Por Camilo Castelo Branco (1864)
"Quando as noites são assim tristes, gosto de as ver... Está vento, primo", continuou retirando-se; "não estejas aí ao ar desamparado. Boas noites."
"E fechou rapidamente a janela. "Encaminhei-me à alameda dos banhos, na inepta esperança de ver ali os vestígios de Teodora, ou não sei se ela mesma. Não sei ao que ia. E impossível explicar o intento que nos impele em casos semelhantes, quando a gente, alguns anos depois, inquire de si mesmo o sentido das suas intenções: são actos estranhos à razão, dos quais só pode desculpar-se o delírio. A verdade é que eu fui à alameda e andei, palmo a palmo, recordando-me do local em que ela me saiu e a direcção que tomara na retirada.
Sentei-me num dos bancos de pedra e conjecturei se ela teria estado ali sentada. Cerrei ouvidos a todos os rumores para escutar o som das palavras de Teodora, que me ecoavam do intimo do coração. Atirei com a alma suplicante e desesperada àquele céu de bronze, negro como ela. Pedia a Deus o esquecimento da mulher, com a veemência do justo atribulado que pede a coroa do triunfo.
"Levantei-me e andei por as trevas, esbarrando nas árvores e refrigerando o fogo da testa e mãos nas fontes e charcos que topava. Ao raiar da manhã, estava eu nas raízes da Falperra. Senhoreou-me então um sono letárgico e invencível. Adormeci com a face encostada à raiz de uma árvore, e acordei, coberto de camarinhas de orvalho, ao calor dos primeiros raios de sol. Retrocedi pela estrada das Taipas e entrei em casa quando meu tio Fernão, admirado da minha falta, andava indagando dos criados se eu saíra de madrugada.
"Mafalda apareceu-me com o semblante pálido, os olhos raiados de muito chorar e o azul-violeta das olheiras carregado e distendido até meia face. Meu tio ligeiramente aludiu à minha falta na presença da filha. Saímos da mesa de almoço e entrámos na sala, onde Mafalda recordava as suas músicas ao piano e, algumas vezes, se acompanhava cantando. Neste dia, a adorável penitente sentou-se ao piano; e, com uma só das mãos dedilhou umas toadas monótonas, mas celestialmente saudosas e melancólicas.
O velho acenou-me, a ocultas da filha. Segui-o; saímos, e caminhámos a pé na direcção das rumas de Citânia. A meio caminho estava uma casa alagada, com uns lanços de muro ainda em pé. O velho avizinhou-se das rumas, estendeu o braço como indicador apontado e disse: "Aqueles pardieiros pertenceram a teu tio-avô Cristóvão de Teive.
Naquele tempo, os homens de vida infamada, quando os últimos Invernos lhes geavam na cabeça e os sinos, dobrando a finados, lhes atraiam os olhos para a sepultura, o remorso penetrava-os até ao âmago, e estorcia-os nas roscas das suas mil víboras, até que Deus se amerceava deles e os tomava para o seu tribunal. Teu tio-avô foi um mau desgraçado. O amor de uma mulher da corte entrou-lhe no coração e apodreceu-lho à força de lhe derramar o sangue com as torturas da perfídia. O moço empestado veio para a província e cevou o seu ódio em quantas vitimas pôde surpreender adormecidas no regaço do seu anjo de inocência. Aos quarenta anos, pesou sobre ele a maldição de Deus. Desde a raiz dos cabelos até à raiz das unhas chagou-se-lhe o corpo de lepra. De repente, em redor dele, fez-se uma solidão horrenda. Desampararam-no todos. Nem os enjeitadinhos, indigitados como filhos dele, ousavam chegar-lhe um púcaro de água.
Cristóvão de Teive tinha esta casa, aqui afastada de vizinhos, construída não sei para que fim há três séculos. Aqui se encerrou e viveu quinze anos aquele vivo amortalhado nas úlceras da sua pele. A sua companhia era a ama, que o amamentara, e que Deus, em recompensa, preservou da terribilíssima enfermidade. Morreu desamparado, legando esta casa à mulher que lhe cerrara as pálpebras. A enfermeira foi após ele, devolvendo a casa aos herdeiros de seu amo. Cinquenta anos depois, quando eu vim aqui, encontrei estes pardieiros. Dos nossos parentes ninguém pôs pé adentro das soleiras, que ali estão, onde existiram as portas...
"Deteve-se meu tio breves instantes e concluiu: "Afonso, o divino Mestre doutrinava com parábolas: o homem destes calamitosos tempos moraliza com exemplos. Teu tio-avô começou como tu: vê tu, meu sobrinho, se vingas um correr de vida melhor que o dele. Se uma mulher te cancerou o peito, esconde-te, depura-te, faz-te bom, e depois volve ao mundo a procurar a felicidade do coração. Enquanto esse dia de regeneração não chegar, foge das mulheres puras. Eu tenho uma filha única, um tesouro que Deus me confiou. Minha filha chora por ti. Afonso, se as lágrimas dela te não resgatam das presas de uma mulher perdida, foge, e foge hoje mesmo. Agora, silêncio, Afonso..."
"Na madrugada do dia seguinte, saí das Taipas e fui para Ruivães. Dias depois, desisti do plano de me formar, e fui para o Porto. Saía um vapor para Liverpul:
embarquei, e estive na Inglaterra; passei a França; e de França fui residir na Suíça uns seis meses. O arrependimento de deixar minha mãe e a minha terra seguiu-me sempre.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.