Por Eça de Queirós (1878)
Basílio soprou o fumo do charuto, e declarou muito reclinado:
- O Passeio ao domingo é simplesmente idiota!...
O Conselheiro refletiu e respondeu:
- Não serei tão severo, Sr. Brito! - Mas parecia-lhe que com efeito antigamente era uma diversãomais agradável. - Em primeiro lugar - exclamou com muita convicção, endireitando-se - nada, mas nada, absolutamente nada pode substituir a charanga da Armada! - Além disso havia a questão dos preços... Ah! Tinha estudado muito o assunto! Os preços diminutos favoreciam a aglomeração das classes subalternas... Que longe do seu pensamento lançar desdouro nessa parte da população... As suas idéias liberais eram bem conhecidas. - Apelo para a senhora D. Luísa! - disse. - Mas enfim, sempre era mais agradável encontrar uma roda escolhida! Em quanto a si nunca ia ao Passeio. Talvez não acreditassem, mas nem mesmo quando havia fogo de vistas! Nesses dias, sim, ia ver por fora das grades. Não por economia! Decerto não. Não era rico, mas podia fazer face a essa contribuição diminuta. Mas é que receava os acidentes! É que os receava muito! Contou a história de um sujeito, cujo nome lhe escapava, a quem uma cana de foguete furara o crânio. - E além disso nada mais fácil que cair uma fagulha acesa na cara, num paletó novo... - É conveniente ter prudência - resumiu, compenetrado, limpando os beiços com o lenço de seda da Índia muito enrolado.
Falaram então da estação; muita gente fora para Sintra; de resto, Lisboa no verão era tão secante!... E o Conselheiro declarou que Lisboa só era imponente verdadeiramente imponente, quando estavam abertas as câmaras e São Carlos!
- Que estavas tu a tocar quando eu entrei? - perguntou Basílio.
O Conselheiro acudiu logo:
- Se estavam fazendo música, por quem são... Sou um velho assinante de São Carlos, hádezoito anos...
Basílio interrompeu-o:
- Toca?
- Toquei. Não o oculto. Em rapaz fui dado à flauta. E acrescentou, com um gesto benévolo:
- Rapaziadas!... Alguma novidade, o que estava tocando, D. Luísa?
- Não! Uma música muito conhecida, já antiga; a Filha do pescador, de Meyerbeer. Tenho a letra traduzida.
Tinha cerrado as vidraças, sentara-se ao piano.
O Sebastião é que toca isto bem, não é verdade, Conselheiro?
- O nosso Sebastião - disse o Conselheiro com autoridade - é um rival dos Thalbergs e dosLiszts. Conhece o nosso Sebastião? - perguntou a Basílio.
- Não, não conheço.
- Uma pérola!
Basílio tinha-se aproximado do piano devagar, frisando o bigode.
Tu ainda cantas? - perguntou4he Luísa, sorrindo.
- Quando estou só.
Mas o Conselheiro pediu-lhe logo "um trecho". Basílio ria. Tinha medo de escandalizar um velho assinante de São Carlos...
O Conselheiro animou-o; disse mesmo paternalmente:
- Coragem Sr. Brito, coragem! Luísa então preludiou.
E Basílio soltou logo a voz, cheia, bem timbrada, de barítono; as suas notas altas faziam a sala sonora. O Conselheiro, direito na poltrona escutava concentrado; a sua testa, franzida num vinco, parecia curvar-se sob uma responsabilidade de juiz; e as lunetas defumadas destacavam, com reflexos escuros, naquela fisionomia de calvo, que o calor tornava mais pálida.
Basílio dizia com uma melancolia grave a primeira frase, tão larga, da canção:
- Igual ao mar sombrio
Meu coração profundo...
Um poeta, com uma dedicação obscura, traduzira a letra no Almanaque das Senhoras; Luísa pela sua própria mão a tinha copiado nas entrelinhas da música. E Basílio debruçado sobre o papel sempre torcendo as pontas do bigode:
- Tem tempestades, cóleras, Mas pérolas no fundo!
Os olhos largos de Luísa afirmavam-se para a música - ou a espaços, com um movimento rápido, erguiam-se para Basílio. Quando, na nota final, prolongada como a reclamação de um amor suplicante, Basílio soltou a voz de um modo apelativo:
- Vem! Vem
Pousar, ó doce amada, Teu peito contra o meu...
os seus olhos fixaram-se nela com uma significação de tanto desejo que o peito de Luísa arfou, os seus dedos embrulharam-se no teclado.
O Conselheiro bateu as palmas.
- Uma voz admirável! - exclamava. - Uma voz admirável!
Basílio dizia-se envergonhado.
- Não, senhor, não, senhor! - protestou Acácio, levantando-se. - Um excelente órgão! Direi, omelhor órgão da nossa sociedade!
Basílio riu. Uma vez que tinha sucesso, então ia dizer-lhes uma modinha brasileira da Bahia. Sentou-se ao piano, e depois de ter preludiado uma melodia muito balançada, de um embalado tropical cantou:
- Sou negrinha, mas meu peito
Sente mais que um peito branco.
E interrompendo-se:
- Isto fazia furor nas reuniões da Bahia quando eu parti.
Era a história de uma "negrinha" nascida na roça, e que contava, com lirismos de almanaque, a sua paixão por um feitor branco.
Basílio parodiava o tom sentimental de alguma menina baiana; e a sua voz tinha uma preciosidade cômica, quando dizia o ritornelo choroso:
- E a negra pra os mares
Seus olhos alonga; No alto coqueiro
Cantava a araponga.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.