Por Eça de Queirós (1887)
Então, à idéia dessas longas ondas que me iam levar a ríspida terra do Evangelho, tão longe da minha Mary, um pesar infinito afogou-me o peito, e irreprensivelmente se me escapou dos lábios, em gemidos entoados, queixosos e requebrados... Cantei. Por sobre os terraços adormecidos da muçulmana Alexandria soltei a voz dolorida, voltado para as estrelas; e roçando os dedos pelo peito do jaquetão onde deviam estar os bordões da viola, fazendo os meus ais bem chorosos - suspirei o fado mais sentido da saudade portuguesa:
Coa minh'alma aqui te ficas,
Eu parto só com os meus ais,
E tudo me diz, Maricas,
Que não te verei nunca mais.
Parei, abafado de paixão. O erudito Topsius quis saber se estes doces versos eram de Luís de Camões. Eu, choramingando, disse-lhe que estes, ouvira-os no Dafundo ao Calcinhas.
Topsius recolheu a tomar uma nota do grande poeta Calcinhas. Eu fechei a vidraça; e depois de ir ao corredor fazer às escondidas um rápido sinal da cruz, vim desapertar sofregamente, e pela vez derradeira, os atacadores do colete da minha saborosa bem-amada.
Breve, avaramente breve, foi essa noite estrelada do Egito!
Cedo, amargamente cedo, veio o grego de Lacedemônia avisar-me que já fumegava na baía, áspera e cheia de vento, el paquete, ferozmente chamado o Caimão, que me devia levar para as tristezas de Israel.
El señor D. Topsius, madrugador, já estava embaixo a almoçar pachorrentamente os seus ovos com presunto, a sua vasta caneca de cerveja. Eu tomei apenas um gole de café, no quarto, a um canto da cômoda, em mangas de camisa, com os olhos vermelhos sob a névoa das lágrimas. A minha sólida mala de couro atravancava o corredor, fechada e afivelada; mas Alpedrinha estava ainda acomodando, à pressa, a roupa suja dentro do saco de lona. E Maricoquinhas, sentada desoladamente à borda do leito, com o seu gentil chapéu enfeitado de papoulas e as olheirinhas pisadas, contemplava aquele enfardelar de flanelas, como se fossem bocados do seu coração atirados para o fundo do saco, para partirem e não voltarem mais!
Levas tanta roupa suja, Teodorico!
Balbuciei, dilacerado:
- Manda-se lavar em Jerusalém, com a ajuda de Nosso Senhor!
Deitei os meus bentinhos ao pescoço. Nesse instante Topsius assomava à porta, cachimbando, com a barraca do seu guarda-sol fechada sobre o braço, de galochas anchas para a umidade do tombadilho, e um volume da Bíblia enchumaçando-lhe a rabona de alpaca. Ao ver-me sem colete, repreendeu a minha amorosa preguiça.
- Mas compreendo, bela dama, compreendo! - acudiu ele, às cortesias a Mary, esgrouviado e onduloso, de óculos na ponta do bico. E doloroso deixar os braços de Cleópatra... Já Antônio por eles perdeu Roma e o mundo... Eu mesmo, todo absorvido na minha missão, com recantos crepusculares da história a alumiar, levo gratas memórias destes dias de Alexandria... Deliciosíssimos os nossos passeios pelo Mamudiê!... Permita-me que apanhe a sua luva, bela dama!... E se voltar jamais a esta terra dos Ptolomeus, não me esquecerá a Rua das DuasIrmãs... "Miss Mary, luvas e flores de cera". Perfeitamente. Consentirá que lhe mande, quando completa, a minha História dos Lágidas... Há detalhes muito picantes... Quando Cleópatra se apaixonou por Herodes, o rei da Judéia...
Mas Alpedrinha, da beira do leito, gritava., alvoroçado:
- Cavalheiro! Ainda há aqui roupa suja!
Rebuscando, entre os cobertores revoltos, descobrira uma longa camisa de rendas, com laços de seda clara. Sacudia-a; e espalhava-se um aroma saudoso de violeta e de amor... Ai! Era a camisa de dormir da Mary; quente ainda dos meus abraços!
- Pertence à senhora D. Mary! E a tua camisinha, amor! gemi eu, cruzando os suspensórios.
A minha luveirinha ergueu-se, trêmula, descorada - e teve um poético rasgo de paixão. Enrolou a sua camisinha, atirou-me para os braços, tão ardentemente, como se entre as dobras viesse também o seu coração.
- Dou-ta, Teodorico! Leva-a, Teodorico! Ainda está amarrotada da nossa ternura!... Leva-a para dormires com ela a teu lado, como se fosse comigo... Espera, espera ainda, amor! Quero pôr-lhe uma palavra, uma dedicatória!
Correu à mesa, onde jaziam restos do papel sisudo em que eu escrevia à Titi a história edificativa dos meus jejuns em Alexandria, das noites consumidas a embeber-me do Evangelho... E eu, com a camisinha perfumada nos braços, sentindo duas bagas de pranto rolarem-me pelas barbas, procurava angustiosamente em redor onde guardar aquela preciosa relíquia de amor. As malas estavam fechadas. O saco de lona estalava, repleto.
Topsius, impaciente, tirara das profundezas do seio o seu relógio de prata. O nosso lacedemônio, à porta, rosnava:
- D. Teodorico, es tarde, es mui tarde...
Mas a minha bem-amada já sacudia o papel, coberto das letras que ela traçara, largas, impetuosas e francas como o seu amor: "Ao meu Teodorico, meu portuguesinho possante, em lembrança do muito que gozamos!"
- Oh, riquinha! E onde hei de eu meter isto? Eu não hei de levar a camisa nos braços, assim nua e ao léu!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.