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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

— Que linda! — disse o oficial parando, com um olhar admira do e profundo. — Quem será? — Somos um pouco primos — disse eu rindo. — É casada. É a condessa de W. Parte para Malta amanhã no paquete. A bordo le var-lhe-ei o meu amigo para a entreter contandolhehistórias da Índia. Adora o romanesco, aquela pobre condessa! Em Portugal, nem nos romances o há, Caçou o tigre, capitão?

— Um pouco. Fala o inglês sua prima?Como uma portuguesa, mal; mas ouve com os olhos, e adi vinha sempre.

Separámo-nos.- Arranjei-lhe um romance, um lindo romance, prima — dis se eu entrando na sala, onde o conde escrevia cartas, cachimbando: — um romance onde se caçam tigres com rajás, onde há bayaderas, florestas de palmeiras, guerras inglesas e elefantes...- Ah! como se chama?

— Chama-se Captain Rytmel, oficial de artilharia, 28 anos, em viagem para Malta,bigode louro, um pouco da Indianos olhos, muito da Inglaterra na excentricidade, um perfeito gentleman.

— Um bebedor de cerveja! — disse ela, desfolhando a flor de cactos.- Um bebedor de cerveja! — gritou o conde erguendo a cabe ça com uma indignação cómica. — Minha querida, diante de mim, pelo menos, não digas isso se não queres fazer-mecabelos brancos! Estimo os Ingleses e respeito a cerveja. Um bebedor de cerveja! Um moço daquela perfeição!... — murmurava ele, fazendo ranger a pena.

Ao outro dia subíamos para bordo do paquete da Índia: o Cei lão. Eram 7 horas d amanhã. O morro de Gibraltar, mal acordado, tinha ainda o seu barrete de dormir feito de nevoeiro. Havia já via jantes e oficiais sobre a tolda. O chão estava húmido, havia uma confusão violenta de bagagens, de cestos de fruta, de gaiolas de aves; a escada de serviçovia-se cheia de vendedores de Gibraltar. A condessa recolheu-se à cabina para dormir um pouco. Às 9 ho ras quase todos os passageiros que tinham entrado em Gibraltar e os quevinham de Southampton estavam em cima; o vapor fume gava, os escaler es afastavam-se, o nevoeiro estava desfeito, o sol dava uma cor rosada às casas brancas de Algeciras e de S. Roque, e ouvia-se em terra o rufar dos tambores.A condessa, sentada numa cadeira indiana, olhava para as pe quenas povoações espanholas que assentam na baía.O oficial inglês, Captain Rytmel, conversava a distância com o conde, que adorava já a sua figura cativante e altiva, as suas aventuras da Índia, e a excêntrica forma do seu chapéu, que ele trazia com uma graça distinta e audaz. O capitão tinha na mão um álbum e um lápis.- Captain — disse-lhe eu tomando-lhe o braço -, vou levá-lo a minha prima, a senhora condessa. Esconda os seus desenhos, ela é implacável e faz caricaturas.A condessa estendeu ao inglês uma pequena mão, magra, ner vosa, macia, com umas unhas polidas como o marfim de Diepa.

— Meu primo disse-me, Captain Rytmel, que tinha mil histó rias da Índia para mecontar. Já lhe digo que lhe não perdoo nem um tigre, nem uma paisagem. Quero tudo! Adoro a Índia, a dos Índios, já se vê, não a dos senhores Ingleses. Já esteve em Malta? É bonita?- Malta, condessa, é um pouco de Itália e um pouco do Orien te. Surpreende por isso. Tem um encanto estranho, singular. De resto é um rochedo.

— Demora-se em Malta? — perguntou a condessa.- Uma semana.

A condessa estava torcendo a sua luva; ergueu os olhos, pousou-os no oficial, tossiubrandamente, e com um movimento rápido: — Ah! Vai deixar-me ver o seu álbum. — Mas, condessa, está branco, quase branco; tem apenas de senhos lineares, apontamentos topográficos. — Não creio; deve ter paisagens da Índia, há-de haver aí um tigre, pelo menos, a não ser que haja uma boyadera!E, com um gesto de graça vitoriosa, tomou o álbum da mão do oficial.

O capitão fez-se todo vermelho. Ela folheou o livro e de repen te deu um pequeno grito, corou, e ficou com o álbum aberto, os olhos húmidos, risonhos, os lábios entreabertos.Olhei: na página estava desenhada uma mulher com um penteador branco, debruçada a uma janela, tendo defronte um horizonte com montanhas e o mar. Era o retrato perfeito dacondessa. Ele tinha-a visto assim na véspera, ao luar, à janela do Club-House.O conde tinha-se, aproximado.

— Como! Como! És tu, Luísa! Mas que talento! É um homem adorável, capitão. Quedesenho!

Que verdade! — Oh! Não! Não! — disse o capitão. — Ontem estava no meu quarto, em ClubHouse;instintivamente tinha o álbum aberto, e o lápis, sem eu querer, sem intenção minha, espontaneamente, fez este retrato. É um lápis que deve ser castigado!

— O quê! — gritou o conde. — É um lápis encantado. Capitão, está decidido que vaijantar comigo, logo que cheguemos a Malta. Já o não largo, meu caro! Há-de ser o nosso cicerone em Malta. Mas que talento! Que verdade!E falando em português para a condessa: — É um bebedor de cerveja, hem? Nesse momento uma sineta tocou: era o almoço.

III

(continua...)

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