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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

Resolvi regressar por muitas vezes; mas, fatalmente, a primeira imagem que eu via, voltando em espirito à Pátria, não era a de minha mãe! Ela sempre, Teodora sempre!

"Ao cabo de um ano de expatriação, voltei para o Porto. Dava-me então como curado. A memória dela era já fria: o pulso não se acelerava, nem do coração me subia à cabeça um golfo ardente de sangue. Fui alegrar minha mãe, ao lado da qual encontrei Mafalda, que lhe assistia à convalescença de uma perigosa enfermidade. Notei sensível mudança no rosto de minha prima. Os risos do anjo tinham ascendido ao Céu no perfume de suas orações. A coruscante luz daqueles olhos tinham-na apagado os prantos. As madeixas caíam-lhe soltas sem flores, sem ornatos, como dons de quem os esquece, ou não sabe de que eles valham às venturas da existência. Porém, formosa da auréola santa da dor sem culpa. Que paixão me avassalou naqueles primeiros dias! Com que religiosidade eu beijava a mão de minha mãe aquecida pelos lábios dela! Recordome de a encontrar sozinha no pomar. Sentei-me ao lado da mulher puríssima. Tomei-lhe. com súbita sofreguidão os dedos que me ofereciam um pomo. Não ousei beijar-lhos... apenas balbuciei: "Minha querida irmã..." Mafalda respondeu-me:

"Deves assim chamar-me, porque eu já me afiz a chamar minha mãe à tua, meu primo". "A paz dos primeiros dias, aquele suave repousar do espírito, entre as duas caridosas almas, que mo distraiam com as indizíveis doçuras da domesticidade, durou menos de três semanas. Ao sentir-me fatigado da igualdade de todas as horas, angustieime, e cobrei horror do meu futuro. "Que abominável homem sou!", dizia eu no meu intimo senso, repelindo-me a mim próprio com uma restante força de virtude. "Se me repugna o crime, por que a não esqueço? Se a não posso esquecer, para que me devoro nestas cobardes tentativas de lhe fugir? Odeio-a, e em minha alma lhe exoro perdão deste ódio. Se me dói o coração saudoso dela, abomino-me, e recurvo sobre mim próprio as unhas desta feroz paixão."

"A fugir de mim mesmo, ia abrigar-me sob os olhos de Mafalda. Ela via nos meus olhares a submissão imploradora e não entendia a cobarde procedência daquele fitá-la com tanta brandura. Apreciou-me erradamente. Teve-se em conta de amada. E, quando eu mais atormentado pelejava com a visão de Leça e da alameda das Caldas, Mafalda reavia do Céu os júbilos de outros dias e a púrpura do rosto. A compadecida amargura com que eu a fitava afigurara-se à ingénua menina a expressão do amor contemplativo, como ela o sentira e escondera sempre de todos, salvo de seu pai.

"Minha mãe, a ocultas da sobrinha, perguntava-me a respeito dela coisas, cujo fito estava posto no casamento. Eu respondia a verdade, como se Deus necessitasse interrogar a minha consciência. Mostrava receios de ter desbaratado as flores do coração, ao apuro de não ter já virtudes que me fizessem um digno esposo dela. Minha mãe não podia entender-me; obrigava-me suavemente a explicações e, ouvindo-me, dizia soluçante: "Não se quebrou ainda o fatal encantamento!... Deus te salve, meu desgraçado filho!"

"A quarenta passos de distância de minha casa está uma cruz de pedra tosca, sobre uma peanha de cantaria. A esta cruz se referia Teodora na carta que leste. Quando ela tinha seis anos, esteve com sua mãe uma temporada em nossa casa, e voltou ali aos nove. Algumas vezes nossas mães se sentaram nos degraus do cruzeiro enquanto nos, com vergônteas floridas de acácias e árvores de fruta, tecíamos uns desajeitados festões que pendurávamos dos braços da cruz.

"Levou-me para lá o coração dez anos depois. Sentei-me na peanha da cruz. Acaso relanceei os olhos pela pedra, que lhe formava o soco, e vi letras. Reparei, e reconheci os caracteres de Teodora. Eram duas datas: 5 de Junho de 1848, com a assinatura inicial T. P. Seguia-se a outra, em letras mais de fresco: 10 de Setembro de 1849, com as mesmas iniciais, e as seguintes palavras: Aqui veio orar a alma penada.

Eu estava então em 15 de Setembro daquele ano. Cinco dias antes, pois, aí tinha estado Teodora.

"Recolhi-me com febre. A celestial graça de Mafalda, que me saiu ao tope da escada, respondi com uma afectuosidade falsa. Importunava-me o anjo. Eu queria então uma orgia infernal. Queria arder e palpitar no deleite sequioso, que zomba dos deveres, e insulta o espantalho da moral, impassível carrasco das organizações ardentes. O aspecto mavioso de Mafalda era uma lança que me traspassava. Fugi-lhe e, por alguns dias, raras horas nos encontrámos.

"Voltei novamente ao cruzeiro. Do braço esquerdo da cruz pendia uma coroa de flores do campo; e, na base, inscrita outra data: 20 de Setembro de 1849. - Meia-noite. - O sol da manhã queimará as flores; mas o braço da cruz redentora permanecerá aberto para os desgraçados. - T. P. "Eu queria esconder de minha mãe estas inscrições, feitas a lápis. Embebi um lenço em água e desfi-las. Hei-de agora confessar-te que a pertinácia de Teodora, por algumas horas, me pareceu ridícula."

(continua...)

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