Por Eça de Queirós (1925)
E pousando o taco, convidou Arthur a cear. A Corcovada tinha ao fundo, para os intimos, entre a cozinha e a estrebaria, um cubiculo com uma mesa de pinho e mochos de palhinha. D'uma paredo pendia o retrato de Pio IX, de mão erguida n'uma benção ; defronte, n'uma lithographia colo• rida, uma odalisca semi-nua enfiava perolas. Ouviase ao lado rabujar os netos da Corcovada, estalar na lareira a lenha verde e as mulas dos almocreves, puxando a argola das mangedouras, baterem o chão lageado.
Rabecaz encommendou á Mariquitas, sobrinha da Corcovada, « a bella fritada d'ovos e chouriço e dous meios litros reaes
E indicando, @om um piscar d'olhos, a rapariga sardenta e roliça :
— Boa perna !
Escarrou para o lado, e, installando-se á mesa, quiz saber a opinião d'Arthur « sobre o gado D.
— Que gado
— O gado, o femeaço
A expressão brutal escandalisou as delicadezae d'Arthur e o seu desprezo por Rabecaz foi com• pleto quando o ouviu declarar, com o olho lubrico, que o que apreciava no gado eram «as boas car•
nes 9.
— O amigo nunca esteve em Lisboa — Não disse Arthur.
O Rabecaz deu uma palmada na :
— Então, meu caro senhor, não sabe o que é gado ! Não faz Idéa do que é um pé catita ! — E com uma punhada na mesa : — Então, não sabe o que é a pandega !
Fallou immediatamente de si. Tinha vivido em Lisboa, elle, com cavallos, com cadeira em S. Car10s, com carruagem ! Fôra um principe ! No tempo em que Madame Ortza era uma belleza e o Marrare um céu aberto ! Que batidas para as Portas d'Algés ! Que orgias com a Contadini !
Comi tudo, mas regalei-me ! — disse, dando um puxão ao bigode,
Arthur considerava-o agora com interesse, como uma ruina romanesca.
— O snr. Rabecaz então devia conhecer bem Lisboa.
— Lisboa
Bebeu um trago areal» e passando pelos beiços as costas da mio cabelluda :
— Meu caro senhor, conheço Lisboa desde o mais alto—e o seu gesto no ar parecia designar doceis de thronos — até ao mais baixo ! AO mais baixo ! — agitava a mão sob a mesa, como revolvendo lamaa.
Rabecaz adquiriu logo para Arthur uma auct:odade imprevieoa por aquella experiencia tão com-
plexa da grande cidade, das suas glorias, dos seus mysterios. Naturalmente tinha convivido com escriptores, com artistas . . .
— Grande rapaziada ! — exclamou Rabecaz — Conheço-os a todos, de tu ! Bellos pandegos !
Citou nomes. O José Estevão ! O Garrett ! A Sociedade do Delirio ! Uma troça real !
Mas voltou com fogo ás mulheres :
— Não ha como Lisboa para se apanhar do bom, do alto ! Tudo sêdas e velludos ! — E repoltreavase, retorcendo as guias, significando qüe se rolara no leito de condessas. — F, as hespanholas, ó amigo, hein E as hespanholas
O olho chammejava-lhe. Para elle, não havia como uma rica andaluza, cheia de salero e de chic, de cinta d'annel, pézinho catita Oh ! menino ! Deu um puxão ás calças, bufou de concupiscencia.
— Agora aqui é chupar no dedo ! — concluiu sombriamente, — Que choldra de vida ! Até um homem aqui ganha mofo . . ,
A mim, paraJysam-se-me as faculdades , , .
— E eu estou a perder a tacada . . .
Estes gostos baixos, as locuções incultas de Rabecaz, revelaram a Arthur um brutal que o dinheiro, a petulancia, ti.nham misturado casualmente ás existencias desordenadas das almas ardentes. E, preoceapado só do mundo da Arte e da Litteratura, interrogou-o ainda sobre os theatros, as dançarinas. Devia ser uma vida deliciosa nos bastidores . . . ceias com os jornalistas
— Um delirio, meu caro senhor ! De tremer ! De vir tudo abaixo !
Arthur entrevia orgias sonoras, o estalar do Champagne, can-cang, em que cabellos soltos perfu- mam o ar calido . . .
— E vive a gente aqui ! — suspirou.
— Na estrumeira ! — echoou Rabecaz.
E azedados á idéa das felicidades i.naccessiveis, uniam-se n'nma sympathia nascente.
A Arthur, o que lhe valia eram os livros. Recolhia cedo para casa, tomava o seu Victor Hugo
Rabeoaz arregalou os olhos.
— Victor Hugo . — rosnou com uma voz cava — Um mundo !
Aquella admiração, precisada n'u-ma palavra profunda, enthusiasmou Arthur. -E com a pupüla accesa, os cotovellos na mesa :
— Pois não é verdade ? 48 Contemplações ! 08 Miseraveis! E Lamartine ?
O Rabecaz alargou os braços, como para designar um seio de proporções mais que humanas e soltou :
-— Lamartine ? Um mundo !
— O typo d'Elvi:a, hein ? E o typo divino de Graziella ? Mas Alfred de Musset ? Oh ! Alfred de
O Rabecaz reflectiu, com um vinco na testa :
— D'esse não estou ao facto Mas Guizot ! Um mundo ! De tremer tudo ! Mais dous quartilhos, belia Maria
Eram onze horas quando sahiram da Corcovada. Ao passar deante da egreja de S, José, Rabecaz, excitado, insultou os padres, disse pilherias sobre os dogmas.
— P 'ra que serve isto, este covil ? —E brandia o bengalão para a fachada da egreja negra e muda.
— Deviam ser convertidas em escolas — disse
Arthur.
O Rabecaz, indifferente á instrucgão, encolheu os hombros :
— Devia ser tudo arrasado !
Depois, a casa do Carneiro, o rico logista de pannos, coberta d'azulejos, com as suas tres varandas de sacada, exasperou-o.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.