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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Todo o dia, marchando sempre, Cristóvão padeceu sede. Ao por do Sol, julgou ver longe uma água que rebrilhava. Eram largas lajes de pedra como restos de um terraço, ou do lajedo de um solar. Deitado, esperou ali a manhã: e, através de um sono incerto, julgava ver como olhos luzidios de lobos, que passavam, se sumiam para além de um barranco. De manhã dirigiu os passos para esse barranco, e aí ao fundo havia como uma água lodosa e pútrida, que ele bebeu como delícia.

Durante dois dias mais caminhou; e o deserto não cessava, com vales estéreis, penedias alcantiladas, e um solo pedregoso, negro, gretado, que escaldava sob o sol de Agosto. Sentado por vezes contra uma rocha, Cristóvão cerrava os olhos sob a fadiga, o ardor da estiagem, e parecia-lhe ver grandes pedaços de pão, e frutos que caíam de maduros ao passar de um vento fresco. Estendia a mão, e só encontrava as pedras quentes. Retomava a marcha, e, marchando sempre, padecia fome.

Mas uma tarde que caminhava, já tão fraco que os seus pés tropeçavam a cada instante, encontrou-se de repente numa encosta, onde uma floresta sombria verdejava. Cristóvão mergulhou na espessura. Bem cedo sentiu um murmúrio de água. Mais longe, uma carvalheira estava carregada de bolota. Cristóvão ficou ali dois dias, consolando com lentidão a fome e a sede. Depois, quando emergiu da floresta, avistou diante de si uma região com árvores, um riacho que fugia, muros, e uma tranqüilidade habitada. Um fumo lento subia, a distância, para o claro céu. Cristóvão alongou para lá os passos. O fumo subia de um casebre queimado; ao lado havia barricas arrombadas; o cadáver de uma vaca, meio seco, desaparecia sob o zumbido das moscas; o pomar estava arrancado e devastado; e em redor todo o solo, a erva, estavam espezinhados, como por um tropel de cavaleiros em marcha.

Cristóvão seguiu, caminhando à beira do regato. Grandes prados verdejavam, cobertos de botões-de-ouro. As ramas dos salgueiros mergulhavam na água fugidia e clara. Os pássaros chalravam na frescura; E no meio desta paz, um moinho com a porta arrombada, e pendente dos gonzos, os grandes paus das velas partidos, as paredes chamuscadas do lume, jazia com a tristeza de um cadáver num prado de Primavera. Cristóvão dirigiu-se para o moinho. De uma árvore meio partida, que se erguia por trás, junto às escadas, pendia um velho enforcado, com uma pedra amarrada aos pés. Ao lado negrejavam os tições apagados de uma fogueira, e junto dela uma lança esquecida.

Cristóvão foi seguindo. Por todo o caminho havia as confusas pegadas de cavaleiros em marcha; todas as sebes estavam rotas; uma ponte rústica fora partida a machadadas; outros casebres apareciam devastados, nus, com o colmo queimado: - e nem uma criatura se via, entre aquelas ruínas.

Ao fim de um longo dia, porém, tendo-se sentado junto de um casebre em ruínas, sentiu um ruído entre as árvores: - e um homem apareceu em farrapos, lívido, escaveirado, e logo se sumiu entre a espessura das árvores. Para o deixar livre de medo, Cristóvão ergueu-se e foi mais adiante, onde havia uma colina com rochas. Um grande roble crescia à boca de uma caverna. E ao ruído dos seus passos, uma cabeça de velha apareceu à boca da caverna, e logo se sumiu assustada. Cristóvão pensava com dor por que se esconderiam esses homens. Por que seria aquela terra povoada por gente que se escondia nos bosques, nas tocas dos bichos, debaixo das penedias?... Por quê? Uma grande piedade já o ia tomando. Se ouvia um rugir de ramagens afastadas, gritava: Paz! Paz! para tranqüilizar aqueles corações aterrados, mas logo as ramagens se fechavam e tudo ficava mudo.

Ia caminhando. Bebia nos regatos, comia a bolota das árvores e as ervas dos prados. Um dia avistou uma aldeia e casebres de colmo juntos em torno de uma igreja, cuja torre estava em obras. Um caminho seguia entre filas de plátanos. Ao penetrar nele, uma mulher que, agachada com uma criança, procurava ervas, fugiu tão tontamente que deixou a criança no chão. Cristóvão apanhou a criança, tão magrinha que se palpavam os seus pobres ossinhos, sob a pele cheia de feridas: e nem chorava, com a mãozinha sobre a testa, onde as chagas eram maiores. Todo o coração de Cristóvão se enchia de dor. Lançou um grande brado pela mulher. Ninguém respondeu. Então, tomando a criança ao colo, seguiu sob os plátanos mas sentia, através das folhagens, alguém que o seguia. Pousou no chão a criança, afastou os passos. E voltando-se bruscamente, viu a mulher que saltava entre o tojo, arrebatava a criança e de novo sumia no mato.

(continua...)

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