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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Não me parece mal; mas se meu irmão quer entrar em averiguações...

― Na carta há de dizer a pessoa que das averiguações, se se fizerem, resulta a suspensão dos pagamentos, porque o restituidor não se esconde de Deus, mas quer esconder-se do mundo. Pensei em tudo.

― Mas quem há de escrever a carta? – argumentou Joana.

― Olhem a grande dificuldade! Escrevo-a eu.

― Mas ele conhece a letra de vossa excelência...

― Que novidade! Deixe-me acabar... Escrevo-a eu, e Vitorina chama um rapaz da escola, e paga-lhe para que a copie; e, depois, a carta finge-se trazida por um sujeito desconhecido, que a procura em sua casa enquanto seu irmão está no escritório, e lha entrega com este dinheiro.

E, dizendo, entregava a Joana os 250$000 réis em uma saquinha.

A irmã de Francisco hesitava em receber. Ângela lançou-lhe a saca ao regaço, e disse:

― Com esses modos não me deixa gozar todo o contentamento com que Deus me está compensando o martírio de quatro anos! Minha amiga, deixe-me inteiro este gozo, por quem é! Por alma de seu marido lhe rogo!

Lavada em lágrimas, Joana inclinou-se a querer beijar os pés da fidalga, que a estreitou com transporte ao coração.

― Vá que são horas – disse Ângela – guarde o dinheiro onde seu mano o não veja. Amanhã torne à mesma hora, que já hei de cá ter a carta. Fico muito alegre. Vou agradecer a Deus este raio de sol. Não me acha hoje mais bonita? Mais nova? Olhe o que faz a felicidade!... Há quatro anos à espera desta hora!... É hoje a primeira vez que vejo seu marido a sorrir para mim do outro mundo!... Não chore, que ele não quer. Vá, vá minha amiga...

Joana saiu enxugando as lágrimas, e entrou no primeiro templo que encontrou aberto a pedir ao Senhor que abençoasse a caridade da virtuosa Ângela.

Saiu-lhe bem logrado o plano à consolada senhora.

Francisco José da Costa leu a carta como assombrado dum caso de restituição em tempos de tanta filosofia alumiadora dos espíritos – quando para castigo de ladrões já não havia inferno, nem para glória de arrependidos céu. Contou o dinheiro, e disse à irmã:

― Agora, minha pobre Joana, cessa de trabalhar. Vai vivendo do que receberes, que eu para mim cá me arranjarei com os três tostões da escrivaninha.

― Isso acabou, Francisco. Deixaste de ser amanuense de tabelião.

― Estás doida com a tua felicidade dos 250$000 réis!...

― Olha, Francisco, – tornou ela – se este dinheiro e o que vier te não servir, para mim é inútil. Ou tu continuas os teus estudos, ou eu continuo a minha costura, esperando que um dia te resolvas a empregar o dinheiro. Escolhe. Juro-te que não levantarei cinco réis deste, e do que vier, sem que tu estejas formado. O que peço é que me alugues melhor casa e que a mobiles com mais limpeza. Peço-te muito por ti, e pouquíssimo por mim. Estamos em março; vê se consegues ainda este ano continuar a aula que interrompeste em fevereiro, há quatro anos. Forma-te, meu querido irmão, e serás depois o meu amparo. Então descansarei confiada somente aos teus cuidados.

A lei não permitia abrir matrícula extemporaneamente. Todavia, Francisco passou o restante do ano recordando matérias esquecidas desde as mais rudimentares das aulas preparatórias. Melhorou de casa, comprou livros, sentiu-se renascer, abendiçoou muitas vezes a Providência que sugerira no coração de quem quer que fosse a virtude de repor um roubo – virtude dificílima, digo eu, que encheria o céu de santos, se os ladrões, uma bela manhã, se combinassem para expulsar de lá os bem-aventurados por virtudes fáceis. Roubar e restituir depois, dizia ele, inculca uma transformação moral de tal magnitude que não se faz mister provar com outro fenômeno a divindade da religião que operou tal maravilha.

No primeiro capítulo deste livro vem contado o prosseguimento da venda dos brilhantes até completar-se a formatura de Francisco Costa, concluída em 1846. A ilusão do estudante nunca sofreu quebra. A restituição orçava por 1.650$000 réis, quando o cirurgião-médico, desgostoso de se ver sem clínica, bem que se distinguisse em prêmios e habilidade operatória, deliberou aceitar a proposta dum armador para ir ao Rio de Janeiro como cirurgião duma galera. O proponente era Hermenegildo Fialho, sujeito que Francisco nem de nome conhecia. Aceitou sob partido que ficaria no Rio, se lhe aprouvesse.

Joana, na véspera de embarcar-se o irmão, pediu de joelhos a D. Ângela que lhe deixasse declarar a quem deviam a sua felicidade. A esposa do brasileiro redargüiu que lhe daria mau pago se a denunciasse sem precisão nem utilidade, indo humilhar um homem que não podia agradecer, sem desconsolação, o benefício da mulher que o amou.

(continua...)

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