Por Camilo Castelo Branco (1864)
- Também a mim me está parecendo isso, ainda agora - observei eu, animado pela confissão da pessoa menos idónea para embicar no irrisório romanticismo da esposa de Eleutério Romão dos Santos.
- Mas - prosseguiu Afonso de Teive - esta judiciosa critica, no dia seguinte, converteu-se em piedade...
- Em amor - atalhei.
- Amor, sim, amor indomável, amor faminto de vê-la e de ouvi-la, de chorar com ela, de arrebatá-la ao marido, e insultar a sociedade e Deus na posse dela.
"Esporeava-me este desígnio, quando entrei em casa. Minha prima estava na primeira sala. Ergueu-se. Tomou-me com brandura a mão, levou-a ao coração arquejante, e disse-me: "Os braços da cruz redentora estão sempre abertos para os desgraçados. As palavras, embora escritas por mão criminosa, são santas. Meu pobre Afonso, já que ela te deu a desgraça, aceita-lhe também o conselho." Beijou-me a palma da mão e saiu da sala.
"Mafalda tinha visto, primeiro que eu, as palavras de Teodora. Compreendera o mistério, resistira ao ímpeto de as tirar, e, desde aquela hora, prometera a Deus exercitar todos os recursos de seu coração para me acautelar das cavilações da mulher ardilosa.
"Que poderia fazer a simples criatura? O infinito das forças humanas fez ela em meu resgate; mas muito já por noite dentro de minha vida lhe havia de conceder o Céu um pleno domínio em minha razão.
"Logo ao outro dia, Mafalda pediu-me que saísse com ela a um passeio longe por esses pinhais fora ao mosteiro de Landim.
""Sozinhos?", lhe perguntei. "Porque não? Sozinhos, com os nossos anjos-daguarda e o coração de tua mãe connosco, meu querido Afonso."
"Saímos. Mafalda ia taciturna. De encontro ao meu braço direito batia-lhe o coração com celeridade irregular. E eu sentia um enleio, uma constrição de alma, que não atinava com os termos comuns de uma palestra entre dois primos. No alto de um cerro, de onde havíamos de descer para umas veigas, Mafalda sentou-se e abrangeu com os olhos lagrimosos a redondeza dos horizontes. Perguntei-lhe que razão tinha para chorar. Respondeu-me que a mortificava a ideia de me ver ir talvez para sempre do lado de minha mãe e dos parentes que me estremeciam.
" Quem te disse que eu deixo minha mãe e parentes?", redargui. "Dizes-mo tu, se eu to perguntar com as mãos postas", respondeu ela, pondo as mãos em súplica. "Tartamudeei confusamente. As minhas palavras vinham falsificadas do espirito. Aqueceram-se-me as faces, porque eu não estava afeito a mentir. O coração teve quinhão deste pejo: a meiga criatura, que me interrogava, tinha uns ares de divinização, que me incutiam uma espécie de escrúpulo religioso.
"Vejo que te aflijo, meu primo", interrompeu Mafalda. "Es ainda bom, que não podes mentir à tua amiga. Queres ir ao teu destino... Vai, mas... escuta-me... "Seguiu-se um longo silêncio, que ela mesma interrompeu, exclamando em pranto desfeito: "Não posso!... A Virgem do Céu não ouviu os meus rogos!..."
"Acariciei-a com o melindre de irmão, instando-a a que falasse. Articulou ainda algumas palavras desatadas, fáceis, porém, de se ligarem em meu espírito prevenido.
Atalhei-a muito comovido, nestes termos: "Deves ter directo instinto do Céu, minha prima, porque a tua alma virginal é pura de toda a falsidade e não pode ser enganada.
Sabes que eu vou fugir, sem ter anunciado a nossa mãe este novo golpe. Fujo, minha irmã, porque entre a tua celestial dedicação e as minhas desvairadas paixões está o infinito. Tu és a criatura que ainda não sonhou o mal, sedenta de uma alma cheia das crenças da juventude. Vês a minha vida, posta em assédio pelas tentativas da mulher única do meu amor, da mulher perdida para mim e para si própria... observas isto com teus olhos inexperientes, e pasmas do poder infernal desta mulher. Oh! que Deus te livre de ainda veres o mundo despido das vestes que a tua candura lhe empresta! Deus te poupe a debruçares-te sobre o abismo de onde se tira a luz, ao clarão da qual se observam as chagas da sociedade. Esconde-te de mim e de todo o homem que viu o mundo; esconde-te, anjo do paraíso, para que nenhum homem te diga o que viu. Eu não sei como ousaria contar-te as minhas desventuras, Mafalda. A tua linguagem perdi-a, quando saí destas florestas, onde nós nos entendíamos como as avezinhas do céu se entendem. Que hei-de eu dizer-te hoje? Com que termos te mostrarei a minha indignidade?"
"Mafalda pôs-me com muita suavidade a mão na boca e disse: "Não digas mais nada, meu irmão, que já disseste tudo... A mulher única do teu amor... a mulher única do teu amor é... ela!..." Os soluços embargaram-lhe a voz. Faleceram-me a mim espíritos com que tentasse consolá-la. Todas as palavras, sem veemência de dentro, seriam pálidas e vãs. Mentir, bem que eu pudesse, de que serviria?... O meu silêncio era angustioso. Recriminava-me por me ter exposto àquele diálogo...
"Com satisfação a vi erguer-se e dizer-me: "Voltemos, primo?... Vamos para casa. Não percas instantes da companhia de tua mãe. Vamos...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.