Por Eça de Queirós (1925)
Quando a vela de sebo se derreteu no castiçal de latão, ficou desesperado. Queria prolongar aquelIa noitada romantiea : então sahiu pé ante pé, esguedelhado, raspando phosphoros. No seu quarto, sob a protecção da sentinella, Albuquerquezinho resonava ; no corredor, os olhos do gato fixaram-no, phosphorescentes e aterrados. Não encontrou candieiro, nem vela . . . Foi ao oratorio. Em cima d'uma antiga commoda com fecharia de metal, erguia-se um alto crucifixo ennegrecido dos annos, e em redor apinhava-se toda uma Côrte celeste, de barro, de massa e de madeira . . . Uma lamparina ardia perpetuamente aos pés do crucifixo, e n'aquelIa alcova abafada, o reflexo da torcida punha uma vaga claridade mystica em redor, na aureola pallida d'uma santa, no dourado livido d'um Menino Jesus, na brancura d'uma renda de toalha, na encadernação canonica d'um velho in-folio. Errava um cheiro adocicado de junquilhos seccos, de cera e de maçã camoeza . . . Arthur arrebatou' a lamparina, deixou os santos nas trevas, e todo o resto da noite, aquelle pavio devoto, habituado a erguer a adoraCão da sua luzinha para as chagas de Jesus ou
o burel de Santo Antonio, alumiou paginas profanas, cheias dos gritos da Paixão e das rebelliões da Duvida.
Adormeceu quando a madrugada apparecia nas frinchas da janella, e sonhava que ia remando n'um barco, com o Taveira, por um rio de legenda, seguindo o corpo d'Ophelia que a corrente levava . . . quando acordou estremunhado, aos gritos da tia Ricardina que abrira a janella e apertava as mãos na cabeça, attonita, deante da lamparina secca :
— Tu queres-me matar com desgostos, menino ! — gritava suffocada. — Pois tu tiraste a luz do oratorio
Arthur explicou que fôra uma dôr de barriga.
— Se elle se achou doentinho . . . — murmurou logo a tia Sabina, que entrara atraz d'ella, assustada.
— Não ha doenças ! Que chamasse ! -É um desacato ! -É um desgosto que me ha-de levar á cova. É a primeira vez, em quarenta annos. Como póde alguem esperar a ajuda de Nosso Senhor, se até se lhe tira o bocadinho de luz ! Não me venha com as suas, mana Sabina ! A sua cabeça bem a conheço. Olhe o que ella lhe custou. Veja o desgosto que soffreu !
E sahiu aos ais pelo corredor.
Cercado de livros de versos, Arthur julgou ter- lhe voltado de novo a veia sobretudo, talvez.
—Ah, menino ! menino ! da tua edade, filho, é da tua edade !
Mas Ricardina, essa, desapprovou com espalhafato o despauterio do menino E era para isso, para fazer versos, que assim arrasava a saude, deltando-se de madrugada e trazendo aquella cara osverdeada ! Que visse onde os versos tinham levado o tio Theotonio ! E era um talentão, esse, intimo de fidalgos, conhecido na Côrte ! Pois por lá morrera, n'uma enxerga de hospedaria, com uma camisa na mala e um montão de papelada ! . . .
E no seu horror á Poesia, que ella considerava a origem fatal da fome e do vicio, pediu ao Vasco que trouxesse o menino a idéas mais serias, mais praticas, de carreira e de futuro. O botica,rio fel-o em phrases muito graves, muito meditadas : se o snr. Corvello gostava de empregar os seus vagares, como era justo na sua edade, porque não unia o util ao agradavel ? Porque não estudava a bella physiea, a bella chimica, que lhe seriam de tanto auxilio no seu futuro pharmaceutico ? E accrescentou com bondade :
Eu não digo, quando se tem já uma posição na sociedade e alguns vintens de lado, que não seja bonito poder produzir um bom acrostico, ou, sem malicia, um engraçado epigramma *l. . Mas fazer da poesia a principal occupação, não ! Desculpeme o gnr. Corvello, mas é uma grave imprudencia e ha-de concorrer para o desviar dos seus deveres !
Arthur empallidecia de raiva.
Só na tia Sabina encontrava sympathia. Essa, desde a descoberta do caderno dos Esmaltes e Joias, parecia estimal-o mais, como se a habilidade poetica fosse uma evidencia da ternura da alma. Um dia, mesmo, quando ella estava arranjando o seu gavetão, a doce velha tirou d'entre um livro d'oragões um papel amarellado, de dobras muito gastas e com mysterio pediu-lhe que o lesse : mas baixinho !
Eram versos, versos á tia Sabina, versos datados do Porto, de 1841 !
Eis chegado o momento de partir,
Dôr e luto se apossam do meu sêr ;
Longe dc ti, ó anjo feiticeiro,
A vida é treva, não posso viver
E hav{a doze quadras n'este estylo, trabalhadas ao gosto do tempo, mistürando fanatismos d'amor e palpites de morte ás melaneolias do outomno e ás tristezas da separação.
Arthur disse, sorrindo, n'uma complacencia de mestre amavel :
— São bonitos, tia Sabina, estão bem feitos . . . A velha dobrou silenciosamente o papel :
E eram verdade n'esse tempo, filho. — murmurou por fim. — Quando a gente é nova !
Arthur teve vontade de a abraçar ! O seu acanhamento reteve-o. Mas estimou-a mais desde então : quasi desejava contar-lhe as suas melancolias e as suas ambições ; mas vendo-a depois, á noite, cabecear com somno sobre a mesa, ou, na sombra do Oratorio, enfiando Salvé-Rainhas, sentia que a pobre velha não o comprehenderia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.