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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

Decorreram seis meses. Ângela foi mudando salutarmente para ambos. Estava afeita. Conversava com melhor sombra; mas acariciava um gato para sentir o prazer nativo de suas aveludadas mãos. Hermenegildo olhava para o lombo luzidio do bicho, e espumava umas cóleras que engolia azedas como vômito de digestão derrancada.

Na primavera deste ano, o brasileiro foi à terra, e só, para queixar-se à irmã nestes termos:

― Ela não me tem casta de amor nenhum. Passam-se dias que não dá palavra, e noites que adormece a rezar e lá fica. Este casamento foi o diabo! Cabeçada assim nunca a deu homem de juízo! É bonita, mas de que serve? É como quem tem um painel em casa. Se é fidalga, isso cá a mim que me faz? Fidalga é a burra. Enfim, desde que me desenganei que não há volta a dar-lhe, lancei cá os meus cálculos, e já sei o que hei de fazer... Nada de me apaixonar.

Mulheres que me queiram não faltam. Eu me arranjarei como fazem todos.

A irmã deu-lhe bons conselhos, e recomendou-lhe paciência e juízo.

― Lembra-te, dizia ela, que a pobre menina fez uma promessa para te salvar da morte, e casou contigo sem amor.

― Então não casasse.

― Eu disse-to, e tu disseste que o amor vinha depois. Então espera que ele venha, meu filho.

― Agora vem! Olha que ela está-se a fazer velha; e de aborrecida já nem parece a mesma. Está mais amagrada, e branca como a cal da parede.

― Coitadinha! – atalhou Rita, condoída.

― Coitadinho de mim!

― Mas tu estás bem gordo, Hermenegildo!

― Bem haja eu! Pudera não! Vou fazendo pela vida.

― Mas não a mortifiques, que ela é um anjo.

― Não me cantes lérias, Rita! Aquela mulher tem lá no interior outra paixão antiga. E queira Deus ou o diabo que ele me não pregue alguma, que eu não sou para graças. À primeira que me fizer, ponho-me ao largo.

― Jesus! Tu estás aí a asnear, homem de Deus! Pois uma senhora tão boa, tão rezadeira...

― Ora, contos, minha amiga; as que rezam muito lá sabem por que o fazem. Se elas não tem pecados, p’ra que rezam? Responde lá, se és capaz!

― Tu és herege, Hermenegildo!

― Qual herege! Sou felósefo, é o que eu sou. E era.

Enquanto ele filosofava em linguagem correntia – mérito de que não se gabam muitos de seus confrades – lances extraordinários passavam na vida de Ângela.

Estava ela à janela em um Domingo de manhã quando viu subir da Praça Nova uma mulher de mantilha, que a fez estremecer vista de longe. Desceu de corrida ao primeiro-andar e abriu a janela a tempo que a mulher passava defronte. Duvidou, acreditou, hesitou, e enfim disse em voz alta à criada que a seguira assustada:

― Será Joana?!

A mulher, que passava, voltou o rosto rapidamente, deu de olhos em Ângela e estacou.

― É ela, é ela! – confirmou Vitorina.

― Suba Sr.ª Joana! – disse a senhora agitadamente, correndo a recebe-la no pátio.

― Ó minha senhora – exclamou Joana – Ó meu Deus! Pois eu encontro aqui a Sr.ª D. Ângela! Ainda torno a ver esta senhora!

Abraçaram-se enternecidas e subiram sem se desenlaçarem.

― Como ela está acabada! – disse Vitorina benzendo-se

― Estou muito velha e muito doente... e vossa excelência ainda tão formosa, mas mais descoradinha!... Eu vim de Viana há três meses, perguntei por vossa excelência, e ninguém me soube dizer onde parava. E estava aqui! E eu sem o saber!

― Então tem tido muitas amarguras na sua vida? – perguntou Ângela com os olhos afogados em lágrimas muito fitos nela.

― Oh, se tenho, minha senhora! Há perto de quatro anos a vivermos dum trabalho pouco rendoso...

― A viverem... – atalhou Ângela. – Então seu irmão...

― Meu irmão está comigo, minha senhora. Nunca nos desamparamos um ao outro, e Deus tem sido misericordioso conosco deixando-nos viver juntos...

― Aquela morte de seu marido... – balbuciou a sobrinha de D. Beatriz.

― Não me fale nisso, minha senhora, que ainda se me parte o coração, quando me lembro de o ver cheio de vida e lutando com a desgraça para poder pagar à Sr.ª D. Beatriz, sem vender a casa; e, em poucos dias, matou-o a paixão de se ver desonrado e...

― Sei tudo, sei tudo... – murmurou Ângela apartando-lhe as mãos. – Perdoe-me, sim? – continuou ela com a voz tremente. – Perdoe a quem foi a causa de morrer seu marido...

― A causa, minha senhora, não foi vossa excelência; foi a má estrela que nos perseguia. Ninguém podia prever o que aconteceu. Tão culpada foi a senhora, como eu, como o meu pobre Francisco. Por causa dele também vossa excelência padeceu muito, segundo lá ouvi dizer em Viana a uma criada que foi do convento. Afirmaram-me que vossa excelência chegara a sentir a precisão de trabalhar... Quem diria!...

― E que tem isso? Pior seria se o meu trabalho me não chegasse para o pão de cada dia... – refletiu Ângela.

― Quando contei isto a meu irmão, parecia que a luz dos olhos se lhe apagava nas lágrimas...

As duas senhoras referiram mutuamente a sua história, desde o momento em que se apartaram.

A leitora sensível antes quer ignorar misérias que ali se revelaram as duas amigas; que farte tristezas são já sabidas para piedade e simpatia.

(continua...)

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