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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

No entanto, o ermita recolhera à sua cabana: mas, apenas entrara, soltou um grito, e saiu recuando, com os braços abertos, que pareciam sacudir uma visão. Era uma mulher, de esplêndida brancura e toda nua, que ele encontrara deitada de costas sobre o seu catre de folhas, com braços abertos que o esperavam e o chamavam. E durante um momento, as suas mãos, como impelidas por força oculta, tinham-se estendido para ela irresistivelmente: mas nos pés, tão brancos, reconhecera um pé de cabra – e tendo-se benzido freneticamente, a mulher evaporara-se, como um fumo negro, através dos ramos da cabana. Mas quase cedera à temerosa ilusão – e se no momento em que lhe estendia os braços tivesse morrido, era o Inferno, a danação completa! Então agarrou violentamente as disciplinas,e arrancando a túnica, gritou: “À obra, à obra santa!” As duas correias de couro de boi, armadas de unhas de ferro, cingiam-lhe a cinta, rasgavam-lhe a pele do dorso. A cada golpe, dava um gemido rouco: mas, pouco e pouco, de duros e aflitos os gemidos tornaram-se lentos e lânguidos: - e o pobre ermita, a cada vergastada, murmurava: “Socorro, meu Senhor, socorro, que estes golpes que dou em mim começam a ser com um contato delicioso!... Faz que eu sofra, Senhor! Dá ardor infinito aos vergões que sulcam a minha carne! Sopra para dentro das feridas a tua cólera! Que ela me queime e arda, como um pez inflamado!...” E, de repente, caiu como morto, com os braços estendidos.

Cheio de piedade, Cristóvão ergueu-o do chão, e empurrou-o como um corpo morto para dentro da cabana, e onde ele ficou estirado, com algum lento gemido que por vezes o sacudia.

A manhã clareava. Cristóvão adormeceu.

Então começou, desde esse dia, o seu serviço entre os ermitas. Todas as manhãs ia buscar um tonel à fonte, que brotava em cima, de entre rochas, e ia enchendo de ermida em ermida, as bilhas de barro. Depois cortava a lenha, amassava o pão, que se cozia num forno de tijolo, junto de uma capela onde os santos homens ouviam missa e comungavam. Era ele quem tocava o sino, punha giesta sobre o altar – e , por ordem do prior, espalhava seixos sobre o chão da capela, para que os joelhos dos ermitas se macerassem. Pela tarde, tendo reunido as esteiras, as alpercatas, os cestos, que os ermitas fabricavam, descia a uma povoação do outro lado da serra, onde trocava aquelas obras das santas mãos pela farinha, por ervas, e pelo vinho das galhetas. Todos estes serviços eram fáceis e doces. Mas, pouco a pouco, Cristóvão sentia como uma melancolia e um desejo das cidades e da vida dos homens. A montanha era triste e sem verdura; - mas a sua tristeza vinha sobretudo do silêncio, da amargura, da desolação dos santos que a povoavam. Todo o dia era por eles consumido a gemer, mesmo quando trabalhavam – e o seu esforço constante era a martirização dos corpos, onde se instalava o Inimigo. Mesmo imóveis, quietos, se estavam mortificando: uns traziam um cinto de pregos, que lhes rasgava a carne; outros introduziam debaixo do hábito formigas ou vespas que os picavam; outros suspendiam do pescoço uma pedra enorme, e caminhavam arquejando e tropeçando. Toda a doçura humana lhes era alheia. Ao pão que coziam misturavam terra; a água, só a queriam já envelhecida e pútrida. Por vezes alguns permaneciam, dias e dias, imóveis, de pé sobre uma pedra, com as mãos espalmadas, sob a chuva, e, quando o sono ou a fome os iam a vencer, enterravam uma espinha aguda no peito; outros dormiam com a cabeça sobre uma pedra, outra pedra sobre o estômago, outra sobre as pernas juntas, e eram como cadáveres de justos lapidados. Por vezes, Cristóvão oferecia-se para lavar as chagas, tirar os espinhos dos pés, curar com cinzas e água a mordedura dos insetos. Mas todos o repeliam, e para tornar as férias mais irritáveis expunham-nas ao sol ardente, ou deitavam-lhes areia fina. Um imenso sofrimento cobria a montanha; e sobre ela o Sol parecia uma lâmpada triste, através dela o vento um gemido angustiado.

Era, porém, de noite, que ela se tornava terrível. Animados pela escuridão, os demônios subiam por cada caminho, para atacar os santos homens. Em cada cabana era uma luta temerosa. Os santos tinham a oração, as suas longas disciplinas armadas de unhas de ferro; mas os demônios, por seu lado, tinham as coisas deliciosas a que as almas sucumbem. Aos ermitas que vinham esfomeados, os diabos ofereciam longas mesas, cobertas de flores, onde os pavões assados arqueavam as penas entre os montes de frutas e os blocos de gelo; aos que tinham sido cavaleiros, mostravam montes de ouro, armas invencíveis, longos exércitos para ir conquistar reinos e saquear cidades ricas; aos velhos faziam ofertas de mitras, que lhes dariam entre os homens a suprema autoridade das coisas santas; - e a todos a tentação suprema, a Beleza, a Mulher, ora magnífica, desenrolando as tranças, erguendo uma túnica de gaze, ora delicada, escondendo com os braços o peito nu, e sorrindo fragilmente.

(continua...)

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