Por Eça de Queirós (1870)
— Estou hoje com os meus blue devils — dizia ela.Fazíamos então chá, falávamos ao fogão. Ela não era feliz com o marido. Era um homem frio, trivial e libertino; o seu pensamento era estreito, a sua coragem preguiçosa, a sua dignidade desa botoada. Tinha amantes vulgares e grosseiras, fumava impie dosamentecachimbo, cuspia o seu tanto no chão, tinha pouca ortografia. Mas os seus defeitos não eram excepcionais, nem destacavam. Lorde Grenley dizia dele admirado:- Que homem! Não tem espírito, não tem mão de rédea, não tem ar, não temgramática, não tem toilette, e, todavia, não é de sagradável. Mas a natureza fina, aristocrática, da condessa, tinha ocultas repugnâncias, com apresença desta pessoa trivial e monótona. Ele, no entanto, estimava-a, dava-lhe jóias, trazialhe às vezes um ramo de flores, mas tudo isso fazia indiferentemente, como guiava o seu dog-cart.O conde tinha por mim um entusiasmo singular achava-me o mais simpático, o mais inteligente, o mais bravo; penduravase orgulhosamente do meu braço, citava-me, contava asminhas audácias imitava as minhas gravatas.
Em tempo a condessa começou a descorar e a emagrecer. Os médicos aconselhavam uma viagem a Nice, a Cádis, a Nápoles, a uma cidade do Mediterrâneo. Um amigo da casa,que voltava da Índia, onde tinha sido secretário-geral, falou com grande admira ção de Malta.
O paquete da Índia havia sofrido um transtorno; ele tinha estado retido cinco dias em Malta,e adorava as suas ruas, a beleza da pequena enseada, o aspecto heróico dos palácios, e a animação petulante das maltesas de grandes olhos árabes...
— Queres tu ir a Malta? — disse uma noite o conde a sua mu lher.- Vou a toda aparte; mas, não sei porquê, simpatizo com Mal ta. Vamos a Malta.
Venha também primo.- Está claro que vem! — gritou o conde.
E declarou que não fazia a viagem sem mim, que eu era a sua alegria, o seu parceiro de xadrez e o inventor das suas gravatas, que me roubava num navio, e que me deixava seuherdeiro.
Cedi. A condessa estava encantada com a viagem: queria ter uma tempestade, queria irdepois a Alexandria, à Grécia, e beber água? do Nilo; havíamos de caçar os chacais, ir a Meca disfarçados — mil planos incoerentes que nos faziam rir...
Partimos num vapor francês para Gibraltar, onde devíamos tomar o paquete da Índia.Passámos no Cabo de São Vicente com um luar admirável, que se erguia por trás do cabo, dava uma dureza saliente e negra aos ásperos ângulos daquela ponta de terra e vinhaestender-se sobre a vasta água como uma malha de rede luminosa. O mar ali é sem pre mais agitado. A condessa estava na tolda, sentada numa cadei ra de braços, de vime, a cabeça adormecida, os olhos descansados, as mãos imóveis, uma sensação feliz na atitude e norosto.
— Sabe? — disse ela de repente, baixo, com a voz lenta. -Estou com uma sensação tãofeliz de plenitude, de desejos satisfeitos... E mais baixo: -...e de vago amor... Sabe explicar-me isto?
Estávamos sós, no alto mar, sob um luar calmo, o conde dor mia; a longa ondulação de água arfava como um seio, sob a luz; sen tia-se já o magnético calor da África. Eu tomeilhe as mãos e disse-lhe num segredo:- Sabe que está linda!
— Oh! primo! — interrompeu ela rindo. — Mas nós somos ami gos velhos! Está doido! O que é falar de noite, sós, ao luar, em amor! Ah! meu amigo, creia que o que senti,inexplicável como é, não foi por si, graças a Deus, foi por alguém que eu não conheço, que vou encontrar talvez, que não vi ainda. Sabe? Foi um pressentimento... Aí está! Como o luaré traiçoeiro, meu Deus! E eu que estou velha!
Eu ia responder, rir. Uma luz brilhou a distância, na bruma nocturna: o capitão aproximou-se:Conhecem aquela luz?
— Nunca viajei neste mar, capitão — respondi.- São portugueses, não F... Aquela luz é o farol de Ceuta. Era uma luz melancólica e humilde. Nenhum de nós se impor tava com Ceuta. Daí a momentos descemos à câmara. Eu estava surpreendido, nunca tinha ouvido à condessapalavras que ca racterizassem tanto o estado do seu coração. Achava-se naquele período em que um amor pode apoderar-se para sempre de uma existência.Que sucederia se lhe aparecesse um homem belo, nobre, forte, que lhe dissesse de joelhos, uma noite, sob o luar como há pouco, as coisas infinitas da paixão?
Na manhã seguinte avistámos o morro de Gibraltar. Desem barcámos. Numa praça, àentrada, um regimento inglês, de unifor mes vermelhos, manobrava ao som da canção do general Boum.
— Detesto os Ingleses — disse a condessa.- O quê?! — gritou o conde com uma voz indignada. — Os In gleses! Detestas os
Ingleses?E voltando-se para mim, com uma atitude profundamente pasmada e abatida — Detesta os Ingleses, menino!
II
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.