Por Eça de Queirós (1870)
Talvez estranhe, senhor redactor, a escrupulosa minuciosidade com que eu conto estes factos, conservando-lhes a paisagem, o diálogo, o gesto, toda a vida palpável do momento.Não se admire. Nem tenho uma memória excepcional, nem faço uma invenção fantasista.
Tenho por costume todas as noites, quando fico só, apontar num livro branco os factos, as ideias, as imaginações, os diálogos, tudo aquilo que no dia o meu cérebro cria ou a minhavida encontra. São essas notas que eu copio aqui.
A mesa do almoço estavam já sentados os passageiros. O nosso lugar era ao pé docapitão. O comandante do Ceilão era um homem magro, esguio, com uma pele muitovermelha, de onde saíam com a hostil aspereza com que as urzes saem da terra, duas suí ças brancas.Ao seu lado sentavam-se duas excêntricas personalidades de bordo: o Purser, que é o comissário que vela pela instalação dos via jantes e pelos regulamentos de serviço, e Mr.Colney, empregado do correio de Londres. O
Purser era tão gordo que fazia lembrar umgrupo de homens robustos metidos e apertados numa farda de ma rinha mercante. Mr.
Colney era alto e seco com um imenso nariz agudo e enristado em cuja ponta repousavapedagogicamente o arco de ouro dos seus óculos burocráticos. O Purser tinha uma fra queza que o dominava — era o desejo de falar bem brasileiro. Ti nha viajado no Brasil, admirava oMaranhão, o Pará, os grandes recursos do Império. A todo o momento se aproximava de mim pa ra me perguntar certas subtilezas da pronúnc ia brasileira. Mister Colney, esse, era gago e tinha a mania de cantar cançonetas cómi cas. Os outros passageiros eram oficiais, queiam tomar serviço na Índia, algumas misses alegre e louras, um clergyman com doze fi lhos, e duas velhas filantrópicas, pertencentes à Sociedade educadora dos pequenos patagónicos.Logo que Captain Rytmel entrou na sala, seguindo a condessa, um homem que se debatia gulosamente no prato com a anatomia de uma ave fila, encarou-o, ergueu-se, e com uma alegria ruidosa gritou:
— Viva Dios! É Captain Rytmel! Eh! Querido! Mil abraços! Es tá gordo, hombre, estámais gordo!
Envolvia-o nos abraços robustos, olhava-o ternamente com dois grandes olhos negros.Captain Rytmel depois do primeiro instante de surpresa, em que se fez pálido, apressou-se a ir apertar a mão a uma senhora, extremamente bela, que estava sentada ao pé daquele homem guloso e expansivo, o qual era um espanhol, ne gociante de sedas, e se chamavaNicazio Puebla.
A senhora, que se chamava Cármen, era cubana, e segunda mulher de D. Nicazio; eraalta, deformas magníficas, com uma car nação que fazia lembrar um mármore pálido, uns olhos pretos que pareciam cetim negro coberto de água, e cabelos anelados, abun dantes, desses a que Baudelaire chamava tenebrosos. Vestia de seda preta e com mantilha.- Estavam em Gibraltar? — perguntou Captain Rytmel.
— Em Cádis, meu caro — disse D. Nicazio. — Viemos ontem. Vamos a Malta. Voltapara a Índia? Ah! Captain Rytmel, que saudade de Calcutá! Lembra-se, hem? — Captain Rytmel — disse sorrindo friamente Cármen — esquece depressa, e bem! No entanto, nós olhávamos curiosamente para Cármen Puebla. O conde achava-a sublime. Eu, admirado também, disse baixo à condessa:
— Que formosa criatura!- Sim! Tem ares de uma estátua malcriada — respondeu ela secam ente
Olhei para a condessa, ri: — Ó prima! É uma mulher adorável, que devia ser em minia tura para se poder trazernos berloques do relógio; uma mulher que decerto vou roubar, aqui no alto mar, num escaler; uma mulher cujos movimentos parece m música condensada! Ó prima! Confesse que é perfeita... Menino! — acrescentei para o conde — passa-me depressa a soda, precisocalmantes...
No entanto, Captain Rytmel, sentado junto de Cármen, fala va da Índia, de velhosamigos de Calcutá, de recordações de via gens. A condessa não comia, parecia nervosa. — Vou para cima — disse ela de repente -; mandem-me chá. Quando a viu subir, Rytmel ergueu-se, perguntando ao conde:- Está incomodada a condessa?
— Levemente. Precisa de ar. Vá-lhe fazer um pouco de compa nhia, fale-lhe da Índia.Eu, não posso deixar este caril...Eu tinha interesse em ficar à mesa defronte da luminosa Cár men; concentrei-me sobre o meu prato. O capitão tinha tomado lo go o seu excêntrico chapéu índio, orlado de véusbrancos.
Ao vê-lo seguir a condessa, a espanhola empalideceu. Momen tos depois ergueu-setambém, tomou uma larga capa de seda à ma neira árabe de um bournous, enrolou-a em rodado corpo, e subiu para a tolda, apoiada numa alta bengala 4e castão de marfim.
O almoço tinha acabado. Falava-se da Índia, do teatro de Mal ta, de Lord Derby, dosFenians; eu enfastiava-me, fui apertar a mão ao comandante, e fumar para cima um bom charuto, sentindo a brisa fresca do mar.A condessa estava sentada num banco à popa; ao pé dela o ca pitão Rytmel, num pliantde vime.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.