Por Eça de Queirós (1925)
Agora, incessantemente, anciava por alguem com quem desabafar ! Desejaria lêr os seus versos, aquecer-se a uma admiração amiga, fallar dos seus poetas queridos, d'enthusiasmosj d'aspiragões revolucionarias. Mas ó casa das tias só vinham os Vascos, e a botica era frequentada apenas por um velhote caturra e obsoleto, o Sequeira, e por um proprietario, o Abreu, que todas as tardes, apoiado ao castao da bengala, murmurava sombriamente as mesmas palavras : Então que ha de politica As cousas vão mal, as cousas vão mal . . . » Na Villa, havia, na verdade, dous moços bachareis, mas Arthur não os conhecia : eram da Assembleia, das famosas soirées das Carneiros, que todos os sabbados faziam brilhar na praga escura as tres sacadas nobreg da sua casa, Muitas vezes, passando por lá, considerava-as com azedume, pensando como lhe seria facil captivar alh as senhoras, secitando, tendo ditos poeticos. Mas excluiam-n'o d'aquella sociedade brilhante a obscuridade das tias e a sua posição subalterna na pharmacia ; consolava-se então, pensando que seria aquelle um mundo burguez, occupado das intrigas da Villa, indifferente á arte e incapaz de sentir em concordancia com elle. Mais valia a sua solidão d'alma incomprehendida.
Porém, nas noites em que se sentia sem veia D, quando odiava os livros como se a sua esterilidade lhe tornasse antipathica a abundancia dos eloquentes — aquelle isolamento completo amargurava-o como um desterro n'uma rocha deserta. A nostalgia de Coimbra, das cavaqueiras poeticas do Cenaculo, d'aquella vida intensa que lhe parecia agora sublime, voltava-lhe mais pungente; e avido de poetas e de pililosophos, tinha de vir sentar-se entre as tias, fazendo as suas meias somnolentas, e o Albuquerquezinho, compenetrado, elaborando paciencias ou revistando o album das esquadras. Se ao menos tivesse uma irmã intelligente e poetica ! Fazia-o suspirar, cerrar os olhos, a idéa d'uma mulher d'alma romantica, que o amasse, recenesse, reconhecida, a revelação das suas sensibilidades e para o acalmar lhe soubesse tocar ao piano melodias de Weber ou arias de Mozart !
Foi esta necessidade de convivencia litteraria que o levou, de certo, a ligar-se com um sujeito da Villa, apesar d'haver entre ambos um contraste radical de temperamento, de gostos e de comprehensão da Aida. Chamavam-lhe em Oliveira d'Azemeis o Ra8
becaz. Era um homemzarrão, de carão audaz e vermelho, fortes bigodes de mosqueteiro, muito teso no seu casaco d'alamares debruado d'astrakan ; @om o seu chapéu ao lado, a ponta do lenço muito de fóra, o grande bengalão de canna da India, parecia a Arthur -— quando o via passar na praça, revirando para as creadas que iam á fonte os olhos avermelhados de genebra —um d'estes mestres d'armas, capitães a meio soldo, azedados e turbulentos, dos romances d'Eugbne Sue. Era empregado da administração e ninguem sabia como se achava alli havia dez annos. Porque era de Lisboa, amaldigoava Oliveira d'Azemeis ; mal sabia redigir um officio e trovejava livremente contra os governos. Era um bilharista famoso na Villa, grande homem do botequim da Corcovada, onde ficava, das quatro da tarde até á meia noite, carambolando, atirando para as fauces copinhos de genebra e fallando com auctoridade de politica e de mulheres. Foi alli que se encontraram, uma noite em que Arthur, ao passar, se refugiara d'uma pancada d'agua no bilhar quasi deserto. O Rabecaz, que batia melancolicamente carambolas solitarias, propoz a Arthur uma partida ás vinte e cinco.
— Que V. Ex. a , como frequentou Coimbra, deve ser da confraria do taco.
— Jogo mal.
Mas acceitou, com uma curiosidade d'aquella fi-
gura que tinha em Oliveira um relevo pittoresco. n, carambolando, conversaram.
O Rabecaz, immediatamente, injuriou o governo — e a sympathia nasceu de se reconhecerem ambos republicanos. No emtanto divergiam : Arthur queria os Estados-Unidos da Europa, governados pelos gandes genios : Victor Hugo devia presidir á Franga, Castellar, á Hespanha ; não haveria exercitos e os povos federados sentar-se-iam fraternalmente em banquetes symbolicos, cantando a Marsetheza. Rabecaz exigia um Robespierre, um Cromwell, para guilhotinar os fidalgos, confiscar os bens dos capitalistas e escavacar os padres !
— Nem barões, nem sotainas ! — berrou, brandindo o taco,
— Pelo que vejo — disse Arthur -— V. Ex.a é da escola de Proudhon.
— Eu não sou da escola de ninguem, meu caro senhor. Eu sou uma fera ! Quando penso no estado a que chegou este paiz, sou uma fera !
Trovejou então contra o clero • . — mas não con• cordavam tambem sobre questões religiosas. Arthur entendia que se devia adorar a Natureza, nos campos, deante do céu, templo eterno, e admirava Jesus, philosopho e democrata! Rabecaz não admittia Jesus, — porque, uma de duas, meu caro senhor, ou era um Dens e então tinha o poder de se não deixar matar, ou não era um Deus, e então
não podia ter resuscitado : porque deixar-se matar, para ter o prazer de se fazer resuscitar, parecia-lhe uma trica politica, impropria d'um ente divino !
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.