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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Pobre e estéril criatura! Percebeu ela por acaso o que continha aquele embrulho pardo? Sentiu ela subir de lá, e espalhar-se no escuro do seu capuz, um perfume estranho e enlanguescedor de baunilha e de pele amorosa? A quentura do leito revolto, que ficara nas rendas da camisa, atravessou por acaso o papel e veio aquecer-lhe brandamente os joelhos? Quem sabe! Durante um momento pareceu-me que uma gota de sangue novo lhe roseou a face desmaiada, e que debaixo do hábito, onde brilhava uma cruz, o seu seio arfou, perturbado; mesmo julguei ver lampejar, por entre as suas pestanas, um raio fugitivo e assustado, procurando as minhas barbas cerradas e pretas... Mas foi só um relance. Outra vez, sob o capuz, o rosto recaiu na sua frialdade de mármore santo; e sobre o seio submetido, a cruz pesou, ciumenta e de ferro. Ao seu lado, a outra religiosa, rechonchuda e de lunetas, sorria para o verde-mar, sorria para o sábio Topsius - com um sorriso claro que saía da paz do seu coração e lhe punha uma covinha no queixo.

Apenas saltamos na areia da Palestina, corri a agradecer, de capacete na mão, garboso e palaciano.

- Minha irmã, estou muito penhorado.. Grande desgosto se se perdesse o pacotezinbo!... E de minha tia, uma encomenda para Jerusalém... Lá lhe contarei... A Titi é muito respeitadora de cousas santas; pela-se pela caridade...

Muda, no refolho do seu capuz, ela estendeu-me o embrulhinho com a ponta dos dedos, débeis e mais transparentes que os de uma Senhora da Agonia. E os dous hábitos negros sumiram-se, entre muros faiscantes de cal nova, numa viela em escadas onde apodrecia o cadáver de um cão sob o vôo dos moscardos. Eu murmurei ainda: "Bem tola!"

Quando me voltei, Topsius, à sombra do seu guarda-sol, conversava com o homem prestante, que foi nosso guia através das terras da Escritura. Era moço, moreno, espigado, com longos bigodes esvoaçando ao vento; usava jaqueta de veludilho e botas brancas de montar; as coronhas prateadas de duas pistolas, emergindo de uma faixa de lã negra, armavam-lhe heroicamente o peito forte; e trazia amarrado na cabeça, com as pontas e as franjas atiradas para trás, um lenço rutilante de seda amarela. O seu nome era Paulo Pote; a sua pátria o Montenegro; e toda a costa da Síria o conhecia pelo alegre Pote. Jesus, que alegre matalote! A alegria faiscava-lhe na pupila azul-clara; a alegria cantava-lhe nos dentes incomparáveis; a alegria estremecia-lhe nas mãos buliçosas; a alegria ressoava-lhe no bater dos tacões. Desde Áscalon até aos bazares de Damasco, desde o Carmelo até aos pomares de Engada - ele era o alegre Pote. Estendeu-me rasgadamente a bolsa de tabaco perfumado. Topsius maravilhou-se do seu saber bíblico. Eu, com palmadas pelo ventre, gritei-lhe logo - meu gajo! E, depois de valentes apertos de mão, fomos para o Hotel de Josafate firmar o nosso contrato, bebendo vasta cerveja.

O alegríssimo Pote depressa organizou a nossa caravana para a cidade do Senhor. Um macho levava as bagagens; o arrieiro árabe, embrulhado num farrapo azul, era tão airoso e lindo que eu, irresistivelmente e sem cessar, procurava o negro afago do seu olhar de veludo; e, por luxo oriental, como escolta, seguia-nos um beduíno, velho, catarroso, com o albornoz de lã de camelo listrado de cinzento, e uma forte lança ferrugenta toda enfeitada de borlas.

Guardei num alforje, desveladamente, o embrulhinho mimoso da camisinha de Mary; depois, já na sela, alongados os loros do pernudo Topsius, o festivo Pote, floreando o chicote, lançou o antigo grito das Cruzadas e de Ricardo-Coração-de-Leão - Avante, a Jerusalém; Deus o quer! E a trote, com os charutos em brasa, saímos de Jafa pela porta do Mercado - à hora em que suavemente tocava a vésperas no Hospício dos Padres Latinos.

Na luminosa meiguice da tarde, a estrada alongava-se através de jardins, hortas, pomares, laranjais, palmeirais, terra de promissão, resplandecente e amável. Por entre as sebes de mirtos perdia-se o fugidio cantar das águas. O ar todo, de uma doçura inefável, como para nele respirar melhor o povo eleito de Deus, era um derramado perfume de jasmins e limoeiros. O grave e pacífico chiar das noras ia adormecendo, ao fim do dia de rega, entre as romãzeiras em flor. Alta e serena no azul, voava uma grande águia.

Consolados, paramos numa fonte de mármore vermelho e negro, abrigada à sombra de sicômoros onde arrulhavam rolas; ao lado erguia-se uma tenda, com um tapete na relva coberto de uvas e de malgas de leite; e o velho de barbas brancas que a ocupava saudou-nos em nome de Alá, com a nobreza de um patriarca. A cerveja tinha-me feito sede; foi uma rapariga bela como a antiga Raquel, que me deu a beber do seu cântaro de forma bíblica, sorrindo, com o seio descoberto, duas longas argolas de ouro batendo-lhe a face morena, e um cordeirinho branco e familiar preso da ponta da túnica.

(continua...)

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