Por Eça de Queirós (1925)
— Sim, tia Ricardina, obrigado. Até estimo Quando ellas sahiram despedaçou os versos. E até ao jantar, movendo-se pelo quarto, tomado de desespero, pensou em fugir d'Oliveira d'Azemeis. Tinha a certeza de que o seu genio, na frequentação do Vasco, entre os unguentos e os bocaes, pereceria como um lirio desfolhando-se n'urna caverna. Porque não iria para Paris, ser operario, amar uma Mimi republicana do Faubourg St. Antoine e cons pirar contra o Imperio ? Pensou em ir para Lisboa, fazer-se escudeiro n'uma casa fidalga, onde a sua figura e as suas replicas profundas lhe dariam bem depressa o amor da senhora condessa ou da mulher do banqueiro . ,
Mas tinha as desesperações superficiaes — e d'ahi a dias, com o casaco de laboratorio que pertencera ao habil Alfredo, preparava resignadamente, sob o olhar paternal do Vasco, a sua primeira garrafada de mistura salina,
Consolava-se achando na sua sorte similitudes com biographias illustres : pensava em Michelet impressor, em Proudhon conduzindo pelo Rhodano carregações de madeira ; lembreva-se da phrase de Damião : o homem moderno deve trabalhar com as suas mãog e philosophar com o seu cerebro. » Depois, eram sete mil e quinhentos por mez . , ,
Do resto o trabalho era breve. O principal negocio do Vasco consistia n'umas Pastilhas peitoraes que inventara e de que fornecia todo o dist,ricto. Á noite, dispensava Arthur : a essa hora D. Galathea descia á botica e o Vasco, apesar d'A sua confiança na virtude heroica do novo praticante, não queria, por systema, depois do lusco-fusco, corações de vinte annos na botica Temia sobretudo a noite como mais propicia ás fraquezas ternas e á passagem de bilhetinhos subrepticiog, destruidores da sua honra.
Depois, veio-lhe outra felicidade. Uma manhã, que estava só na botica, a porta abriu-se, como arrombada, e appareceu o collosso do Theodosio. Viera á Villa. de passagem : vinha buscar pastilhas do Vasco para uma « pequena que se lhe encatar rhoara» ; fez estalar os ossos do caloiro com um abra co, chalaceou sobre a botica, convidou-o a ir á quinta, e, ouvindo-o queixar-se do aborrecimento da Villa, da falta de livros, exclamou divertido :
— Ah, caloiro, é isso que te falta Caramba, está a calhar ! Eu trouxe dous caixotes atulhados de livraria, mas lá na quinta não me servem de nada. . . Se queres, mando„te para cá um caixote . . , Ou ambos ! Tem cuidado com encadernações, que lá n'isso faço gosto.
Dás-me a vida, Theodosio !
— Pois valeu, caloiro I
A chegada dos douB caixotes, uma tarde, foi um alvoroço na casa dag Corvellcs, Arthur precipitara-se em cabello da pharmacia. E Ricardina que subira ao quarto a vêr-lh'os destapar, aterrou-se deante d'aquelles montões de volumes amarellos em que de certo se deviam tramar cousas contra a Religião :
— Tu vaes tresler, menino Olha não te faça mal !
Depois do chá, aferrolhou-se no quarto, atirouse ao seu thesouro, sofregamente, como se tivesse achado no quintal uma panella de dinheiro. Eram romances, poemas, criticas: dramas, philo,sophi'1R Mas só os poetas o attrahiam e ia atravez dos volumes espalhados na cama, lendo uma pagina ou uma estrophe, logo passando a outra, avido de versos sonoros, de dialogob'> de adjectivos ricos, e cada livro lhe renovava aquella, exaltação especial do tempo de Coimbra, acordando-lhe na alma antigos enthusiasmos do Cenacuto,
Com Victor Hugo, sentiu-se outra vez pantheista, confundiu-se na alma Universal do Ser, declamou :
Arbres, rochas, roseaux, tout vit I Tout est plein d'êmes I
Todo o platonismo dos mezes em que amaro idealmente, lhe voltou, com languidezes elegñeaa que lhe passavam na alma, relendo em Lamartine :
Un soir, t'en souviens tu, nous voguions en silence I
E os lambes de Barbier fizeram-lhe bater o coração de novo, com as aspirações d'uma democracia lyrica :
La liherté n'est pas une comtesse
Du nol)le faubourg St. Germain, Que le son d'un fusil fait tomber en faiblesse, Qui met du rouge et du carmin.
C'est une forte fille, aux puissantes mamelles,
Aux mains rouges et teintes de sang I
Leu toda a noite, sentado aos pés da cama, respirando a largas golfadas, com a delicia de quem sahe d'um carcere, a atmosphera que o envolvia, feita das emanações d'ldeal exhaladas d'aquelles volumes romanticog. E era, entre aquellas paredes do seu ,quarto, como uma região luminosa, acima da terra, onàe não havia tias nem pharmacias, onde o sopro das paixões grandiosas se casava á musica dos rythmos novos e em que elle se movia arrebatadamente por entre as creações da Arte. Alli, palpitavam no ether as azag d' Eloá ; a um canto de taverna romantica, vibrava o riso lugubre de Rolla ; além, a cotovia cantava no jardim dos Capuletos ;
não havia uma carruagem que não levasse uma pallida Dama das Camelias ; todos os animaes eram poeticos como a cabrinha d'Esmeralda e nos cemiterios, Hamlet meditava, fazendo rolar sobre um chão tragico a caveira d'Yorick.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.