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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Senhor redactor. — A pessoa que lhe escreve esta carta é a mesma que nessa aventurada estrada de Sintra, popularizada pela carta do doutor ***, guiou a carruagem para Lisboa. Sou já conhecido, com a minha máscara de cetim preto e a minha esta tura, por todas aspessoas que tenham seguido com interesse a su cessiva aparição destes segredos singulares: eu era nas cartas do doutor *** designado pelo — mascarado mais alto — Sou eu. Nun ca supus que me veria na necessidade lamentável de vir ao seu jor nal trazer também a minhaparte de revelações! Mas desde que vi as acusações improvisadas, sem análise e sem lógica, contra o doutor *** e contra mim, eu devia ao respeito da minha persona lidade e àconsideração que me merece a impecável probidade do doutor *** o vir afastar todas as contradições hipotéticas e todas as improvisações gratuitas, e mostrar a verdade real, implacável, indiscutível. Detinhame o mais forte escrúpulo que pode dominar um carácteraltivo: era necessário falar numa mulher, e arrastar pelas páginas de um jornal, o que há no ser feminino de mais ver dadeiro e de mais profundo: a história do coração. Hoje não me re-têm essas considerações; tenho aqui, diante da página branca em que escrevo, sobre a minha mesa, este bilhete simples e nobre: — «Vi as acusações contra si e os seus amigos, e contra aquele dedicado doutor ***. Escreva a verdade, imprima-a nos jornais. Escon da o meu nomecom uma inicial falsa apenas. Eu já não pertenço ao mundo, nem às suas análises, nem aos seus juízos. Se não fizer isto, denunciome à polícia.»

Apesar, porém, destas grandes e sinceras palavras, eu resolvi nada revelar do crime, econtar apenas os factos anteriores que me tinham ligado com aquele infeliz moço, tão fatalmente morto, mo tivado a sua presença em Lisboa, e determinado esse desenlacepassado numa alcova solitária, numa casa casual, ao desmaiado clarão de uma vela, ao pé de um ramo de flores murchas. Outros, os que o sabem, que contem os transes dessa noite. Eu não. Não quero ouvir apregoar pelos vendedores de periódicos a história das dores maisprofundas de um coração que estimo.

Senhor redactor, há três anos a casa onde eu mais vivia em Lis boa, aquela em quetinha sempre o meu talher e a minha carta de whist, onde ria as minhas alegrias e faziaconfidências das minhas tristezas, era a casa do conde de W. A condessa era minha prima.

Era uma mulher singularmente atraente: não era linda, era pior: tinha a graça. Eramadmiráveis os seus cabelos louros e espessos; quando estavam entrelaçados e enrolados, com reflexos de uma infinita doçura de ouro, parecia serem um ninho de luz. Um só cabelo quese tomasse, que se estendesse, como a corda num ins trumento, de encontro à claridade, reluzia com uma vida tão vi brante que parecia ter-se nas mãos uma fibra tirada ao coração do Sol.Os seus olhos eram de um azul profundo como o da água do Me diterrâneo. Havia neles bastante império para poder domar o pei to mais reb elde; e havia bastante meiguice emistério, para que a alma fizesse o estranho sonho de se afogar naqueles olhos.

Era alta bastante para ser altiva; não tão alta que não pudes se encostar a cabeça sobre o coração que a amasse. Os seus movi mentos tinham aq uela ondulação musical, que seimagina do na dar das sereias.

De resto, simples e espirituosa.Dizer-lhe que os meus olhos nunca se demoraram amorosa mente na pureza infinita da sua testa, e na curva do seu seio, seria de um estranho orgulho. Tive, sim, nos primeiros tempos em que fui àquela casa, um amor indefinido, uma fantasia delicada, um. Desejo transcendente por aquela doce criatura. Disse-lho até; ela riu, eu ri também; apertámo-nos gravemente a mão; jogámos nessa noite o écarté; e ela terminou por fazer numa folha de papel a minha caricatura. Desde então fomos amigos; nunca mais repa rei que ela fosse linda;achava-a um digno rapaz, e estava conten te. Contava-lhe os meus amores, as minhas dívidas, as minhas tristezas; ela sabia ouvir tudo, tinha sempre a palavra precisa e de finitiva, o encanto consolador. Depois, também, ela contava-me os seus estados de espírito nervosos,ou melancólicos.

(continua...)

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