Por Eça de Queirós (1925)
Mas, Srª Condessa – eu sou feliz em o poder dizer bem alto – o que acima de tudo devo ao Conde d'Abranhos, é ter-me ele refeito um ser moral. Eu, que na mocidade, sob a influência perniciosa de leituras inconvenientes e de camaradagens fúteis, partilhava as ideias que a sociedade condena, fui transformado pelo seu exemplo, pelos seus conselhos, pela sua eloquência e pela sua protecção. Sim, Srª Condessa, seu ilustre marido encontrou-me pobre, e portanto repastando-me de leituras perniciosamente democráticas, e acompanhando com moços de talento, é certo, mas inteiramente devorados pelos estragos de unia filosofia materialista e de uma sociologia anárquica; empregando-me como seu secretário particular, com um ordenado suficiente às neces-sidades de minha família (eu casara então com a minha angélica Madalena), o Conde d'Abranhos deu-me os meios materiais de me tornar um conservador convicto, um defensor fervoroso das instituições, um amigo da ordem. Pondo-me ao abrigo da pobreza, digo-o bem alto, pôs-me ao abrigo da depravação intelectual, moral e social.
E de V. Exª, Srª Condessa, que direi, que o não tenham dito na terra os pobres de que V. Ex.» cura os males e afasta a necessidade, e no Céu, os anjos de quem V. Ex.» é seguramente predilecta – e decerto futura companheira? Permita-me pois, Srª Condessa, que ponha aos pés de V. Exª este trabalho, no qual consignei a primeira fase da carreira admirável do Conde d'Abranhos, essa ascensão vertiginosa às culminâncias do poder, de modesto filho de Pena fiel a ministro ilustre, e onde deixei o que na minha alma existe de melhor, de mais nobre, de mais duradouro – a minha respeitosa admiração pela grande figura do Conde d'Abranhos.
Sou de V. Exª
o mais humilde criado
Z. Z.
Ex-secretário do Ex.mo Sr. Conde d'Abranhos,
sócio honorário
do Grémio Recreativo do Rio Grande do Sul.
108 – Rua do Carvalho
Lisboa – 1º de Janeiro de 1879.
O CONDE D'ABRANHOS
ALÍPIO SEVERO ABRANHOS nasceu no ano de 1826, em Penafiel, no dia de Natal.
A Providência, por um símbolo subtil e engenhoso, fez nascer no dia sagrado em que nasceu Jesus de Nazaré, aquele que em Portugal devia ser o mais forte pilar e o procurador mais eloquente da Igreja, dos seus interesses e do seu reino.
Muitas vezes o Conde se comprazia em contar que, nessa noite de 24 de Dezembro de 1826, Inverno que ficou na história pelas grandes neves que caíram, seus pais – segundo a tradição venerada na família – tinham armado um presépio, como era costume nesses tempos em que a boa fé portuguesa amava a piedosa devoção dos altares íntimos. Ao centro do presépio, florido de muita verdura, entre os animais da narração evangélica, o Menino Jesus sorria, nos braços de uma Virgem, obra delicadamente trabalhada por Antão Serrano, o grande santeiro de Amarante. Em torno, ardiam as velas de cera; na cozinha, cantavam nas frigideiras os rojões da ceia; o lume de lenha húmida estalava jovialmente, e fora, na neve que caía, os sinos repicavam para a missa do Galo – quando a mãe do Conde, subitamente
Sentiu o tenro ser...
como diz o nosso grande lírico no seu poema, A Mãe.
O parto foi singularmente feliz, e, aludindo a esta circunstância, o Conde muitas vezes me dizia, que, segundo o seu velho amigo Dr. Flores, a facilidade em nascer era o indício misterioso de um destino fácil e de imprevistas fortunas. Todos os homens providenciais – Napoleão I, o nosso Santo Papa Pio IX, o grande estadista Fonseca Magalhães, nasceram – como dizia o Conde com chiste – «com uma perna às costas!» A fortuna começa-lhes no ventre maternal: a porta da vida abre-se-lhes a dois batentes, mostrando-lhes uma sequência de épocas gloriosas, como salões festivos. Outros têm de arrombar com dor essa mesma porta, saindo para um destino escuro como uma estrada de Inverno. Providenciais antíteses da Sorte!
E o parto da mãe do Conde foi tão feliz, que, meia hora depois das primeiras dores, o pequeno Alípio foi trazido triunfantemente para a sala. A comadre sentara-se casualmente diante do presépio, e os dois meninos – o que havia de ser um homem, e o que fora um Deus – sorriamse à claridade das velas festivas do Natal, ambos nuzinhos, ambos ao colo, enquanto de fora, lançados vivamente, vinham os repiques do sino, através dos flocos de neve!
Tocante quadro; e poucos conheço – se atendermos à glória do Conde d'Abranhos – que mais mereçam ser lançados na tela ou esculpidos no mármore.
Os pais do Conde, é geralmente sabido, eram pobres. Mas a origem da sua família não só é plebeia – como afectavam supor os seus adversários de ideias – mas, bem estudada, revela uma origem tão nobre como a das melhores casas do norte de Portugal.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.