Por Camilo Castelo Branco (1864)
Ajoelhou-se a beijar-lhe as mãos, que molhou de lágrimas. E ela abençoou-o serenamente, com os olhos no crucifixo do seu oratório. Ao lado deles estava Mafalda, lívida, hirta, transida de um frio que a fazia tiritar. Não chorava. Podia comparar-se a sua atribulação à da mãe que também tinha enxutos os olhos. Porém, quando Afonso lhe estendeu a mão, e disse: "Adeus!", ela arrancou do intimo um cortante grito e lançou-se nos braços dele, debulhada em pranto.
XIII
Foi Afonso de Teive para Lisboa. Como ia desgostoso e intratável, rejeitou a aposentadoria em casa do tio desembargador. Mobilou casa no bairro de Buenos Aires, na menos frequentada das ruas. Desligou-se do trato das relações adquiridas em casa do magistrado e evitou novos conhecimentos. Vestiu de livros as paredes do seu gabinete, propondo-se o recreio do estudo e o trabalho mesmo de composição, sem o intento defazer-se conhecido no mundo literário. Enquanto o espírito se lhe entreteve nos apetrechos de casa e aconchegos de quem tencionava viver nela os dias e as noites, curtos intervalos de mágoa o assoberbaram; assim, porém, que o bulício cessou e os tapetes das elegantes salas não davam rumor de um passo, e Afonso, sentado à sua banca de estudo, ouvia apenas as cadências do pêndulo do relógio, condensaram-se-lhe em volta do espírito as nuvens torvas, que se haviam rarefeito, bafejadas pela aragem da esperança, e nunca tão compressora o sopesou a mão da tristeza. Os livros atediavamno; o escrever acendia-lhe o espírito a um grau penoso de excitação. Todos os seus manuscritos fragmentários ou desatados, que eu vi treze anos volvidos, acusavam uma obstinada paixão, da qual o poeta hauria argumentos contra a Providência que o desamparara, na batalha consigo mesmo.
Aos vinte e dois anos, aceitar longo tempo e voluntariamente um jugo de vida assim é virtude imaginária. Para outras civilizações, lá estava o deserto do anacoreta e a Palestina do cruzado: um e outro se deixavam devorar das angústias do ermo, ou cortar do ferro islamita; e lá iam encontrar-se no Céu, a cobrarem o seu património de alegrias infindas, ganho a troco de uma hora de orgulho satisfeito - que mais não é o contentamento desta breve fugida do ventre à sepultura. Nestes tempos, porém, a tanta luz, a tanto estrondo, em tamanho desentranhar-se a terra em novos enfeites de si própria, agora, que o céu se deixa contemplar, já não como paragem de futuras vidas, senão como estrelado envoltório deste globo cujas delicias nos foram dadas em desconto do breve tempo que as saboreamos; agora, em suma, que o viver sem gozar é um triste, se não estúpido, prelúdio da morte, em redor da sepultura, que loucura é esta de Afonso de Teive que não rompe mundo dentro, com seis mil cruzados de renda, vinte e dois anos, bizarria de fidalgo e fisionomia dotada de graças atractivas de todos os
- É certo - respondeu Afonso, quase envergonhado da confissão.
- Ó pobre José! ó malograda Hiêmpsal! Conheces bem a Hiêmpsal... a esposa do ministro de Faraó! Quantas capas tencionas assim deixar em lindas mãos!... Ai de ti, Afonso de Teive, que, afinal, saíras do inundo sem capa e coberto de lama!... Tu não sabes que estás em 1850 e que tens de alijar a carga de dois séculos, se não quiseres ir a pique, varar no ridículo inexorável com os homens da tua fortuna e da tua figura.
Origeneses fictícios, que nem sequer ressalvam com o estudo dos atributos divinos a sua ignorância dos atributos humanos... Pobre Teodora... a formosa mulher, que se rojava a teus pés, quando tu, por brio mesmo de tua vaidade ferida, devias ter ido beijarlhe os cabelos, e não arrancar-lhos. Pobre menina, casada com um homem chamado Eleutério... que mais?
- Eleutério Romão dos Santos - disse Afonso, sorrindo no tom imitante do dizer.galhofeiro do amigo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.