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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Entrou o Outono, e logo notei a desmedrança e abatimento de Marcolina. A decomposição parece que se via, como se os vermes lhe andassem roendo já perto da epiderme. Quis voltar com ela a Lisboa; mas achei-a pertinaz em não sair da aldeia. Dizia-me que fosse eu distrair-me e que a deixasse ali acabar os seus dias.

Poucos tinha ela já de vida, quando a mais velha das irmãs lhes escreveu contando que o pai voltara rico de África e pusera anúncios nos jornais indagando notícias de sua mulher e filhas. Dizia mais que ele fora ao recolhimento e chorara de alegria vendo-as; mas logo se enfurecera quando elas lhe falaram da mãe. Acrescentava que ele, sabendo que devia à enteada o refúgio de suas irmãs, estava ansioso por vê-la, e pedia-lhe que voltasse imediatamente a Lisboa.

Esta carta deu delírios de júbilo a Marcolina. Fez por vigorizar-se para a jornada, não tanto para testemunhar a felicidade das irmãs como para pedir ao padrasto que não desamparasse sua mulher. A esperança apagou-se súbita, quando preparávamos a partida. Fui, uma tarde, à vila próxima comprar alguns aprestos para a jornada, e quando voltei estava Marcolina nos últimos arrancos. Agitou-se vertiginosamente quando me viu: apertou-me ansiosamente contra o coração e murmurou:

- Agora... e só agora me atrevo a dizer-te que te amei... Deixo-te a eterna lembrança da desgraçada que só à hora da morte se julga digna de ti...

Morreu.

Não posso bem dizer o que senti nessa hora. Morrera uma grande parte do meu ser. Senti o vácuo; era no peito que o sentia. Devia ser o coração, o que vulgarmente se diz coração, que morrera.

É, pois, certo que eu amei aquela mulher?

Ó meu Deus e minha consciência! Vós bem vedes com que orgulho e saudade eu digo que sim, que amei!

Amei-a porque era mais pura, mais virgem e mais santa que a outra respeitada do mundo; e porque, em ódio à sociedade, que a desprezava, não posso vingá-la senão amando-a com eterna saudade.

SEGUNDA PARTE

CABEÇA

JORNALISTA

I

O homem não se deve somente à sua felicidade - primeira máxima.

O principal egoísta é aquele que se descia em explorar o coração alheio para opulentar o próprio com as deleitações do amor - segunda máxima.

Como a felicidade do egoísta é um paradoxo, a felicidade pelo amor é impossível - terceira máxima.

Quarta - o bem particular é resultado do bem geral.

Quem quiser ser feliz há-de convencer-se de que sacrificou ao bem geral uma parte dos seus prazeres individuais - quinta máxima.

O amor, considerado fonte de contentamentos ideais, é o sonho dum doido sublime - sexta.

Sétima - a mulher é uma contingência: quem quiser constituí-la essência de sua vida aleija-se na alma e cairá setenta vezes sete vezes das muletas a que se ampare do chão mal gradado e barrancoso do seu falso caminho.

Estas sete máximas fui eu que as compus, depois de ler a antiguidade e alguns almanaques que tratavam do amor.

Entrei a cogitar no modo de ser útil à humanidade com a minha experiência e inteligência do coração humano. Ofereceu-se-me logo azo de exercitar as minhas benévolas disposições. Escrevi para o Periódico dos Pobres, do Porto, uma correspondência contra o regedor da minha freguesia, acusando-o de me prender um criado para recruta. Nesta correspondência discorri largamente acerca dos direitos do homem. Examinei o que foi a liberdade em Grécia e Roma. Procurei-a no berço do cristianismo e vim com ela, através dos séculos, até a Revolução Francesa, que eu denominei o último verbo da sociabilidade humana: tudo isto por causa do recruta e contra o regedor da minha freguesia, que eu cobri de epítetos tais como ominoso e paxá de três caudas.

O regedor respondeu-me e eu repliquei. Seguiu-se uma série de correspondências, que podiam formar um livro importante para a história dos costumes dos regedores em Portugal no século XIX.

O prurido de escrever correspondências a respeito doutras muitas coisas, e mormente da dotação do clero - matéria que veio a ponto, quando eu tive uma questão com o meu pároco por causa da côngrua e pé-dealtar -, insinuou-me a persuasão de que havia em mim pronunciadas tendências para escritor político. Discutiase naquele tempo o Sr. Conde de Tomar, a quem uns chamavam Barba-Roxa e outros marquês de pombal. Decidi-me a favor dos segundos, que tinham incontestável razão. Escrevi uma série de artigos, como muito suco, em grande parte copiados do Dicionário Político de Garnier-Pagés; e, na parte de minha lavra, havia ali uma verdura de ideias que ninguém lhe metia dente. Por essa ocasião recebi de vários pontos do País diferentes cartas, umas insultadoras, capitulando-me de besta; outras, no mais moderado de seus encómios, profetizavam em mim o Girardin português. De Mirandela recebi a lisonjeira nova de se andarem quotizando alguns amigos da ordem para me oferecerem uma pena. Veio a pena, passado algum tempo; mas era uma pena de galinhola, uma zombaria que eu repeli com todas as potências do meu desprezo.

(continua...)

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