Por Eça de Queirós (1887)
Já Alpedrinha, de joelhos, desafivelava desesperadamente o saco. Então Maricoquinhas, com uma inspiração delicada, agarrou uma folha de papel pardo; apanhou do chão um nastro vermelho; e as suas habilidosas mãos de luveira fizeram da camisinha um embrulho redondo, cômodo e gracioso - que eu meti debaixo do braço, apertando-o com avara, inflamada paixão.
Depois, foi um murmúrio arrebatado de soluços, de beijos, de doçuras...
- Mary; anjo querido!
- Teodorico, amor! ...
- Escreve-me para Jerusalém...
- Lembra-te da tua bichaninha bonita...
Rolei pela escada, tonto. E a caleche que tantas vezes me passeara, enlaçado com Mary; por sob os arvoredos aromáticos do Mamudiê, lá partiu, ao trote da parelha branca, arrancando-me a uma felicidade onde o meu coração deitara raízes, agora despedaçadas e gotejando sangue no silêncio do meu peito. O douto Topsius, abarracado sob o seu guarda-sol verde, recomeçara, impassível, a murmurar cousas de velha erudição. Sabia eu por onde íamos rodando? Por sobre a nobre calçada dos Sete-Estados, que o primeiro dos Lágidas construíra para comunicar com a Ilha de Faros, louvada nos versos de Homero! Nem o escutava, debruçado para trás, na caleche, agitando o lenço molhado da minha saudade. A doce Maricoquinhas, à porta do hotel, ao lado de Alpedrinha, linda sob o chapéu florido de papoulas, fazia esvoaçar também o seu lenço amoroso e acariciador; e um momento estas duas cambraias brancas sacudiram uma para a outra, no ar quente, o ardor dos nossos corações. Depois eu caí sobre a almofada de chita, como cai um corpo morto...
Apenas embarcado no Caimão, corri a esconder no beliche a minha dor. Topsius ainda me agarrou pela manga para me mostrar sítios das grandezas dos Ptolomeus, o porto do Eunotos, a enseada de mármore onde ancoravam as galeras de Cleópatra. Fugi; na escada esbarrei, quase rolei sobre uma irmã da caridade, que subia timidamente, com as suas contas na mão. Rosnei um "desculpe, minha santinha". E tombando enfim no catre, deixei escapar o pranto à larga, por cima do embrulho de papel pardo; ele era tudo que me restava dessa paixão de incomparável esplendor, passada na terra do Egito.
Dous dias e duas noites o Caimão arquejou e rolou nos vagalhões do Mar de Tiro. Enrodilhado num cobertor, sem largar do peito o embrulhinho de Mary eu recusava com ódio as bolachas que de vez em quando me trazia o humaníssimo Topsius; e desatento às cousas eruditas que ele imperturbavelmente me contava destas águas chamadas pelos egípcios o Grande Verde, rebuscava, debalde, na memória, bocados soltos de uma oração que ouvira à Titi, para amansar as vagas iradas.
Mas uma tarde, ao escurecer, tendo cerrado os olhos, pareceu-me sentir sob as chinelas um chão firme, chão de rocha, onde cheirava a rosmaninho; e achei-me incompreensivelmente a subir uma colina agreste de companhia com a Adélia, e com a minha loura Mary; que saíra de dentro do embrulho, fresca, nítida, sem ter sequer amarrotado as papoulas do seu chapéu! Depois, por trás de um penedo, surgiu-nos um homem nu, colossal, tisnado, de cornos; os seus olhos reluziam, vermelhos como vidros redondos de lanternas; e, com o rabo infindável, ia fazendo no chão o rumor de uma cobra irritada que roja por folhas secas. Sem nos cortejar, impudentemente, pôs-se a marchar ao nosso lado. Eu percebi bem que era o diabo; mas não senti escrúpulos, nem terror. A insaciável Adélia atirava olhadelas oblíquas à potência dos seus músculos. Eu dizia-lhe, indignado: "Porca, até te serve o diabo?"
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.