Por Camilo Castelo Branco (1864)
- Eleutério Romão!... Eu não sei - prosseguiu D. José - se amaria a esposa de um homem chamado Eleutério!... Mas, nas condições de cara e estilo em que está Teodora, amaria, quer-me parecer que amaria, Afonso, obrigando-a a promover o crisma do cônjuge... Falemos sérios, sérios como rapazes, que têm o estrito dever de não serem palermas, do contrário seremos vitimas de todos os Eleutérios. É necessário que escrevas a essa mulher; isso não te priva de escreveres a outras muitas, visto que estás aqui a ares e tens a balda de escrever meditações... Que ratão és tu, Afonso! Eu, em Coimbra, achava-te uma graça! Quando tu publicavas no Trovador umas lamúrias lamartinianas. que davam ideia de seres um desgraçado, que vivias das brisas do claro Mondego, e tu, meu patarata, enquanto fazias chorar as meninas com os versos, emborcavas torrentes de conhaque por uma catadupa esponjosa que muitas vezes receei que me apeasses do meu pedestal... Patusco!... Falemos agora sério. Escreve à Teodora, se tens algum resto de pudor... Não me digas que estás sofrendo por ela, que deixastes por ela tua mãe, que renunciaste ao amor de um anjo, por causa dela... Não me digas tal, que eu nem posso admirar-te a virtude nem a parvoíce. A virtude seria medir o espaço que separa a tua alma do coração atraiçoado de Teodora e interpor nesse espaço trinta mulheres, contanto que te não privasses da companhia de tua mãe, nem lhe desses desgostos muito menores que este. Devias adorar tua prima porque era um anjo e devias desejar a outra porque era um demónio. Que fizeste tu quando ela casou? Choraste, e com tamanho agravo dos teus brios que consentiste que o mundo te visse chorar, a ti, rapaz de vinte anos, gentil, rico! Pondera bem nesta vilipendiosa calamidade, meu caro Afonso. Salta sobre dez anos de tua existência para diante e diz-me que nojo te há-de fazer este Afonso, quando o Afonso de 1860 achar que tem o mesmo nome e quase a mesma figura!...
E continuou por largo espaço neste sentido.
Escutava o filho de Eulália o discurso de D. José, lardeado de facécias, e, por vezes, atendível por umas razões que se lhe cravavam fundas no espírito. As réplicas saíam-lhe frouxas e mesmo timoratas. Já ele se temia de responder coisa de fazer rir o amigo. Violentava sua condição para igualar na licença da ideia e, por vezes, no desbragado da frase. Sentia-se por dentro reabrir em nova primavera de alegrias para muitos amores, que se haviam de destruir uns aos outros, a bem do coração desprendido salutarmente de todos. A sua casa de Buenos Aires aborreceu-a por afastada do mundo, boa tão-somente para tolos infelizes que fiam do anjo da soledade o depenarem-se, chorando. Mudou residência para o centro de Lisboa, entre os salões e os teatros, entre o rebuliço dos botequins e concurso dos passeios. Entrou em tudo. As primeiras impressões enjoaramno; mas, à beira dele, estava D. José de Noronha, rodeado dos próceres da bizarria, todos porfiados em tosquiarem um dromedário provinciano que se escondera em Buenos Mies a delir em prantos uma paixão calosa, trazida lá das serranias minhotas. Ora, Afonso de Teive antes queria renegar da virtude, que já muito a medo lhe segredava os seus antigos ditames, que expor-se à irrisão de pessoas daquele quilate. E verdade que às vezes duas imagens lagrimosas se lhe antepunham: a mãe e Mafalda. Afonso desconstrangia-se das visões importunas, e a si se acusava de pueril visionário, não emancipado ainda das crendices do poeta inesperto da prosa necessária à vida.
Escrever, porém, a Teodora, não vingaram as sugestões de D. José. Porventura, outras mulheres superiormente belas, e agradecidas às suas contemplações, o traziam preocupado e algum tanto esquecido da morgada da Fervença. Mas, um dia, Afonso, numa roda de mancebos a quem dava de almoçar, recebeu esta carta de Teodora.
Compadeceu-se o senhor. Passou o furacão. Tenho a cabeça fria da beira da sepultura, de onde me ergui. Aqui estou em pé diante do mundo. Sinto o peso do coração morto no seio; mas vivo eu, Afonso. Meus lábios já não amaldiçoam, minhas mãos estão postas, meus olhos não choram. O meu cadáver ergueu-se na imobilidade da estátua do sepulcro. Agora não me temas, não me fujas. Pára aí onde estás, que as tuas alegrias devem ser muito falsas, se a voz de uma pobre mulher pode perturbá-las.
Olha... se eu hoje te visse, qual foste, ao pé de mim, anjo da minha infância, abraçavate.
Se me dissesses que a tua inocência se baqueara à voragem das paixões, repeliate.
Eu amo a criança de há cinco anos e detesto o homem de hoje.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.