Por Camilo Castelo Branco (1869)
Tinham decorrido três horas de prática entre sorrisos e lágrimas, quando Joana se levantou e disse:
― Deixe-me vossa excelência ir fazer o jantar de meu irmão.
― Espere... – atalhou Ângela, e foi ao seu quarto.
Parou à entrada, e exclamou, como se houvesse medo de entrar:
― Ah!
E, chamando Vitorina, perguntou com aflição:
― As jóias de minha mãe ficaram na quinta, não ficaram?
― Sim, minha senhora. Vossa excelência disse-me que as fechasse na cômoda, porque eram coisas antigas que já se não usavam; até seu marido, nessa ocasião lembrou que o meu melhor era trocá-las por enfeites modernos.
― É verdade!... – recordou Ângela com muita amargura. – Como há de ser isto? Eu queria dá-las a Joana. ― Dá-las?... e se seu marido perguntasse por elas?
― Respondia que as dei.
O tom severo desta resposta forçou a criada a silêncio.
Ângela voltou à sala, apertou entre as suas as mãos da viuva, e disse-lhe com veemente solenidade: ― A minha amiga vai jurar pela memória de seu marido que não dirá a seu irmão que me viu.
― Juro, minha senhora.
― E não lho dirá por que o vermo-nos complicaria o infortúnio de ambos.
― Não era preciso lembrar-mo vossa excelência.
― E promete-me aqui vir amanhã à mesma hora?
― Sim, minha senhora.
― Então vá, e creia que tem aqui ao pé da minha alma de irmã a alma de seu marido. Eu hei de melhorar a sua sorte, se a senhora nunca esquecer o seu juramento.
― Não esquecerei, Sr.ª D. Ângela.
Saiu Joana; e a esposa do brasileiro abriu um estojo de veludo, que continha o adereço que o marido lhe dera. Examinou as peças, procurando uma, cujas pedras se desencravassem com menos custo. Escolheu a pulseira, e dela com os bicos de tesoura extraiu um brilhante. Chamou Vitorina, e disse-lhe:
― Vai vender esta pedra a um ourives.
― Vender?!... – objetou com espanto a criada.
― Sim, vender.
― Teremos novas desgraças, minha senhora?
― Não. Temos desgraças antigas a remediar. Faz o que te mando, Vitorina, senão, vou eu.
A criada sentiu-se impelida por irresistível força. Ângela, quando mandava com império, fazia lembrar à velha a soberba e inflexível Maria d’Antas.
Saiu Vitorina, examinando, na rua das Flores, as ourivesarias mais abastecidas. Entrou na loja dos Srs. Mourões, e vendeu o brilhante por 250$000 réis.
Voltou a tremer, medindo a gravidade do delito pela abundância de oiro e prata que lhe pesava de certo modo na consciência. Entregou o dinheiro a sua ama, e abalançou-se a fazer considerações timoratas sobre o alcance de tal passo.
D. Ângela rebateu os sustos de Vitorina com o seu ar de infinita alegria – raio de luz que muitos anos havia não tinha tocado os lutos daquela alma.
― As minhas jóias já ele me disse que valeriam quatro ou cinco contos – ajuntou Ângela para aliviar dos escrúpulos a meticulosa criada. – Quando ele (ele era o marido) desse fé que eu dispusera destes brilhantes lá tem os de minha mãe para se ressarcir.
― Mas o pior é se ele pergunta a quem vossa excelência deu o dinheiro... – contrariou a sisuda velha.
― Se pergunta, responderei “dei-o”. Verás que sou pontual no que prometo, se chegar essa ocasião.
― Deus nos acuda por sua sagrada paixão, e morte!... – esconjurou Vitorina, e acomodou-se para não agourentar a exultação da ama.
No dia seguinte, à hora aprazada, chegou a irmã de Francisco Costa. Foi recebida com grande contentamento.
― A minha amiga – disse a filha do general com a mesma gravidade do dia anterior – continua a jurar pela memória de seu marido que fará quanto eu lhe disser, e não revelará a seu irmão palavra do que se aqui passar. Jura?
― Farei o que vossa excelência disser, sendo coisa que não possa acarretar-lhe desgostos.
― Não me ponha condições; se mas põem, torna-me mais desgraçada do que eu era – disse Ângela com transporte, perdendo por instantes a alegria que lhe iluminava o rosto.
― Farei o que vossa excelência mandar.
― Bem. Escute-me. Quero que a senhora mude de situação, de casa, e de tudo. Quero que seu irmão continue os seus estudos. Quero restituir-lhe o que perdeu com a morte de seu marido...
― Ó minha senhora, vossa excelência...
― Deixe-me falar. Quero que seu irmão nem em sonhos possa conjecturar donde a minha amiga recebe os recursos. Ajude-me a pensar; como há de ser isto? Como poderemos nós enganá-lo?
― Não sei, minha senhora... Meu irmão sabe que eu nada tenho, e que os nossos parentes todos são pobres...
― Eu pensei toda a noite nisto. Inventei uma mentira inocente. Veja se tem jeito... Parece-me que sim... A minha querida amiga finja que uma pessoa de Viana, que não se declara, ficou devendo em consciência a seu marido certa quantia de dinheiro, e quer restituí-la porque tem remorsos de ter contribuído para a perda e morte do Sr. José Maria. Compreende?
― Sim, minha senhora; mas...
― Espere. Ouça o resto. Essa pessoa diz na carta que irá remetendo, de tempo a tempo, a quantia que deve, e declara que não é pequena a restituição. Para que seu irmão possa, sem receio de ser interrompido por falta de meios, continuar o seu curso. Que lhe parece?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.