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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Pileca?!.. Oh, menino, tem agora um cavalo lindo! Um cavalo lindo, que comprou ao Marges!

- Pois bem! É um burro feio em cima dum cavalo bonito. Que fiquem ambos na cavalariça. Ouque vão ambos pastar para as Devesas!

O Barrolo escancarou a boca larga e fresca, de soberbos dentes, num lento pasmo. E de repente, com uma patada no soalho, vergado pela cinta, rompeu numa risada que o sufocava, lhe inchava as veias:

- Essa é de arromba! Não, essa é para contar no Club... Um burro feio em cima dum cavalo bonito! E ambos a pastarem!... Tu vens hoje rico, menino! Olha que essa! Ambos a pastarem, com os focinhos na erva, o Governador Civil e o cavalo... E de arromba!

Rebolava pela sala, com palmadas radiantes sobre a coxa obesa. E Gonçalo, adoçado por aquela ovação que celebrava a sua facécia:

- Bem. Dá cá esses ossos, ou antes esses untos. E como vai a família? A Gracinha?... Oh! vivaa linda flor!

Era ela, com a sua ligeireza airosa e menineira, os magníficos cabelos soltos sobre um penteador de rendas, correndo alvoroçada para o irmão, que a envolveu num abraço e em dois beijos sonoros. E imediatamente, recuando, a declarou mais bonita, mais gorda:

- Positivamente estás mais gorda, até mais alta... É sobrinho?... Não? nada, por ora?

Gracinha corou, com aquele seu lânguido sorriso que mais lhe umedecia e lhe enternecia a doçura dos olhos esverdeados.

- Se ela não quer, ela não quer! - gritava o José Barrolo, gingando, com as mãos enterradas nosbolsos do jaquetão que lhe desenhava as ancas roliças. - A culpa não é cá do patrão... Mas ela não se decide!

O Fidalgo da Torre repreendeu a irmã:

- Pois é necessário um menino. Eu por mim não caso, não tenho jeito; e lá se vão desta feitaBarrolos e Ramires! A extinção dos Barrolos é uma limpeza. Mas, acabados os Ramires, acaba Portugal. Portanto, Sra. D. Graça Ramires, depressa, em nome da nação, um morgado! Um morgado muito gordo, que eu pretendo que se chame Tructesindo!

Barrolo protestou, aterrado:

- O quê? Turtesinho? Não! para tal sorte não o fabrico eu!

Mas Gracinha deteve aqueles gracejos picantes, desejosa de saber da Torre, e do Bento, e da Rosa cozinheira, e da horta, e dos pavões... Conversando, penetraram na outra sala, guarnecida de contadores da índia, de pesados cadeirões dourados de damasco azul, com três varandas sobre o largo de El-Rei. Barrolo enrolou um cigarro, reclamou a história do Relho, da grande desordem. Também ele arranjara uma pega com o rendeiro da Ribeirinha, por causa dum corte de pinhal. Essa do Relho, porém, fora tremenda...

E Gonçalo, enterrado ao canto do fundo canapé azul, desabotoando preguiçosamente o jaquetão de chaviote claro:

- Não! foi muito simples. Já há meses esse Relho andava bêbado, sem despegar... Uma noiteberrou, ameaçou a Rosa, agarrou numa espingarda. Eu desci, e num instante a Torre ficou desembaraçada de Relhos e de barulhos.

- Mas veio o Regedor, com cabos! - acudiu o Barrolo.

Gonçalo sacudiu os ombros, impaciente:

- Veio o Regedor? Veio depois, para legalizar! Já o homem abalara, corrido. E como resultadoarrendei a Torre ao Pereira, ao Pereira da Riosa...

Contou esse negócio excelente, tratado na varanda, ao almoço, entre dois copos de vinho verde. Barrolo admirou a renda - gabou o rendeiro. Assim Gonçalo descortinasse outro Pereira para a quinta de Treixedo, terra tão generosa, tão mal amanhada!

À borda do canapé, coberta pelos belos cabelos que lavara nessa manhã e que cheiravam a alecrim, Gracinha contemplava o irmão com ternura:

- E do estômago, andas melhor? Continuam as ceias com o Titó?

- Oh! esse animal! - exclamou Gonçalo. - Há dias prometeu jantar na Torre, até a Rosa assouum cabrito no espeto, magnífico... Depois falhou: creio que teve uma orgia infame, com bichas de rabear. Ele vem esta semana a Oliveira... E é verdade! vocês sabiam da intimidade do Titó com o Sanches Lucena?

Historiou então, com exagero alegre, o encontro da Bica-Santa, o horror que lhe causara a bela D. Ana, a descoberta inesperada dessa familiaridade do Titó na Feitosa.

Barrolo recordou que uma tarde, antes do S. João, avistara o Titó, diante do portão da Feitosa, a passear pela trela um cãozinho branco de regaço...

- Mas o que eu não compreendo, menino, é esse teu "horror" pela D.Ana... Caramba! Mulhersoberba! Um quebrado de quadris, uns olhões, um peitoril...

- Cale essa boca impura, devasso! - gritou Gonçalo. - Pois aqui ao lado da sua mulher, que é aflor das Graças, ousa louvar semelhante peça de carne!

Gracinha rindo, sem ciúmes, compreendia "a admiração do José". Realmente, a Ana Lucena, que vistosa, que bela!...

- Sim - concedeu Gonçalo -, bela como uma bela égua... Mas aquela voz gorda, papuda... E aluneta, os modos... E "o cavalheiro pode fumar, o cavalheiro está enganado..." Oh! senhores, pavorosa!

Barrolo gingava, diante do sofá, com as mãos nos bolsos da rabona:

- Uvas verdes, Sr. D. Gonçalo, uvas verdes!

O Fidalgo dardejou sobre o cunhado uns olhos ferozes:

(continua...)

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