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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

decidida, rindo, estendeu a mão ao Alencar, pediu-lhe que a visitasse, deu-lhe a adresse, o nome por que devia perguntar: Mme. de l'Estorade. E no seu boudoir, na manhã seguinte a Monforte fallou largamente de si: vivera tres annos em Vienna d'Austria com Tancredo, e com o papá que se lhes fôra reunir - e que lá continuava de certo, como em Arroios, refugiando-se pelos cantos das salas, pagando as toilettes da filha, e dando palmadinhas ternas no hombro do amante como outr'ora no hombro do marido. Depois tinham estado em Monaco; e ahi, dizia o Alencar, «n'um drama sombrio de paixão que ella me fez entrever» o napolitano fora morto em duello. O papá morrera tambem n'esse anno, deixando apenas da sua fortuna uns magros contos de réis, e a mobilia da casa em Vienna: o velho arruinara-se com o luxo da filha, com as viagens, com as perdas de Tancredo ao baccarat. Passára então um tempo em Londres: e d'ahi viera habitar Paris, com Mr. de l'Estorade, um jogador, um espadachim, que acabou de a arrasar, e que a abandonou legando-lhe esse nome de l'Estorade, que lhe era a elle d'ora em diante inutil porque passava a adoptar outro mais sonoro de Vicomte de Manderville. Emfim, pobre, formosa, doida, excessiva, lançara-se na existencia d'aquellas mulheres de quem, dizia o Alencar, «a pallida Margarida Gautier, a gentil Dama das Camelias é o typo sublime, o symbolo poetico, a quem muito será perdoado porque muito amaram.» E o poeta terminava: «ella está ainda no esplendor da belleza, mas as rugas virão, e então que avistará em redor de si? As rosas seccas e ensanguentadas da sua coroa de esposa. Sahi d'aquelle boudoir perfumado, com a alma dilacerada, meu Villaça! Pensava no meu pobre Pedro, que lá jaz sob o raio de luar, entre as raizes dos cyprestes. E, desilludido d'esta cruel vida, vim pedir ao absintho, no boulevard, uma hora de esquecimento.»

Affonso da Maia deu um repellão á carta, menos enojado das torpezas da historia, que d'aquelles lyrismos relambidos.

E recomeçou a passear, emquanto o Villaça recolhia religiosamente o documento que tinha relido muitas vezes, na admiração do sentimento, do estylo, do ideal d'aquella pagina.

- E a pequena? perguntou Affonso.

- Isso não sei. O Alencar não lhe fallaria na filha, nem elle mesmo sabe que ella a levou. Ninguem o sabe em Lisboa. Foi um detalhe que passou desapercebido no grande escandalo. Mas emquanto a mim, a pequena morreu. Senão, siga V. Ex.ª o meu raciocinio... Se a

menina fosse viva, a mãe podia reclamar a legitima que cabe á creança... Ella sabe a casa que V. Ex.ª tem; ha de haver dias, e são frequentes na vida d'essas mulheres, em que lhe falte uma libra... Com o pretexto da educação da menina, ou de alimentos, já nos tinha importunado... Escrupulos não tem ella. Se o não faz é que a filha morreu. Não lhe parece a V. Ex.ª?

- Talvez, disse Affonso.

E accrescentou, parando deante de Villaça - que olhava outra vez a braza morta tirando estalinhos dos dedos:

- Talvez... Sopônhamos que morreram ambas, e não se falle mais n'isso.

Estava dando meia noite, os dois homens recolheram-se. E durante os dias que Villaça passou em Sta. Olavia não se proferiu mais o nome de Maria Monforte.

Mas, na vespera da partida do administrador para Lisboa, Affonso subio ao quarto d'elle, a entregar-lhe as amendoas da Paschoa que Carlos mandava a Villaça Junior, um alfinete de peito com uma magnifica saphira - e disse-lhe em quanto o outro, sensibilisado, balbuciava os agradecimentos:

- Agora outra cousa, Villaça. Tenho estado a pensar. Vou escrever a meu primo Noronha, ao André que vive em Paris como você sabe, pedir-lhe que procure essa creatura, e que lhe offereça dez ou quinze contos de réis, se ella me quizer entregar a filha... No caso, está claro, que esteja viva... E quero que você saiba d'esse Alencar a morada da mulher em Paris.

O Villaça não respondeu, occupado a metter entre as camisas, bem no fundo da maleta, a caixinha com o alfinete. Depois, erguendo-se, ficou deante d'Affonso, a coçar reflectidamente o queixo. - Então que lhe parece, Villaça?

- Parece-me arriscado.

E deu as suas razões. A menina devia ir nos seus treze annos. Estava uma mulher, com o seu temperamento formado, o caracter feito, talvez os seus habitos... Nem fallaria o portuguez. As saudades da mãe haviam de ser terriveis... Emfim, o sr. Affonso da Maia trazia uma extranha para casa...

- Você tem rasão, Villaça. Mas a mulher é uma prostituta, e a pequena é do meu sangue.

N'esse momento Carlos, cuja voz gritava no corredor pelo vôvô, precipitou-se no quarto, esguedelhado, escarlate como uma romã.

- O Brown tinha achado uma corujasinha pequena! Queria que o vôvô viesse ver, andara a buscal-o por toda a casa... Era de morrer a rir... Muito pequena, muito feia, toda pellada, e com dois olhos de gente grande! E sabiam onde havia o ninho...

(continua...)

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