Por Eça de Queirós (1900)
Ajudado por Gonçalo, trepou enfim pesadamente ao estribo. D. Ana já se enterrara nas almofadas, alçando entre as mãos, como uma insígnia, o cabo rebrilhante da luneta de ouro. O trintanário também se entesou, cruzou os braços: e a caleche aparatosa, com as manchas brancas das redes dos cavalos, mergulhou no silêncio e na penumbra da estrada, sob a espalhada ramaria das faias.
- Que maçada! - exclamou Gonçalo. E não se consolava de tarde tão linda assim desperdiçada... Intolerável, esse Sanches Lucena, com o Sr. D. Fulano e o Sr. D. Sicrano, e a sua gula de "roda fina", e "tudo dele" por colina e vale! A mulher, esplêndida peça de carne, como filha de carniceiro - mas sem migalha de graça ou alma. E que voz, Jesus, que voz! Gente pedante e sabuja... E agora só desejava recuperar a sua égua, galopar para a Torre, e desabafar com o Titó, familiar da Feitosa!, o seu asco por toda aquela Sancharia.
A égua não tardou, a trote largo, montada pelo filho do Solha, que, ao avistar o Fidalgo, saltou à estrada, de chapéu na mão, encouchado e encarnado, balbuciando que o pai chegara bem, pedia a Nosso Senhor lhe pagasse a caridade...
- Bem, bem! Recados a teu pai. Que estimo as melhoras. Lá mandarei saber.
Num pulo montara - galopava pelo fácil atalho da Crassa. Mas, diante do portão da Torre, encontrou um moço do Gago, com um bilhete do Titó, anunciando que não podia jantar na Torre porque partia nessa semana para Oliveira!
- Que disparate! Para Oliveira também eu parto; mas janto hoje! Até combinávamos, o levava nacarruagem... Ele que ficou a fazer, o Sr. D. Antônio?
O rapaz coçou pensativamente a cabeça:
- O Sr. D. Antônio passou lá por casa para eu trazer o bilhete ao Fidalgo... Depois, creio que temfesta, porque entrou defronte no tio Cosme fogueteiro, a comprar bichas de rabear...
Aquelas inesperadas bichas de rabear causaram logo ao Fidalgo uma imensa inveja:
- E onde é a festa, sabes?
- Eu não sei, meu Fidalgo... Mas parece que é coisa rija, porque o Sr. João Gouveiaencomendou lá ao patrão dois grandes pratos de bolos de bacalhau.
Bolos de bacalhau! Gonçalo sentiu como a amargura de uma traição:
- Oh! que animais!
E de repente ideou uma vingança alegre:
- Pois se vires hoje o Sr. D. Antônio ou o Sr. João Gouveia não te esqueças de lhes dizer que sinto muito... Que eu também cá tinha à noite na Torre uma festa. E havia senhoras. Vinha a Sra. D. Ana Lucena... Não te esqueças, hem?
Gonçalo galgou as escadas rindo da sua invenção. Mas, nessa noite, às nove horas, depois do arrastado e atochado jantar com o Manuel Duarte, entrou na sala grande dos retratos, apenas alumiada pelo lampião dourado do corredor, para buscar uma caixa de charutos. E casualmente, através da janela aberta, reparou num homem que, embaixo, rente da sombra dos álamos, rondava, espreitava... Mais atento, imaginou reconhecer os poderosos ombros, o andar bovino do Titó. Mas não, com certeza! o homem trazia jaqueta e carapuço de lã. Curioso, abafando os passos, ainda se abeirou da varanda. O vulto porém descera da estrada, logo sumido sob as árvores duma quelha que contorna o Casal do Miranda, e desemboca adiante, na Portela, junto das primeiras casas de Vila-Clara.
IV
O palacete dos Barrolos em Oliveira (conhecido desde o começo do século pela Casa dos
Cunhais) erguia a sua fidalga fachada de doze varandas no largo de El-Rei, entre uma solitária viela que conduz ao Quartel e à rua das Tecedeiras, velha rua mal empedrada, ladeirenta, oprimida pelo comprido terraço do jardim, e pelo muro fronteiro da antiga cerca das Mônicas. E nessa manhã, justamente quando Gonçalo, na caleche da Torre puxada pela parelha do Torto, desembocava no largo de El-Rei, subia pela Tecedeiras, dobrando a esquina dos Cunhais, num cavalo negro de fartas clinas, que feria as lajes com soberba e garbo, o Governador Civil, o André Cavaleiro, de colete branco e chapéu de palha. Num relance, do fundo da caleche, o Fidalgo ainda o surpreendeu levantando os pestanudos olhos negros para as varandas de ferro do palacete. E pulou, com um murro no joelho, rugindo surdamente - "que biltre!" Ao apear no portão (um portão baixo, como esmagado pelo imenso escudo de armas dos Sás) tão sufocada indignação o impelia que não reparou nas efusões do porteiro, o velho Joaquim da Porta, e esqueceu dentro da caleche os presentes para Gracinha, a caixa com o guarda-solinho e um cesto de flores da Torre coberto de papel de seda. Depois em cima, na sala de espera, onde José Barrolo correra, ao sentir nas lajes do largo silencioso o estrépito do calhambeque, desabafou logo, arrebatadamente, atirando o guarda-pó para uma cadeira de couro:
- Oh senhores! Que eu não possa vir à cidade sem encontrar de cara este animal do Cavaleiro! E sempre no largo, defronte da casa! E sorte!... Esse bigodeira não achará outro lugar para onde vá caracolar com a pileca?
José Barrolo, um moço gordo, de cabelo ruivo e crespo, com um buço claro numa face mais redonda e corada que uma bela maçã, acudiu, ingenuamente:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.