Por Camilo Castelo Branco (1869)
Numa tragédia desta ordem, como se vê, o cômico está sempre negaceando à gente por detrás daquele Fialho, o qual, apesar dos chacoteadores, tinha ares de bom homem, e talvez desse de si um marido regular, se se ajoujasse a uma fêmea da sua espécie.
Por cortar demoras, não nos deteremos a descrever a bulha que a felicidade de Rita e do irmão fazia na casa. Fialho saiu logo para o Porto a prover-se dos aprestos para o noivado, e então comprou os 6.500$000 réis de brilhantes, como consta do primeiro capítulo desta crônica social, e cortes de seda, e peças de veludo, e quanto lhe depararam as casas francesas, e modistas escrituradas que levou consigo para a quinta.
No meio desta azáfama, Ângela estava como insensível, e, na cama, onde uma febre lenta a prostrara.
Vitorina, exagerando o susto, já era de parecer que se desligasse a ama da sua palavra, e não casasse.
― Que me importa a mim?! – disse Ângela. – Dum ou doutro modo hei de acabar breve. O coração já não o sinto. Não tenho saudades de nada. Morro, sem faltar à minha palavra. Se Deus me não der melhor vida depois, é que não há céu.
Ângela enganou-se. Ao fim de quinze dias estava cansada de pensar na sua desgraça, e indiferente, senão identificada. Estas refundições são vulgaríssimas. É minha opinião que as lágrimas deslaçam e rompem os liames de certas crenças e esperanças; porém, como à vida se fazem mister outros, opera-se uma renovação de vínculos que nos atam a outras preocupações. Nas índoles feminis são por via de regra tais renovações mais temporãs, em razão de operarem nelas as lágrimas em maior cópia. E se me não engano, há aí coração de senhora que pode frutificar colheitas variadas cada ano, duas, três e mais, consoante a regra de lágrimas. E uma aleivosia que o mundo ignaro lhes assaca de versatilidade não é mais que ilusões que se afogam e renovos que desabrocham assim que as lágrimas se estancam.
Postas estas coisas como explicação de outras relativas à filha do general Noronha, cumpre saber que no dia 4 de novembro de 1841, pelas 9 horas da manhã, contraíram o sacramento do matrimônio D. Ângela de Noronha Barbosa com Hermenegildo Fialho.
Entre as testemunhas deste consórcio, invejado das damas e cavalheiros do concelho, estava aquele João Pedro mordomo do general.
É que ele tinha chegado na véspera a entregar a D. Ângela o cofre das jóias de D. Maria d’Antas, e a mostrar uma carta, escrita desde Paris, em que o general dizia: “Se souberes onde para a senhora que pernoitou nessa casa, entrega-lhe um cacifro de objetos de oiro e pedras que está no meu quarto, e cobra recibo”.
João Pedro, informado da riqueza do noivo, antes de o ver, felicitou a filha de seu patrão; mas, depois que o viu, coçou as farripas da calva, e disse à puridade, a Vitorina:
― Oh! Com dez milheiros de diabos!...
― Então que é? – perguntou a criada.
― É que, se a fidalga não for santa, aquele homem há de ser...
E calou-se, porque adivinhou que eu tinha de contar fidelíssimas estas passagens.
XVII HISTÓRIA DOS BRILHANTES
Em janeiro de 1842, Hermenegildo Fialho passou a residir no Porto em casa sua, mobiliada pomposamente, na rua do Bispo.
Diga-se desde já, para anteparar estranhezas futuras, que o brasileiro andava cismático e a modo de melancólico.
Não se descosia com ninguém, porque a irmã, sua confidente, ficara a governar a quinta dos Choupos. É, todavia, fácil entrar nas cavernas daquele peito, sem embargo do enxundioso arnês.
Fialho conjectura que Ângela o aborrece. Nem um sorriso, nem uma carícia, nem uma palavra que não seja resposta concisa e seca. Ele não ousa argüi-la; mas, se mansamente se queixa, Ângela responde com um franzir de testa e um silêncio tétrico.
Principia o arrependimento a desbastar-lhe as opulências musculares, e o fígado a dar rebates de desordem intestinal. Recorre aos emolientes; mas a esposa, como ele revelou ao compadre Atanásio, manda-lhe cingir as papas por um galego.
Ângela faz isto inocentemente. E talvez que, matrimoniada com um arcanjo, não pusesse mão em linhaça, se os arcanjos pudessem sofrer do fígado.
Debaixo das telhas do próximo passam agonias ridículas que não viu o dom Cleofas de Le Sage.
Vitorina está sempre a procurar na cara do amo sinais de morte. Se o vê mais amarelo, ou mais vermelho, com o nariz menos sucoso, e os olhos mais encovados, diz logo a Ângela: “O homem não tarda!”. A frase era elipticamente econômica; o não tardar era ir depressa para a sepultura.
Resolvido a viver e distrair-se, Fialho abriu escritório na Reboleira e comprou navios. E distraía-se. A bailes e teatros não ia, nem Ângela os desejava. Como é já notório, em substituição à missa, comprou oratório para uso da esposa. Hermenegildo, em matéria de religião, era bestial.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.