Por Eça de Queirós (1925)
— Grandissimo burro ! Se nós lh'apanhassemos o dinheiro, hein ? Era logo comboio p'ra Lisboa, e bater p'ro Dafun.do, com um par de pequenas. Enterrou as mãos nos bolsos e tornou-se sombrio.
A chuva cessara : um vento frio ia rolando espessuras de nuvens, espaços azues estrellavam-se.
— Pois tivemos uma bella cavaqueira — disse o Rabecaz quando Arthur parou á porta de casa. — Eu gosto de conversar com quem me entenda e cá o amigo é dos meus. Appareça pela Corcovada. Não se passa mal.
E avistando um gato, atirou-lhe uma bengalada. Aquella brutalidade escandalisou Arthur. Deitou-se; convencido que o Rabecaz era um grosseiro, sem educação litteraria, d'uma lubricidade de bode.
Mas vivera em Lisboa, bebera o Champagne das orgias litterarias ; sobretudo, era republicano— e, d'ahi a dias, Arthur voltou á Corcovada, com o pretexto de pagar a ceia ao Rabecaz — realmente para lhe mostrar a sua Ode á Liberdade.
O Rabecaz enthusiasmou-se logo, sobretudo qüando Althur, afogueado, soltava este final da sua estrophe amada :
A hora Já soou, a Aurora vem a Baqueia a realeza :
E 'á se ouve na cidade além,
Rugir a Marselheza
Rabecaz atirou uma punhada á mesa:
— Caramba! Isso é d'artista ! Você o que deve é ir para Lisboa, que em Lisboa desbanca-os a todos ! Arthur não o duvidava— e essa palavra cimen-
ton a intimidade entre ambos. Aquelle applauso tornou-se-lhe então necessario. Rabecaz era o seu publico; julgava-o intelligente, de gosto muito certo, desde que elle admirava os seus versos ; leu-lhe successivamente todas as poesias dos Esmaltes e Joias e para o lisonjear nas suas antipathias clericaes — espirito effeminado, já adulava servilmente os instinctos do seu publico—compôz uma satyra contra os padres, a quem chamava «negros serventes d'um esterü dogma O seu cerebro pareceu degelar ao sopro quente d'aquella admiração grosseira; f.ez sonetos; e o que escrevia agora era sob a preoccupagão «do que diria o Rabecaz todavia era sempre a mesma a formula critica do Rabecaz : escutava com os braços cruzados, nobilitando a sua attitude na presença das rimas: se a poesia era lyrica e amorosa, tinha um riso mudo que lhe enchia a face de rugas, lhe mostrava a dentuça negra, e arrastando a. voz com deleite :
— Está catita !
Se era « uma peça philosophica», arregalava o olho, o nariz alongava-se-lhe, erriçava-se-lhe o bigode e rosnava cavamente :
— Está d'arromba !
E terminava por exclamap, com uma palmada no joelho :
— Caramba, Arthur, você deve ir p'ra Lisboa !
Você vae a ministro I
Arthur suspirava. A certeza que o Rabecaz lhe dava da celebridade em Lisboa — elle que a conhecia tão completamente — inflammara-lhe o desejo de lá. viver e ser uma das suas personalidades essenciaes. Lisboa era agora a sua necessidade, o seu ideal, a sua mania. Pensava que lá, na Capital, as suas faculdades se desenvolveriam prodigiosamente, como certas plantas raras que só medram em terrenos ricos ; ahj_ encontraria de certo as glorias do coração em amores aristocraticos, e, discutido nos folhetins, recitado nos theatros, muito alto na hierarchia das letras, poderia tafrez extrahil' uma fortuna dos cofres dos editores !
Tudo o que o cercava e o retinha, a casa das tias, a pharmacia do Vasco, lhe parecia então mais odioso ; tud.o na Villa lhe dava uma sensação de obscuridade que o abafava —as ruas que se lhe afiguravam estreitas como as idéas, as fachadas que eram inexpressivas como os rostos ; detestava aquella gente que nunca leria os seus versos, e que de certo o desprezava: o fiel de feitos que ao meio-dia passava na praça, com o seu saeco de lustrina cheio d'autos e o Carneiro (Ilie, de robc-dechambre, a face prospera e farta, fumava o seu cha- ruto á varanda ,
E trabalhava n'um ardor contínuo, forçando a imaginação diffieil, avido da terminação dos Esmaltes e Joias, como se elles fossem o fim de todas as suas desesperanças. As tias, o Vasco, achavamlhe uma c cara de desenterrado» e as pessoas que moravam na praga, olhavam quasi com compaixão aquelle moço triste, que passava de manhã e á tarde, d'olhos baixos, cabello muito comprido, encolhido no seu paletot côr de pinhão.
Andava, n'um desabafo, compondo uma Epistola em quadras, dedicada ao poeta que disse :
Eu nunca vi Lisboa e tenho pena
Arthur, sem o conhecer, tratando-o de tu, n'uma familiaridade de Parnaso, commungava na mesma ambição. E nas manhãs em que não havia trabalho na pharmaeia, era pelo seu quarto um passear desordenado, declamando :
Tambem eu nunca vi Lisboa, amigo,
Profunda Babylonia junto ao mar I
Oh t que me fosse dado ir iá comtigo
E ao lado, do peitoril da janella, estendendo o braço agaloado d'ouro, o Albuquerquezinho berrava n'um accesso :
— Orça a barlavento ! Cerra os traquetes da gavea ! Fogo !
Um sopro de loucura parecia correr n'aquelle andar da casa, emquanto em baixo, na sala, as tias faziam a sua meia e o gato branco dormia, n'uma restea pallida do sol de Novembro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.