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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Assim, despercebido, a conversar com Satanás, achei-me no Campo de Santana. E tendo parado, enquanto ele desenvencilhava os cornos dos ramos de uma das árvores, ouvi de repente ao meu lado um berro: "Olha o Teodorico com o Porco-Sujo!" Voltei-me. Era a Titi! A Titi, lívida, terrível, erguendo, para me espancar, o seu livro de missa! Coberto de suor, acordei.

Topsius gritava, à porta do beliche, alegremente:

- Levante-se, Raposo! Estamos à vista da Palestina!

O Caimão parara; e no silêncio eu sentia a água roçando-lhe o costado, de leve, num murmúrio de mansa carícia. Por que sonhara eu assim, ao avizinhar-me de Jerusalém, com os deuses falsos, Jesus seu vencedor, e o demônio a todos rebelde? Que suprema revelação me preparava o Senhor?...

Desenrodilhei-me da manta; atordoado, sujo, sem largar o precioso embrulho da Mary; subi ao tombadilho, encolhido no meu jaquetão. Um ar fino e forte banhou-me deliciosamente, trazendo um aroma de serra e de flor de laranjeira. O mar emudecera, todo azul, na frescura da manhã. E ante meus olhos pecadores estendia-se a terra da Palestina, arenosa e baixa, com uma cidade escura, rodeada de pomares, toucada no alto de flechas de sol irradiando como os raios de um resplendor de santo.

- Jafa! - gritou-me Topsius, sacudindo o seu cachimbo de louça. - Aí tem o D. Raposo a mais antiga cidade da Ásia, a velhíssima Jepo, anterior ao dilúvio! Tire o barrete, saúde essa anciã dos tempos, cheia de lenda e de história... Foi aqui que o borrachíssimo Noé construiu a sua arca!

Cortejei, assombrado.

- Caramba! Ainda agora a gente chega, já lhe começam a aparecer cousas de religião!

E conservei-me descoberto, porque o Caimão, ao ancorar diante da Terra Santa, tomara o recolhimento de uma capela, cheia de piedosas ocupações e de unção. Um lazarista, de longa sotaina, passeava, com os ossos baixos, meditando o seu breviário. Sumidas dentro dos capuzes negros de lustrina, duas religiosas corriam os dedos pálidos pelas contas dos seus rosários. Ao longo da amurada úmida, peregrinos da Abissínia, hirsutos padres gregos de Alexandria, pasmavam para o casario de Jafa, aureolado de sol, como para a iluminação de um sacrário. E a sineta à popa tilintava, na brisa salgada, com uma doçura devota de toque de missa...

Mas, vendo uma barcaça escura remar para o Caimão, baixei depressa ao beliche a pôr o meu capacete de cortiça, calçar luvas pretas, para pisar decorosamente a terra do meu Salvador. Ao voltar, bem escovado, bem perfumado, achei a lancha atulhada. E descia, com alvoroço, atrás de um franciscano barbudo, quando o amado embrulhinho da Mary escapou dos meus braços carinhosos, rolou em saltos pela escada como uma péla, raspou a borda do bote... Ia sumir-se nas águas amargas! Dei um berro! Uma das religiosas apanhou-o, ligeira e cheia de misericórdia.

Agradecido, minha senhora! - gritei, enfiado. - E um pacotezinho de roupa! Seja pelo sagrado amor de Maria!

Ela refugiou-se modestamente na sombra do seu capuz; e como eu me acomodara, mais longe, entre Topsius e o franciscano barbudo que cheirava a alho - a santa criatura guardou o embrulho sobre o seu puro regaço, deitou-lhe mesmo por cima as contas do seu rosário.

O arrais, empunhando o leme, bradou: "Alá é grande, larga!" Os árabes remaram cantando. O sol surgiu por trás de Jafa. E eu, encostado ao meu guarda-chuva, contemplava a pudica religiosa que assim levava, ao colo, para a terra de castidade, a camisinha da Mary.

Era nova; e entre o bioco triste de lustrina preta parecia de marfim o seu rosto oval, onde as pestanas longas punham a sombra de uma dolente melancolia. Os beiços tinham perdido toda a cor e todo o calor, para sempre inúteis, destinados somente a beijar os pés arroxeados do cadáver de um deus. Comparada com Mary; rosa de Iorque aberta e sensual, perfumando Alexandria, esta pendia como um lírio ainda fechado e já murcho na umidade de uma capela. Ia certamente para algum hospício da Terra Santa. A vida para ela devia ser uma sucessão de chagas a cobrir de fios e de lençóis, a estender por cima de faces mortas. E era decerto o medo do Senhor que a tornava assim tão pálida.

- Bem tola! - murmurei eu.

(continua...)

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