Por Eça de Queirós (1940)
Os amigos do candidato liberal estavam radiosos; era impossível que depois daquele discurso, em que Lord Burghley se declarou, ingenuamente, idiota, sua senhoria tivesse um voto, não contando com o seu! Não se podia realmente supor que um dos círculos mais ricos, mais importantes, mais progressivos da Inglaterra, que até aí fora representado pela alta capacidade de Mr. Ward Hunt, o ministro da Marinha, mandasse ao parlamento um sujeito – que «nunca ouviu falar de semelhante coisa», referindo-se à administração local. Pois bem: dada a votação, verificou-se que Lord Burghley era deputado por uma maioria de mil e quinhentos votos! Os jornais dizem, com razão, que isto faz desesperar de tudo. Porque enfim que razão tiveram para preferir aquele estúrdio imbecil ao seu opositor, um homem instruído, digno, com uma educação política e uma prática administrativa? A razão decrépita, obsoleta, feudal – de que Lord
Burghley é um lorde, filho de lorde, da antiga família Cecil, milionário, proprietário... e foram levados pelo prejuízo tradicional, que lhes fez admirar, venerar, servir e preferir a tudo aquela família ilustre que reina no condado e que lhes faz a honra de lhes aceitar uma renda enorme em troco da licença que lhes outorga de lavrarem a terra e de lhe mandarem as melhores frutas ao castelo!... Que o lorde seja estúpido, infame, devasso, que importa»? É o lorde. Como tal, é ele que deve administrar, ser deputado, general e almirante.». E quando se lhe fala em administração local, nada mais natural que ele encolha os ombros e declare que nunca ouviu falar em semelhante coisa!... Também não tem obrigação».
É o lorde!
Um processo instaurado contra três agentes de policia, implicados numa grande fraude financeira e acusados de terem feito escapar um certo número de falsários notáveis, tem chamado as atenções críticas para a organização da polícia inglesa. E reconhece-se com melancolia que, neste ponto, a Inglaterra está muito abaixo, como sistema e como pessoal, das nações continentais.
Os agentes da policia (detectives) são decerto suficientes, como estratégia e como finura para capturar o ladrão vulgar, bronco e assustado, que abre com chave falsa uma porta traseira ou vasculha as algibeiras de um sujeito distraído: mas desde que se trata de um criminoso astuto, com meios, vastas relações, inventivo e expedito, o detective actual é invariavelmente logrado. Isto provém de que são escolhidos sem educação. A policia é uma ciência que devia ter a sua aprendizagem, os seus compêndios, a sua prática. Mas aqui tudo o que se exige num detective é que ele conheça bem Londres e que tenha uma certa coragem; ora os grandes ladrões conhecem Londres ainda melhor e são, por profissão, mais destemidos! O perigo dálhes a invenção, a ideia, a faísca; e enquanto o detective vai farejando e seguindo antiquados e rotineiros meios de caça (que os criminosos sabem de cor e que evitam a rir) o pássaro desaparece. Em França, na Áustria, na Itália, a polícia é composta de homens que recebem na prefeitura uma educação demorada, que trabalham ao principio sob a direcção de chefes hábeis e que se vão assim iniciando lentamente nas tácticas, nas regras, nos segredos, nas invenções recentes da profissão: ganham deste modo um tacto, um hábito de expediente rápido, um faro, um espírito de intriga e de enredo, uma percepção repentina, um talento inventivo, que os tornam temíveis.
Enquanto ao polícia ordinário, o policeman, que vigia a rua, pode dizer-se que em Inglaterra, pouco a pouco, um sistema errado tem-nos tornado inúteis para tudo que não seja policiar o movimento das ruas, dar indicações a quem não conhece a cidade e acompanhar os bêbados mais sonolentos. Não se lhes peça mais nada. Isto provém de que ultimamente todos os comissários e chefes de policia são antigos oficiais do exército; e o seu primeiro cuidado é, por consequência, com o hábito do regimento, dar à força policial. à sua disposição, um aspecto militar» Escolhem os homens não pela sua aptidão, mas pela sua estatura. Contanto que sejam enormes, barbados, de movimentos secos, direitos como um poste e agranadeirados, não se lhes reclama mais nada» Fardam-nos, ensinam-lhes a marchar com tesura e entregamlhes a protecção da cidade. Isto explica porque se vê a cada esquina de Londres um policeman colossal, hercúleo, imóvel, rolando em roda olhares severos, e na esquina oposta, risonho, um pickpocket – é que se procurou um tambor-mor e não um hábil.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.