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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

Não era já a herança que a alvoroçava. Contentá-la-ia a entrega das jóias, como um socorro imediato, para poder, agradecida a hospitalidade do brasileiro, procurar sua vida noutras condições. Mas até esta esperança se fechara à pobre senhora!

Na correnteza destes sucessos, aconteceu adoecer de hepatite Hermenegildo Fialho. Bem pode ser que o amor contribuísse a sobreexcitar a inflamação crônica do fígado, entranha que se ressente das perturbações morais por esquisita simpatia. Alguma razão, pois, tinha a mortificada Sr.ª Rita para atribuir a doença do irmão a pura paixão de alma.

A enfermidade agravou-se. Vieram as intermitentes, a intumescência da víscera, o fastio e a rápida magreza, os suores noturnos e o delírio, enfim o estado em que a medicina capitula assustadoramente a doença.

Nos delírios, o brasileiro rosnava o nome de Ângela, caso que fazia sempre repuxar chafarizes de lágrimas dos olhos da irmã, ao passo que o rosto de Ângela se entristecia compassivamente.

Uma vez que o doente desagradou notavelmente ao médico, Rita lançou-se de joelhos aos pés da hóspeda, e clamou:

― Meu anjinho, faça um voto a Nossa Senhora dos Remédios que há de casar com meu irmão, se ele melhorar!

Faça, pelas chagas de Cristo, e por alma de sua mãezinha!

― Levante-se, Sr.ª Rita! – disse Ângela, inclinando-se para ergue-la nos braços.

― Não me levanto sem vossa excelência prometer a Nossa Senhora que há de casar com o meu pobre Hermenegildo, que morre de paixão pela senhora.

― Jesus! – balbuciou a atribulada menina.

― Então? – instou a suplicante velha. – então, minha senhora!...

― Pois a Sr.ª Rita cuida que a minha promessa salva seu irmão?! – argumentou Ângela.

― Cuido, cuido, porque Nossa Senhora há de ouvir a promessa dum anjo!

― Pois... sim – gaguejou a violentada senhora.

― Casa com ele? – acudiu Rita, radiosa de esperança.

― Sim... caso...

Levantou-se Rita com exultação de mentecapta, entrou no quarto do enfermo, e chamou-o tão estrondosa e vertiginosamente que o homem abriu os olhos, as ventas, e a boca, tudo a um tempo e medonhamente.

― Olha que a Sr.ª D. Ângela fez a Nossa Senhora dos Remédios a promessa de casar contigo, se tu melhorasses.

― Hum... – fez Hermenegildo, e quedou-se extático a olhar para a jubilosa cara de Rita, e ela a repetir-lhe até quarta vez a notícia.

E, ao mesmo tempo, Ângela soluçava e estalejava com os dentes vibrados por um frio nervoso. E Vitorina, a fim de consolá-la e tirar-lhe a carga da promessa, dizia-lhe:

― Não se aflija, menina, que o homem não escapa! Quando vossa excelência casar com ele, dou licença que me enforquem.

Voltou o médico Segunda vez naquele dia, e achou o homem menos febril, e a língua mais úmida. No seguinte, a febre foi menor; e o suor da noite quase insensível. Ao outro dia, como o doente já desemperrasse a língua para dizer que a dor o deixava respirar livremente, o médico, voltado para Rita e Ângela, declarou, com vaidade de ter restaurado um moribundo, que o doente estava livre de perigo, e ia entrar em convalescença.

E, dentro em pouco, entrou a bolear-se, a arredondar-se, a pele a encher, as orelhas a enconchar-se com um escarlate de coralinas, o nariz a vestir-se de tegumentos, o todo enfim do carão a luzir e a estilar sorosidades de sangue novo que parecia uma espumadeira de tomates.

E Ângela via tudo aquilo com o falso contentamento das viúvas do Malabar que assistem à disposição das achas para a fogueira que há de assá-las.

Hermenegildo esperava que a sua hóspeda lhe desse azo a falar-lhe em casamento; ela, porém, esquivava os lanços preparados pouco engenhosamente pela irmã do noivo.

Era fatal e indeclinável o cálix!

Uma vez, o brasileiro, esporeado pela mana, afoitou-se a perguntar a D. Ângela se queria ser sua esposa.

― Sim, senhor – balbuciou ela, rápida e laconicamente como o suicida que fecha os olhos, e se despenha, antes que a reflexão lhe pinte os horrores da queda.

Hermenegildo emparveceu mais que o comum nos sujeitos da sua natureza. O sorriso que lhe entreabriu as queixadas parecia escancarar os alçapões daquele peito carecido de ar, como se o júbilo o afogasse.

A careta era feia; mas amorosíssima. Havia ali mescla de sátiro cupidinoso e de amante soez. Ângela não viu a fachada do coração que sonhoreava. Se naquele instante o encarasse, bem pode ser que a Senhora dos Remédios fosse lograda.

Dado o dilacerante sim, a ideal amante de Francisco Costa, a maviosa cismadora das Esperanças, entrou no seu quarto, e não pode chorar. Sentia um peso de estupidez, uma sensação na cabeça, como um capacete de lama, permita-se a figura.

Vitorina foi eminentíssima em insartar argumentos sobre argumentos convincentes de que Ângela havia de ser feliz, embora não amasse o marido, e simplesmente o estimasse como homem que a levantava com sua riqueza à independência, à consideração pública, e ao futuro gozo de ser viúva: “porque ele, dizia a criada, doutro ataque vaise embora”.

(continua...)

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