Por Eça de Queirós (1912)
Depois o prior subia ao púlpito rústico, feito de pedras, e enumerava as obras gloriosas da montanha. Onde houvera, mesmo na Tebalda, no tempo sublime dos Antãos, dos Pacómios, uma penitência mais alta? E mostrava as suas faces emagrecidas pelos jejuns, as suas carnes rasgadas pelas flagelações. Uma imensa admiração arrebatava as turbas piedosas. E todos queriam ver nos corpos dos santos a evidência da sua santidade. E só havia então ermitas mostrando as chagas que eles tinham assanhado, as pisaduras que lhes deixavam as pedras onde dormiam, os dentes estragados pelo pão azedo a que misturavam cinza. As mulheres erguiam as mãos, chorando. As mais ardentes arrancavam pedaços da túnica dos ermitas, que guardavam o seio como relíquias. Os velhos beijavam a terra onde eles tinham pousado os pés. Diante das cabanas havia multidões a admirar a dureza dos leitos, a bilha quebrada, o grande in-fólio. Alguns julgavam ver as pegadas dos anjos que visitavam os ermitas. Outros queriam provar o pão, ou, cheios de respeito, tocavam com o dedo nas disciplinas. Cristóvão era invejado por viver entre eles. Muitos queriam abandonar os casais, para servir os santos: - e havia sempre algum que, para ficar na montanha, se escondia entre as rochas, e que era necessário expulsar quando o Sol descia, e a hora chegava da solidão e da prece.
Mas nessas noites, depois dos arraiais, as orações não eram tão profundas, nem as penitências tão altas. Cansados, sentados à porta da suas cabanas, os ermitas saboreavam,, no silêncio do seu coração, a sua imensa santidade. Cada um se sentia famoso, falado nas lareiras do vale. Decerto a fama da sua santidade chegaria aos castelos. Os bispos falariam deles nos concílios. E mais tarde talvez suas imagens se ostentariam sobre os altares. E Cristóvão então via-os olhar complacentemente, acariciar as feridas da penitência, escolherem uma pedra maior para encostar à noite a cabeça. O prior vinha então congratular os seus irmãos. A sua face resplandecia. E era ele que relembrava os movimentos da multidão, e como a suas chagas tinham sido beijadas. E já certo do poder da sua voz, falava em descer à planície, pregar contra a relaxação dos Beneditinos. A sua estatura cada vez se erguia mais. Um dia mesmo mostrou em triunfo uma carta do conde de Ocitânia, que o consultava sobre os dízimos. E Cristóvão entristecia, era como uma saudade de outros homens mais humanos, e do riso das crianças. Era sobretudo como uma impaciência de toda aquela inutilidade dos ermitérios, os longos e ocos silêncios, as horas passadas com a fronte sobre uma pedra, aquela imobilidade contempladora de onde não saía nenhum bem, nada que aquecesse o coração. Povoada por toda aquela inércia, a montanha ainda lhe parecia mais inerte. E vinha-lhe como um desejo de sacudir aquela imobilidade dos homens e das coisas, e com as suas mãos arremessar conjuntamente os ermitas e os robles, as caveiras e as rochas. e empurrá-los para alguma ação útil, mandá-los de roldão, pela montanha abaixo, a ser úteis aos homens!
O seu coração pouco a pouco se destacava daqueles amores. Já não corria tão alegremente a encher as bilhas; tanta cruz envolta por tantos braços, não lhe causava doçura na alma; e aborrecia as caveiras, com seu riso imóvel, oferecendo ao Sol a sua frialdade branca. Quando de noite as buzinas soavam, implorando o auxílio de orações irmãs, não se erguia em sobressalto apiedado. Toda a flagelação o impacientava. E nos dias de festa embrenhava-se nos altos da serra, para não presenciar o orgulhos dos ermitas, mostrando as feridas das disciplinas.
Um dia o prior mandou-lhe construir, com um madeiro, uma cruz da altura de um homem. Três dias Cristóvão trabalhou. E quando, enfim, cravou a cruz num ponto evidente da serra, onde não havia arvoredos, o prior chamou os seus irmãos de ermitério. Um por um, desceram, rezando baixo. O prior encostara-se à cruz, com o corpo colado ao madeiro, e abriu os braços ao longo da cruz – cruz humana, colada à cruz da lenha. depois ordenou um cântico. Quando ele cessou:
— Agora – disse o prior – vou ficar aqui, sem comer, sem dormir, durante três dias, pelas três pessoas da Santíssima Trindade. Esta obra é gloriosa!
Todos ergueram as mãos ao Céu, edificados.Cristóvão, nessa tarde, desceu o córrego até vale, e sem sequer volver os olhos, abandonou para sempre a montanha.
XII
Cristóvão tomou o caminho do lado oposto aos povoados – e começou a caminhar, ao acaso, pela longa ravina que contornava a serra. Era como leito de antiga torrente, que seguia funda entre rochas, seca e triste infinitamente. Toda a noite caminhou à luz de uma grande Lua cheia. De madrugada dormiu à boca de uma caverna. A solidão era como a de um mundo deserto, onde só ele habitasse. Cristóvão sonhou com prados e regatos muito frios, muito límpidos, que corriam entre aloendros em flor. Quando acordou teve sede, e em roda só havia um torrão tão estéril, que nem nele crescia o tojo..
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.