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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

Agora as duas famílias vivem junto uma da outra – e ao lado uma da outra vão envelhecendo. No dia dos anos de Ludovina há sempre um grande baile – e, sempre inseparável deste dia, vem à memória de Alves aquele outro dia de anos, em que ele entrou em casa, e viu no sofá amarelo... Mas há quanto tempo isso vai. E esta lembrança agora só faz sorrir. E fá-lo também pensar – porque este fato permanece como o grande acontecimento da sua vida e dele extrai geralmente a sua filosofia e as suas reflexões usuais. Como ele diz muitas vezes ao Machado – que coisas prudente é a prudência! Se naquele dia do sofá amarelo ele se tivesse abandonado ao seu furor, ou se tivesse persistido depois em idéias de vingança e rancor, qual teria sido a sua vida? Estaria agora ainda separado de sua mulher, teria quebrado a sua amizade íntima e comercial com o seu sócio, a sua firma não teria prosperado, nem a sua fortuna aumentado; e o seu interior teria sido o dum solteirão azedado, dependente de criadas, maculado talvez pela libertinagem. Nesses longos vinte anos que tinham passado, quantas coisas belas teria perdido, quantos regalos domésticos, quantos confortos, quantos doces serões de família, quantas satisfações da amizade, quantos longos dias de paz e de honra! A estas horas estaria velho, azedado, com a vida estragada, a saúde arruinada, e aquela vergonha do seu passado queimando-o sempre!

E assim, que diferença!

Tinha estendido os braços à esposa culpada, ao amigo desleal, e, com este simples abraço, tornara para sempre a sua esposa um modelo, o seu amigo um coração irmão e fiel. E agora ali estavam todos juntos, lado a lado, honrados, serenos, ricos, felizes, envelhecendo de camaradagem no meio da riqueza e da paz.

Às vezes, pensando nisto, Alves não pode deixar de sorrir de satisfação. Bate então no ombro do seu amigo, lembra-lhe o passado, diz-lhe:

— E nós que estivemos para nos bater, Machado! A gente em novo sempre é muito imprudente... E pôr causa duma tolice, amigo Machado!

E o outro bate-lhe no ombro também, responde sorrindo:

— Pôr causa duma grande tolice, Alves amigo.

Fim

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