Ele, por sua parte, cumprindo o programa exposto equivocamente à irmã naquela frase eu me arranjarei, realizou-o exuberantemente mobiliando em S. Roque da Lameira e na Cruz da Regateira duas vivendas alegres, gaiolas de amor, em que tinha as duas aves colhidas a visgo de oiro nas florestas da sua Barrosas, segundo ele confessara, justificando os motivos a seu hospedeiro compadre Atanásio José da Silva.
E visto que chegamos ao ponto em que deixamos o brasileiro roncando, ligue-se a história, depois de havermos afastado da imaculada esposa as presunções aleivosas.
XVIII A INFAMADA
Estava Ângela escrevendo a um dos três amigos de seu marido, rogando que a não considerassem esposa infiel, nem difamassem seu nome, querendo forçá-la a entrar num convento, à imitação das mulheres delinqüentes. Prometia ela defender-se, se se marido a quisesse escutar, a sós, bastando-lhe de sua inocência o testemunho de Deus, cuja providência, em tão apertado lance, lhe dava coragem para encarar de rosto qualquer desgraça, menos a de entrar no convento com a nódoa de adúltera.
A carta ia ser fechada, quando se anunciou Atanásio, com os seus amigos Pantaleão e Joaquim Antônio.
O marido da Ruiva declarou que o amigo Hermenegildo teimava em que sua mulher entrasse no convento que lhe fosse escolhido por eles, representantes de suas ordens; e que, no caso de a senhora se negar a obedecer a tão justo mandado, fizesse de conta que não tinha marido, nem casa, nem fortuna, porque todos os teres e haveres de seu homem estavam hipotecados, vendidos e alienados, como se provaria em juízo com documentos da maior validade. Escutou-os Ângela, e disse serenamente:
― Mandam-me portanto sair?
― Sim, se a senhora não quiser ir para o convento.
― Não vou.
― Então, muito nos custa dizer-lhe que...
― Despeje a casa? – concluiu Ângela.
― Sim..., se a senhora... – repetiu Atanásio. – Bem sabe que a honra dum homem... Seu marido tem de dar contas à sociedade...
― E a Deus – ajuntou Ângela.
― Isso de Deus... – remoneou Joaquim José Antônio.
― Não há? – perguntou ela.
― Não sei se há, nem se não há. O que sei é que ele não se mete cá nestas coisas.
― Se a senhora está inocente – interveio Pantaleão – prove-o. Diga a quem deu 1.650$000 réis.
― A um pobre.
― Mas quem era o pobre? Saibamos isso... Era pobre honrado?
― Era.
― Como se chama?
― Ainda que lhes diga o nome dele, os senhores não conhecem os pobres honrados; conhecem somente os infames ricos.
― Tenha prudência na língua, minha senhora – rebateu Atanásio.
― Desçam as escadas, que quero sair, seus biltres! – exclamou a filha de D. Maria d’Antas. – Se os galegos da casa me obedecessem, haviam de fazê-los saltar pelas janelas; mas a casa já não é minha, e infame eu seja quando pedir um ceitil do que ela encerra. Aqui ficam as jóias de minha mãe, que valem quatro ou cinco contos de réis. O seu amigo Hermenegildo que se pague do que me deu, e, se alguns vinténs sobejarem, que compre uma corda e que se enforque.
― Irra!... que mulher! – dizia Joaquim a Pantaleão, limpando o suor da testa em janeiro.
― Tem diabo no corpo! – regougou o outro.
Voltaram-lhe as costas com arremesso, e saíram vociferando palavras insultantes.
De pós eles saíram Ângela e Vitorina, deixando as portas abertas e a casa entregue aos criados, que choravam em altos clamores.
― Vais tão triste?! – perguntou Ângela à criada.
― E vossa excelência não, minha infeliz menina?
― Não! Pois não vês?! O que eu não deixei naquela casa foi o ouro da consciência...
― Sair sem nada!... Que leva vossa excelência ai nesse dispensável?...
― É o livro dos SONHOS do Francisco – respondeu ela sorrindo. – Não tenho mais nada que me recorde a minha alegre mocidade senão isto e tu! As coisas que mais amo vão comigo.
Vitorina chorou de agradecida, e participou involuntariamente da alegria da senhora.
Entraram na rua do Moinho de Vento e procuraram um número de casa. Subiram, e acharam-se na alegre e asseada saleta de Joana Costa, que se levantou a receber a fidalga com transporte e espanto.
― Venho pedir-lhe um canto da sua casinha! – disse Ângela risonhamente. – Dê-me o quarto de seu irmão para mim e para a minha Vitorina.
― Pois que é, minha senhora? Que é isto?! – exclamou Joana.
― É que fui expulsa; não tenho casa, nem “fortuna”. Veja como se cai depressa, minha amiga! Apesar disso, quando a queda não é vergonhosa, a gente parece que sente as asas dos anjos a ampará-la.
Referiu Ângela o sucesso dos brilhantes, da intimação para responder à autoridade, da mensagem dos amigos do marido, etc. se Joana a interrompia com o choro, a serena hóspeda revelava desgosto, e queixava-se do mau uso que ela fazia das lágrimas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.